Picumã (2025)

Epopeia travesti

título original (ano)
Picumã (2025)
país
Brasil
gênero
Comédia, Policial
duração
19 minutos
direção
Sladká Meduza
elenco
Verónica Valenttino, Kiara Felippe, Leona Jhovs, Gabriel Lodi, Lui Castanho
visto em
33º Festival de Vitória (2026)

Em primeiro lugar, Picumã chama atenção pelo porte. A ampla imagem em scope, o número de personagens com diálogos, e o cuidado com a fotografia sugerem uma produção de impressionante esmero. Além disso, a diretora Sladká Meduza navega entre diversos gêneros: a paródia, o drama, o faroeste, o suspense, o policial — tudo isso envolvendo personagens trans e travestis, perseguindo umas às outras numa fuga alucinada. O motivo de tal deslocamento? Uma peruca, ou “picumã”, de cor loira, emprestado e ainda não devolvido à sua dona.

A maioria dos diálogos adota o pajubá, ou seja, dialeto utilizado sobretudo pela comunidade LGBTQIA+. Caso algum termo soe incompreensível, ele se desvendará dentro do contexto — o discurso nos solicita a ir de encontro à cultura das personagens, ao invés de exigir que se traduzam, vindo em direção a nós. Tudo isso para servir ao propósito de uma farsa (mais um gênero a acrescentar à lista citada acima), na qual homens trans atuam no papel assumidamente grosseiro de homens cis, representando um protótipo da masculinidade nociva, enquanto meia dúzia de mulheres encarnam a resistência das ruas face aos abusadores.

Ora, a narrativa começa intercalando duas histórias paralelas — a dominatrix Shaiane se preparando para o trabalho, enquanto a jovem Cléo entra no carro de um cliente — até descobrirmos de que forma ambas se cruzam. Elas são levadas muito mais a sério pela narrativva do que qualquer ilustração da identidade cis-hétero (vide o francês de quatro, fazendo-se de porco, e os funcionários patéticos do motel). As heroínas, no caso, são as mesmas figuras que a maioria das narrativas naturalistas prefere deixar na condição de vítimas, descritas com piedade e distância.

Logo, Picumã retoma a potência do cinema de gênero (a mocinha resgatada do cativeiro mediante tiros e ameaças), atribuindo-o às travestis, que brigam entre si, apresentando personalidades e objetivos distintos. Em outras palavras, a defesa destas mulheres não passa por uma simplificação, mas pela compreensão de que, embora representem lutas distintas, podem se unir diante de um perigo externo — sem falar na busca egoísta pela restituição de sua peruca. Um verdadeiro senso de comunidade surge do filme que abraça diversas cenas nas ruas, e pontua as interações com coadjuvantes, que a vasta maioria dos curtas-metragens negaria.

Por fim, resta um refinamento raro, apesar do (ou graças ao?) tom carnavalesco e satírico da diretora. Percebe-se o gosto pelo trabalho com atores e atrizes; uma reflexão certeira a respeito do ponto de vista, assim como uma subversão estética dos cânones de um cinema cis hétero (a força, a valentia com arma na mão, o enfrentamento aos bandidos), aplicados à potência e à beleza trans e travesti. Um grande filme, capaz de transitar tanto por um circuito de arte quanto pela exibição popular. Ainda tem o lirismo de se encerrar com uma deliciosa versão em pajubá de Hotel California. Nada mau.

Picumã (2025)
9
Nota 9/10

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