
Em primeiro lugar, Picumã chama atenção pelo porte. A ampla imagem em scope, o número de personagens com diálogos, e o cuidado com a fotografia sugerem uma produção de impressionante esmero. Além disso, a diretora Sladká Meduza navega entre diversos gêneros: a paródia, o drama, o faroeste, o suspense, o policial — tudo isso envolvendo personagens trans e travestis, perseguindo umas às outras numa fuga alucinada. O motivo de tal deslocamento? Uma peruca, ou “picumã”, de cor loira, emprestado e ainda não devolvido à sua dona.
A maioria dos diálogos adota o pajubá, ou seja, dialeto utilizado sobretudo pela comunidade LGBTQIA+. Caso algum termo soe incompreensível, ele se desvendará dentro do contexto — o discurso nos solicita a ir de encontro à cultura das personagens, ao invés de exigir que se traduzam, vindo em direção a nós. Tudo isso para servir ao propósito de uma farsa (mais um gênero a acrescentar à lista citada acima), na qual homens trans atuam no papel assumidamente grosseiro de homens cis, representando um protótipo da masculinidade nociva, enquanto meia dúzia de mulheres encarnam a resistência das ruas face aos abusadores.
Ora, a narrativa começa intercalando duas histórias paralelas — a dominatrix Shaiane se preparando para o trabalho, enquanto a jovem Cléo entra no carro de um cliente — até descobrirmos de que forma ambas se cruzam. Elas são levadas muito mais a sério pela narrativva do que qualquer ilustração da identidade cis-hétero (vide o francês de quatro, fazendo-se de porco, e os funcionários patéticos do motel). As heroínas, no caso, são as mesmas figuras que a maioria das narrativas naturalistas prefere deixar na condição de vítimas, descritas com piedade e distância.
Logo, Picumã retoma a potência do cinema de gênero (a mocinha resgatada do cativeiro mediante tiros e ameaças), atribuindo-o às travestis, que brigam entre si, apresentando personalidades e objetivos distintos. Em outras palavras, a defesa destas mulheres não passa por uma simplificação, mas pela compreensão de que, embora representem lutas distintas, podem se unir diante de um perigo externo — sem falar na busca egoísta pela restituição de sua peruca. Um verdadeiro senso de comunidade surge do filme que abraça diversas cenas nas ruas, e pontua as interações com coadjuvantes, que a vasta maioria dos curtas-metragens negaria.
Por fim, resta um refinamento raro, apesar do (ou graças ao?) tom carnavalesco e satírico da diretora. Percebe-se o gosto pelo trabalho com atores e atrizes; uma reflexão certeira a respeito do ponto de vista, assim como uma subversão estética dos cânones de um cinema cis hétero (a força, a valentia com arma na mão, o enfrentamento aos bandidos), aplicados à potência e à beleza trans e travesti. Um grande filme, capaz de transitar tanto por um circuito de arte quanto pela exibição popular. Ainda tem o lirismo de se encerrar com uma deliciosa versão em pajubá de Hotel California. Nada mau.




