
O adolescente Milo (Ewan Bourdelles) está no metrô, a caminho da praia. Percebe algo estranho na vista, ao qual não atribui grande importância. No entanto, a mãe (Audrey Fleurot), que o acompanha, decide que precisam se consultar com um oftalmologista urgentemente. Minutos mais tarde, recebem o diagnóstico: ele possui uma doença seríssima, e perderá a visão a qualquer momento. É melhor aprender libras e se acostumar à bengala o quanto antes, garante o médico. Não vale a pena lutar, fazer exames, pensar em cirurgias, remédios, colírios. Em consequência, o pai (Dany Boon) se junta ao grupo na proposta de efetuarem as “últimas férias” do garoto, ainda em capacidade de ver o mar.
Espera-se que algum pesquisador no audiovisual já tenha mapeado a quantidade de dramas que dependem de uma doença repentina e incurável enquanto motores de conflito. Trata-se de uma solução tão fácil quanto eficaz para trocar a normalidade pelo espetáculo das virtudes e dos bons sentimentos. Se a rotina dos protagonistas anda tediosa, ofereça-lhes um câncer. Criança vive bem com os pais? Mate um dos dois — ou ambos. Jovem leva rotina desocupada? Coloque um acidente em seu caminho para que, diante das dificuldades de adaptação a uma prótese ou cadeira de rodas, aprenda a valorizar a vida, o instante, o dia, a natureza, as amizades. Nada como retirar do herói sua razão face ao imponderável (morte, doença) para que, uma vez tomado por forte emoções, exemplifique a lição moral pretendida pelos criadores.
Um projeto minimamente eficaz, avesso a qualquer forma de risco. Aposta no reconforto da previsibilidade.
Olhe o Mar corresponde integralmente a este modelo de melhoria pessoal em decorrência de um calvário. Depois que o rapaz descobre sua condição clínica, ele dá valor aos esforços dos pais, aproxima-se do avô, corre para se apaixonar pela primeira vez. Já a mãe e o pai, divorciados, convivem pacificamente de novo, aceitando inclusive a noiva ignorante de Antoine — quem diria que as comédias ainda fariam piadas de loira burra, em pleno 2026? Por sua vez, Milo desfruta da natureza como se fosse a última vez, já que, segundo a perspectiva fatalista do roteiro, talvez assim o seja. Seguem-se cenas do garoto batendo a cabeça em colunas, caindo sobre mesas de centro, perdendo-se na praia à noite.
Como se percebe, o diretor Emmanuel Poulain-Arnaud não possui uma conduta particularmente sutil. Em sua adaptação do telefilme mexicano Ya Veremos (2018), adota exclusivamente as cenas úteis ao desenvolvimento da trama e dos personagens. Por isso, é preciso que os instantes tristes sejam tristíssimos (pai, mãe e filho gritam ao mar para expiar sua dor, reproduzindo um dos clichês mais desgastados do gênero), e que os alegres sejam verdadeiramente eufóricos (Chris e Antoine dançando no bar enquanto escutam a canção de seu primeiro encontro). Uma garota bela, afetuosa e de seios perfeitos (um detalhe repetido incontáveis vezes pelos personagens) se afeiçoa por Milo; os adultos se unem em prol de um bem comum. Tudo ficará bem, nos promete a montagem otimista.
Ao menos, o elenco está bastante acostumado a este tipo de registro. Dany Boon, humorista hábil em comédias físicas e careteiras, desfruta da oportunidade de compor um sujeito contido, introspectivo, dotado de raras nuances para um projeto popular. Audrey Fleurot, igualmente acostumada à amplitude da comédia de costumes, deleita-se com a mulher meio perdida, e um tanto juvenil. Mesmo que o jovem protagonista ainda tenha muito a aprender em termos dramáticos, aos adultos ao seu redor compensam a falta de recursos do garoto. Nicolas Marié, por exemplo, constitui outro veteraníssimo das comédias. Mas por que o cineasta nem mesmo cogitou escalar um ator com deficiência visual para este papel (ou para a versão adulta de Milo)? Em se tratando de uma obra a respeito de PCDs, dar-lhes oportunidade de atuar corresponderia ao mínimo de coerência.


Em paralelo, a trama se torna mais solta e eficaz na segunda metade. As piadas insistentes demais cedem lugar ao humor de desconforto, menos histriônico ou espetacular. O confronto entre sogro e genro, sentindo o cheiro de um hambúrguer escondido, comprova o recurso de ambos os atores, e o mesmo pode ser dito do encontro amoroso fracassado da mãe. Quando os criadores trocam a alternância entre cenas cômicas exageradas e outras dramaticamente acentuadas por instantes que sejam, ao mesmo tempo, tristes e divertidos, encontram um tom mais precioso. Talvez o ápice deste belo segmento resida na sequência em que Milo, ainda dotado de razoável escopo de visão, finge ser um garoto completamente cego para conquistar a simpatia de uma mulher. Ali, na brincadeira autoparódica e no confronto ao desconforto social, residem as melhores (e raras) piadas inteligentes do percurso.
Por fim, Olhe o Mar constitui um projeto minimamente eficaz, avesso a qualquer forma de risco. Aposta no reconforto da previsibilidade — qualquer espectador que tenha assistido a dois ou três dramas do gênero poderá antecipar os próximos passos do núcleo central. Nem mesmo esteticamente a empreitada busca alguma forma de ousadia, preferindo os planos e contraplanos, ou planos de conjunto convencionais do trio na praia. A representação da cegueira enquanto túnel funciona, ainda que seja, uma vez mais, excessivamente literal em sua representação. Há gracejos demais para poesia de menos, diante de um tema que careceria de um mínimo de delicadeza. Mesmo assim, na busca por um cinema médio, capaz de transitar entre o filme “de arte” e a comédia escrachada, atinge-se um resultado aceitável.




