Morro da Cruz: Memória Popular (2026)

Eu e os meus

título original (ano)
Morro da Cruz: Memória Popular (2026)
país
Brasil
Linguagem
Documentário
duração
96 minutos
direção
Crystom Afronário
visto em
54º Festival de Gramado (2026)

Morro da Cruz: Memória Popular parte de um olhar generoso do cineasta Crystom Afronário em relação à própria comunidade. Ele desenha uma homenagem ao local onde vive, conversando com uma série de habitantes, jovens ou idosos, a quem pede que conte suas histórias a respeito do local. Logo, a estrutura dispensa qualquer pose ou solenidade, privilegiando as conversas amigáveis, leves, repletas de causos da infância e juventude. Alternadamente, os convidados recordam como este espaço se transformou, recordando inclusive crimes ou tragédias (manifestando um bem-vindo distanciamento). Ao invés de realizar uma obra sobre o Morro da Cruz, o diretor cria um filme com ele.

Por isso, as principais qualidades do projeto decorrem desta intimidade em relação às ruas, aos eventos e às pessoas. Ninguém aparenta atuar, ou se portar de modo diferenciado, graças à presença da câmera. O autor deixa todos profundamente confortáveis para recordarem a lembrança que lhes for apropriada, sem condicionar o discurso, nem editar estas falas rumo a uma mensagem precisa. Ao final, todos sublinham que qualquer esforço destinado a romper com preconceitos sobre a vila (de periculosidade e criminalidade, em especial) são bem-vindos. Por isso, o documentário sustenta o bem-vindo tom de um papo entre amigos, como se tomassem um café no fim da tarde, retomando as passagens marcantes de uma geografia compartilhada por ambos. 

O filme sustenta a crença profunda numa política comunitária. Mesmo assim, sofre com problemas de montagem.

Na maior parte desta jornada, o resultado se mostra positivo. São evidentes as restrições de produção do longa-metragem que, mesmo assim, encontra a melhor forma de captar as dimensões da vila (via drones, por exemplo) e seu passado (através de gravações pessoais e reportagens, ainda que de baixa resolução). Ao final, oferece um panorama relativamente amplo de políticas públicas, formação de ruas, acesso a água e eletricidade, oportunidades de cultura e esporte, e assim por diante. Afronário parece compreender bem a máxima de que “a única alternativa a crescer sem referências é criá-las”. Em consequência, este registro positivo (mas nada ingênuo) servirá a estas e outras gerações para se enxergarem na tela, com sua devida potência.

Em contrapartida, o projeto sofre com alguns problemas de realização. Em particular, a montagem transparece um estranho senso de finalidade e estrutura, estendendo-se para além da duração de cada tema interno, ao ponto da repetição (em particular, no segmento sobre o Murialdo). Além disso, começa na chave da fábula infantil (a ficção com o bibliotecário envelhecido via maquiagem), e envereda pelos talking heads tradicionais, com os entrevistados comportadamente enquadrados no centro da imagem. Mas então, adiante introduz trechos do making of de um curta-metragem anterior do autor, distribuídos de maneira desigual entre capítulos internos. Rumo ao terço final, a narrativa ainda introduz temas inéditos (vide o trecho com a Paixão de Cristo), antes de se encerrar com elogios dos entrevistados à iniciativa do próprio filme. 

Além disso, determinadas escolhas prejudiciais não decorrem exatamente de limitações orçamentárias, mas de curiosas escolhas de mise en scène. Na hora de apresentar as poucas fotos disponíveis, os criadores optam por filmar fotografias físicas, sob uma luz que ofusca parte da imagem. Diante de alguns movimentos de mãos dos entrevistados em direção à objetiva, a fotografia tenta alterar imediatamente a profundidade de campo, com resultados desiguais. Enquanto alguns personagens são posicionados diante de um cenário expressivo, com belíssima luz (a exemplo de Negra Jaque e Preto Z), outros dialogam em situações adversas de luz, cor e texturas. A maioria das captações sonoras se revela bastante competente e profissional, em contraste com algumas falas (caso do doutor em história) cujo som abafado parece provir da própria câmera.

Por esta razão, o conceito ainda se apoia demais no gesto de contar o Morro da Cruz, em oposição a captá-lo no seu dia a dia, dispensando o procedimento rígido das entrevistas. Com tamanha disposição dos participantes, por que não registrá-los em seu cotidiano, trabalhando, se deslocando pelas ruas, conversando entre si, atuando nos projetos sociais citados? O ritmo carece de dinamismo, e de maior iniciativa para representar os temas citados, ao invés de apenas falar sobre eles. Havia outras fotografias e vídeos do local muito tempo atrás, antes das transformações urbanas? Há reuniões entre estes participantes fora do filme? Conversam entre si, frequentam as mesmas festas e eventos culturais? Este grupo de personagens e estaa localidade ofereceriam oportunidades mais ricas à direção.

Ressalvas à parte, Morro da Cruz: Memória Popular sustenta a crença profunda numa política comunitária, efetuada pelos moradores do local, para eles próprios — em detrimento da política partidária. Talvez, por este motivo, nunca conversa com prefeitos ou demais autoridades para questionar as condições de infraestrutura e bem-estar da vila. Prefere que o discurso esteja focado unicamente em quem entende daquela realidade, e a vive. Assim, defende a crença no conceito de comunidade, de coletividade, enxergando a política no sentido estrito e original do termo. A julgar pela exibição durante o Festival de Cinema de Gramado, para uma plateia repleta de moradores do Morro da Cruz, os objetivos foram cumpridos. 

Morro da Cruz: Memória Popular (2026)
6
Nota 6/10

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