
Em uma realidade paralela, mas igualmente contemporânea, os Estados Unidos baniram o sexo extraconjugal. Solteiros podem fazer sexo entre si durante uma única noite do ano, determinada pelo governo, e vigiada mediante chips implantados na pele dos habitantes. Nasce a versão comédia romântica de Uma Noite de Crime, oferecendo um novo propósito às doze horas anuais em que cidadãos ficam enlouquecidos, atacando-se publicamente. Ora, de que maneira as autoridades fiscalizam estas práticas? Como controlam o uso de preservativo (outra obrigação por lei)? O que é considerado sexo, de acordo com estas regras? Exceto por pichações esparsas contra o decreto pelos muros de Nova York, devemos acreditar que o povo simplesmente acatou uma imposição desta gravidade?
Gluck não apenas desenvolve um cenário ultraconservador, mas o banaliza e, em consequência, o naturaliza. Ele vende seu 1984 na forma de uma utopia do retorno à moral e aos bons costumes.
Aparentemente, sim. Julgando pela premissa, Só por uma Noite sugeriria uma distopia, nos moldes de George Orwell. Que absurdo o governo controlando os corpos, censurando o prazer, impondo o celibato sob pena de prisão! Recorrendo a uma lógica religiosa (jamais nomeada como tal) de pureza e santidade dos “laços carnais”, incentivando o casamento precoce no intuito de viabilizar o sexo legalizado! Talvez o principal problema com o projeto, desde o princípio, seja o fato de os criadores não enxergarem o fascismo da premissa. A partir do roteiro de Travis Braun, o diretor Will Gluck descreve este cenário enquanto uma divertida excentricidade. Ninguém se opõe frontalmente a este controle — afinal, a proibição do sexo livre se traduz na oportunidade perfeita para se encontrar o verdadeiro amor, e valorizar as relações. Em outras palavras, a direção não apenas retrata um regime ultradireitista, mas também o vende enquanto alternativa razoável aos problemas da contemporaneidade.
Logo, a narrativa separa o amor do sexo. Ou você desenvolve uma conexão realmente profunda com alguém, ou pratica sexo desenfreado. As pessoas que curtem a noite de libertação são loucas, irresponsáveis, ladras, infratoras. Transam enroladas em plástico bolha, roubam quadros valiosos, assaltam pessoas nas praças (pobre homem forte e indefeso, sofrendo o ataque de uma mulher perversa!). Já os nossos protagonistas, duas figuras gentis que somente pensam em viver o sonho americano, não se encaixam neste perfil. Por serem corretos, batalhadores e sonhadores, eles preferem esperar. Inicialmente, arriscam-se em busca do sexo permitido, posto que todos os outros fazem o mesmo. Entretanto, logo percebem que o amor vale muito mais do que o gozo momentâneo. Enquanto os demais se rendem a práticas irresponsáveis, estes dois são unidos pelo destino — por isso, continuam se reencontrando diversas vezes na megalópole, ao longo de uma única noite.
Ora, quem diria que um filme sobre o sexo poderia soar tão profundamente conservador? Ocultando justamente o ato sexual que motiva a trama, e domina o pensamento da totalidade dos cidadãos? Afinal, estes seres transantes quase nunca retiram calcinha e sutiã para o ato sexual. As mulheres ocultam os seios, e a câmera busca o ângulo exato para que esta performance cartunesca equivalha a uma ideia de sexo, isentando a o diretor da responsabilidade de materializá-lo de fato. Desde Cinquenta Tons de Cinza (outra obra conservadora e castradora), a entrega aos próprios prazeres não soava tão deslocada da realidade. Aqui, a mulher que grita “socorro” num vídeo está fingindo um abuso enquanto piada; e o tesão deriva de um garoto de 12 anos de idade, gritando a todas as mulheres seu desejo de perder a virgindade. O sexo se torna imoral, perverso.
Alerta: spoilers a seguir.
