Queen at Sea (2026)

Crônica de um impasse

título original (ano)
Queen at Sea (2026)
país
Reino Unido, EUA
gênero
Drama
duração
121 minutos
direção
Lance Hammer
elenco
Juliette Binoche, Tom Courtenay, Anna Calder-Marshall, Florence Hunt
visto em
76º Festival de Berlim (2026)

A perda de controle constitui um dos temas centrais de Queen at Sea. Até o princípio da trama, a vida parecia relativamente estável para Amanda (Juliette Binoche). Embora viva numa cidade diferente da mãe idosa, sabe que Leslie (Anna Calder-Marshall) está sob o cuidado do padrasto Martin (Tom Courtenay). A mulher possui uma demência moderada, entretanto, o marido, plenamente saudável, consegue cuidar dela no dia a dia, vigiar os remédios tomados, levar ao médico, fazer as caminhadas. A protagonista encontrava certa estabilidade e conforto nesta configuração.

Ora, isso se dissipa logo na primeira cena. Durante uma visita, ela flagra o padrasto fazendo sexo com sua mãe. A expressão no rosto dela é de desconforto e assombro, como se não entendesse o que lhe ocorre. Amanda separa-os de imediato. Afirma se tratar de um absurdo, uma violência contra a mulher senil, que ele havia prometido interromper em definitivo. Chama-se a polícia, que determina se tratar do crime de estupro. As autoridades cogitam separá-los, além de deter Martin. Mas quem cuidaria da mãe? 

A preocupação inicial se converte num transtorno considerável para a escritora, que julgava conveniente ter um cuidador em sua ausência — ela desejava apenas que as relações íntimas parassem. “Estão me prendendo por fazer sexo com a minha esposa”, reclama o homem ao ser conduzido pelos policiais. Uma vez afastada do marido, Leslie também perde o controle de uma rotina cuidadosamente assimilada — caso da janta que ela come em quantidade insuficiente, pois espera os doces que sempre chegam ao final, como forma de recompensa.

Os atores constituem o foco deste cinema humanista, sem soluções fáceis. Mas o drama se enfraquece no final, quando espetaculariza tudo aquilo que vinha trabalhando com delicadeza.

Em 2020, Florian Zeller dirigiu Meu Pai, drama a respeito de uma mulher madura lidando com o Alzheimer progressivo do pai idoso. Este longa-metragem segue um caminho semelhante, embora transmitindo os efeitos de uma doença que também afeta diretamente o corpo, além da mente. Naquele caso, o protagonismo oscilava entre a filha e o pai, mergulhando progressivamente na psique perturbada do sujeito interpretado por Anthony Hopkins. Aqui, começamos pela perspectiva única da filha, até a narrativa se abrir ao ponto de vista de Martin (nas cenas em que Amanda nem mesmo se encontra presente), e então, incorporar à mistura uma terceira geração, ilustrada pela filha adolescente da heroína.

A adolescência constitui um ponto curioso do drama familiar de 2026. Durante parte considerável da trama, é difícil entender de que maneira os dilemas da jovem Sara (Florence Hunt) se combinam com aqueles da mãe e da avó. Ela corre em paralelo, absorta com as preocupações da idade: o primeiro cigarro, a primeira experiência sexual, os beijos no namorado. A montagem do próprio diretor, Lance Hammer, insiste em voltar a ela com frequência. Apenas no final sugere-se uma ideia bastante simplificada da ordem natural das coisas: enquanto a mãe se confronta à possível morte da avó, a garota representa o auge do vigor e da potência. A vida continua.

Por isso, tantas cenas de risadas com os colegas, tantas brincadeiras no metrô. Por este motivo, inclusive, o projeto efetua a curiosa escolha de encerrar seu percurso junto à menina, ao invés da mãe ou da avó. Seria esta uma perspectiva otimista, uma maneira de se projetar no futuro? Ou simplesmente uma forma de desviar os olhos, ainda que temporariamente, do conflito insolúvel dentro da casa, onde se passa a maioria da narrativa (mais um ponto de contato com Meu Pai)? Face a este contraponto de felicidade, Amanda passa metade da trama chorando, ou em vias de chorar, face ao calvário que se anuncia durante seu ano sabático. A mulher pretendia escrever um livro, entretanto, como se concentrar neste contexto?

A direção de fotografia do brasileiro Adolpho Veloso desempenha um papel fundamental nesta experiência. Ela converte a casa de Leslie e Martin num personagem à parte, com suas escadas íngremes (que forçam os idosos a subirem e descerem mediante esforços consideráveis). Enquanto isso, provoca certo estranhamento ao enquadrar os personagens na metade inferior da imagem, deixando bastante “teto” nos enquadramentos (o espaço acima das cabeças) — conforme se atesta a imagem acima. Esta escolha achata os adultos, favorecendo a impressão de peso e desconforto. Além disso, os espaços estreitos fazem com que tanto a câmera quanto os corpos se comprimam em corredores e passagens. Tudo contribui para a perturbação dos sentidos.

Os atores constituem o foco deste cinema humanista, sem soluções fáceis. Juliette Binoche demonstra o comprometimento habitual a uma personagem que, felizmente, foge aos maniqueísmos. É possível compreender sua ira diante da cena inicial, assim como a preocupação seguinte de que este incidente lhe retire qualquer forma de estabilidade conquistada até então. Ela não detesta Martin, e faz o possível para tê-lo por perto, dentro do possível. Tom Courtenay combina o olhar sereno e a fala calma com o texto afiadíssimo, prova do raciocínio elaborado do homem idoso, cujos argumentos lhe motivam a preservar a rotina (sexual, inclusive) com a esposa. O embate ético ocorre entre pessoas dotadas de razões e contradições, de modo a facilitar nossa identificação com ambos — ou mesmo com os três, incluindo o delicado trabalho de Anna Calder-Marshall numa personagem tão difícil.

Em contrapartida, o longa-metragem se enfraquece no final, quando começa a espetacularizar tudo aquilo que vinha trabalhando com delicadeza. Num primeiro descontrole intestinal de Leslie, a câmera se concentra repetidas vezes no meio das pernas da mulher idosa, para deixar claro o que ocorre ali. Acontecimentos chocantes e violentos irrompem na trama, com uma velocidade inesperada. O drama estimava, até então, que o impasse pelos cuidados da mulher idosa bastava como elemento de tensão insolúvel. Entretanto, faltando poucos minutos para a conclusão, incorpora ferramentas de surpresa e expurgo emocional. Busca, portanto, um aceno ao gosto médio, e uma forma de limitar os caminhos que os personagens poderão adotar a seguir.

Com seu título enigmático, Queen at Sea representa esta forma de cinema adulto, dedicado aos grandes embates cênicos entre atores de renome, a partir de sentimentos profundos e valores universais. Parece calibrado às grandes premiações — não será uma surpresa se levar algum troféu importante em Berlim e, em seguida, credenciar seus intérpretes ao Oscar. Ele certamente incorpora nuances importantes no debate a respeito dos cuidados com idosos, e também no que diz respeito à vida sexual em idade avançada. Em contrapartida, ainda enfrenta dificuldades ao procurar um ponto de fuga, um respiro para o dilema opressor e obsessivo do eixo central. Seria a juventude de Sara? A tragédia abrupta da parte final? A metáfora aberta do título? O drama sabe como mergulhar de cabeça em seu tema, entretanto, hesita quanto à melhor maneira de sair dele.

Queen at Sea (2026)
7
Nota 7/10

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