
A adesão do espectador a este projeto dependerá bastante de sua tolerância a uma forma muito específica de cinema fantástico. A Grande Viagem da Sua Vida acredita no amor, nos encontros à primeira vista, nas conciliações, na redenção pelo afeto, nos golpes do destino destinados a unir amantes. O diretor Kogonada estima que existe deslumbramento em qualquer vida, cabendo a nós a disposição para observá-la. Sempre existirá um pôr do sol, uma canção, uma dança, uma lembrança capaz de nos alegrar ou, pelo menos, nos deixar “contentes” (posto que a felicidade é apresentada enquanto estado de difícil obtenção). A certa altura da trama, os personagens visitam uma exposição intitulada “A magia do tempo e do espaço”. Os objetivos do projeto se resumiriam nesta frase.
Existe apenas uma cena musical, propriamente dita, na narrativa. Mesmo assim, a obra busca reproduzir aquela sensação típica dos musicais clássicos, quando personagens simplesmente se levantam, entoam uma melodia, e os pedestres os acompanham. Trata-se da sensação de que tudo é possível e, de repente, o mundo ao redor pode se moldar à nossa vontade. O recente A Vida de Chuck buscava um encantamento semelhante. Já este caso almeja o constante estado de delírio, ou seja, a crença de que nossa vivência se torna mais saborosa conforme se afasta do real. Aqui, o escapismo se converte em meio e finalidade.
Resta saber se esta oferta de amor eterno ainda se encaixa em nossos tempos cínicos, mais propensos às paródias do romance do que às afirmações do mesmo.
Ao menos, os criadores jamais escondem a proposta de uma jornada rumo ao “país das maravilhas”. O serviço mágico de locação de carros, com o qual David (Colin Farrell) se depara desde o princípio, funciona de acordo com regras avessas ao real. Ao adentrar o gigantesco galpão vazio, ele encontra duas figuras cômicas que já possuem uma foto de seu rosto sobre a mesa. O destino o espera, literalmente. Basta que o GPS do veículo indique a ele e a Sarah (Margot Robbie), outra cliente, o percurso exato rumo à “grande jornada da sua vida”. Siga tantos metros, vire à direita, pode parar: você chegou ao seu destino. O universo manda sinais extremamente precisos, sem ambiguidade nem exigências de adivinhação.
Ao longo do percurso, os protagonistas encontram portas que os conduzem a momentos do passado. Deste modo, podem reatar com os desafetos, se declarar ao familiar que jamais recebeu o devido carinho, e confrontar a namorada ingrata da adolescência. Ao invés de recorrer a flashbacks, o roteiro permite que ambos ajam diretamente em seus passados, de modo a provarem uma versão alternativa dos fatos. Entretanto, esqueça o efeito borboleta: as alterações na infância e juventude surtem efeito nulo no presente e futuro. São meros parênteses terapêuticos, possibilitando experimentar diferentes decisões de vida. A obra, na totalidade, remete a um gentil e inconsequente exercício analítico.
Apesar da previsibilidade deste romance (graças à configuração do roteiro, e ao fato de a moça pedir o desconhecido em casamento desde os minutos iniciais), o discurso se diverte em postergar o máximo possível a concretização do afeto. Ele é tímido e confuso — numa composição que Farrell adora apresentar em filmes independentes —, ao passo que ela insiste ser uma pessoa horrível, “monstruosa”, com quem não vale a pena se relacionar. (O teor passivo-agressivo destas falas soa bastante incômodo). Com o tempo, e devido à insistência do dispositivo fantástico (“Dê carona para Sarah”, ordena o GPS), terminarão por acreditar que podem se tornar pessoas melhores, dignas da união. “Toda essa viagem é uma chance para a gente se abrir”, ele explica. “E a vida é melhor quando a gente está aberto”.
Kogonada embala este singelo otimismo numa estética de caixa de bombom. O distanciamento do real pretende justificar a plastificação de cenários, luzes e mise en scène. Por isso, chove e neva em abundância, como forma de catalisar afetos represados; uma intensa luz direcional, de holofotes, ilumina o beco com acesso à loja de aluguel de carros; o hospital onde a mãe morre apresenta proporções e aspecto de estúdio; o pôr do sol do alto de um farol no Canadá sustenta a aparência improvável das projeções em tela verde. Assume-se o artifício — o que não implica numa sensação menos artificial, ou menos edulcorada por isso. Até graves acidentes de carro terminam com passageiros ilesos, enquanto cervos mortos possuem sangue de lã, posto que a violência real é sumariamente recusada — inclusive, permite-se fazer as pazes com a mãe morta, que ressuscita para nos oferecer tal oportunidade. Todo trauma pode ser magicamente reparado.
Como se as doçuras não fossem suficientes, outros recursos de humor e romance sublinham a equivalência entre homem e mulher destinados a permanecer juntos. Enquanto ela enfrenta a doença da mãe, ele descobre uma doença superada pouco após seu nascimento. Enquanto ela rompe com o namorado de anos atrás, ele rompe com a namorada de anos atrás — os quatro sentados na mesma mesa, lado a lado. Quando ele desiste dessa jornada forçada de autodescoberta, ela toma uma decisão idêntica, e a câmera os acompanha em paralelo. David chega a uma casa alternativa à sua, e Sarah também. É evidente que aceitarão a dinâmica de casal, mais cedo ou mais tarde, devido à recusa do roteiro em separá-los na montagem.


Assim, o longa-metragem sugere que as incompatibilidades amorosas dele e dela se corrigem mediante o encontro da pessoa certa. Estimam que os pais raivosos ou negligenciados, no fundo, sempre nos amaram. O discurso se assemelha a uma promessa condescendente e otimista de que tudo ficará bem, no final. Basta esperar, basta ter fé, basta querer. A pessoa certa chegará, os traumas serão superados, a felicidade será encontrada. Ele será belo, ela será bela, e a partir do instante em que os olhares se cruzam, o futuro estará selado. Tanto na alegria quanto na tristeza, farão companhia um ao outro, degustando hambúrgueres de uma rede de fast food, cujo marketing se repete ostensivamente (nem telenovelas brasileiras fazem propagandas tão descaradas de marcas locais). Uma vez aceito o amor, a canção nos diz: “Este é o primeiro dia do resto de sua vida”. Ao abrirem a porta de casa para a pessoa amada, a letra pontua: “Deixe o meu amor abrir a porta do seu coração”.
Logo, A Grande Viagem da Sua Vida está longe de uma obra sutil. Ele busca uma aparência terna, ainda que a condução seja tão agressiva que dispense qualquer percepção verdadeira de delicadeza. Sarah e David ficam juntos porque sim — porque a obra decide desta maneira, e não os permite desviar do caminho, literalmente. Os criadores aparentam visar uma forma de encantamento explorada em filmes como Forrest Gump, Feitiço do Tempo ou Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças. Resta saber se esta oferta de amor eterno, resolvendo problemas financeiros e familiares mediante concretização do par perfeito, ainda se encaixa em nossos tempos cínicos, maliciosos, mais propensos às paródias do romance do que às afirmações do mesmo. O resultado será delicioso ou enjoativo, dependendo do apetite do espectador por tal nível de sacarina.