Depois de tentarem inúmeras vezes, em vão, encontrar alguma forma de gozo nesta noite, Allie (Monica Barbaro) e Owen (Callum Turner) descobrem o deleite de não fazerem sexo. Eles se sentem, de certa forma, superiores aos colegas irresponsáveis, por conseguirem evitar aquilo que os outros desempenham de maneira animalesca e incivilizada. O projeto adota, portanto, o prazer do coito interrompido — ou do edging, para pensar conceitos mais modernos. Ao mesmo tempo, preocupa-se em não parecer careta demais (um contrassenso evidente). Por isso, faz propaganda ostensiva de marcas de preservativo e lubrificante; imagina beijos triplos e reforça a sexualidade de pessoas maduras. Uma “ousadia” bastante limitada, como se percebe. Ao final, não haverá uma única cena de sexo filmada enquanto tal, orgulhosamente e naturalmente, em frente às câmeras. Quando os protagonistas enfim se permitem gozar, eles o fazem atrás de portas fechadas, enquanto a câmera espera, castamente, na sala. No momento em que o sexo começa, a trama se encerra, porque a proposta da direção reside precisamente em privá-los do orgasmo. Pode-se falar em um caráter perverso neste ponto de vista.
Em termos de representatividade, Só por uma Noite constitui uma verdadeira Parada do Orgulho Hétero. Apenas casais heterossexuais fazem sexo aqui. A única personagem lésbica dotada de falas declara que não precisa gozar na noite da libertação, porque pessoas LGBT sempre dão um jeito de burlar as regras. Ora, de que forma ela faria isso, sob vigilância ferrenha de um chip no braço? A população queer, seria, portanto, essencialmente composta por infratores? Que solução seria esta, encontrada por indivíduos queer, porém, desconhecida por qualquer dupla heterossexual? Não se sabe. Obviamente, não existe solução — o roteiro simplesmente não se importa com a satisfação sexual destas pessoas, da mesma maneira que se preocupa com a libido dos heterossexuais. No fundo dos enquadramentos, nota-se raros casais gays ou lésbicos beijando-se de maneira pudica, enquanto as duplas formadas por homem e mulher beijam-se com mãos enfiadas no meio das pernas do outro, sugerindo desejo real.


Não bastasse a proibição do sexo, chamam atenção a interdição dos encontros extraconjugais, e a imposição da camisinha. Na parede da delegacia, desenhos indicam as posições permitidas e aquelas proibidas. (Novamente, de que maneira se fiscalizaria a legalidade dos atos?). Ora, mais importante do que isso, como podem Gluck e sua equipe descrever este cenário com tal passividade, ao invés de perceberem nele um primo próximo de O Conto da Aia? Não existe nenhuma oposição a estas regras, por parte de pessoas conscientes? Todos aqueles que burlam a censura são ladrões e abusadores detestáveis? Em The Purge, a permissividade temporária de crimes significava um sinal de decadência social, fruto de uma política punitivista. A direção se mostrava claramente contra o expurgo. Já em Só por uma Noite, o político apresentando a proposta na televisão (em diálogos bastante didáticos, posto que as regras já são conhecidas por todos) nunca enfrenta qualquer tipo de questionamento, nem desperta indignação. O fato de se conceber, com tamanha doçura, um mundo liderado unicamente por conservadores, destituído de uma única voz progressista dissonante, representa um paraíso de extrema-direita em si própria.
Logo, a namorada que deseja abrir o relacionamento e experimentar o sexo com o vizinho (avisando o parceiro antes do ato, e encorajando-o a fazer o mesmo com terceiros) será tratada como uma lambisgoia execrável, enquanto um casal jovem ridiculariza Allie e Owen por ainda serem solteiros nesta idade. (Ambos os atores têm 36 anos). Por fim, o que mais incomoda nesta comédia romântica, que soa escrita por pastores evangélicos, consiste na total normalidade com que se observa as regras impostas. Herói e heroína jamais infringem as regras, nem se opõem a ela. Pelo contrário, a vitória do amor romântico decorre exclusivamente da aceitação pacífica da censura, assim como da descoberta do prazer em se autocensurar. Allie e Owen se tornam muito mais felizes ao não fazerem sexo. E qual o problema em ter chips implantados no corpo, vigiados pelo governo, certo? Eles podem ter diferentes símbolos e formatos, como um morcego e um farol — veja que bonitinho! Por fim, Gluck não apenas desenvolve um cenário ultraconservador, mas o banaliza e, em consequência, o naturaliza, evitando qualquer estética do estranhamento. Muito longe da distopia, o cineasta vende seu 1984 na forma de uma utopia do retorno à moral e aos bons costumes.




