A Professora de Francês (2026)

A mulher invadida

título original (ano)
A Professora de Francês (2026)
país
Brasil, França, Portugal
gênero
Drama, Suspense, Terror
duração
98 minutos
direção
Ricardo Alves Jr.
elenco
Grace Passô, Pedro Goifman, Jehnny Beth, Elisa Lucinda, Eduardo Moreira, Bárbara Colen, Rômulo Braga, Babi Amaral, Ítalo Laureano, Rodger Rogério
Visto em
Cinemas

É preciso uma aldeia para criar uma criança — e também para cuidar de um pai idoso. Graça (Grace Passô) não vive com o pai Raimundo (Rodger Rogério), mas conta com a ajuda dos vizinhos para esta tarefa. Eles compram os remédios, oferecem o jantar, colocam para dormir, e socorrem em caso de alguma urgência médica. Entram e saem da casa familiar quando necessário. Entretanto, esta é uma presença tão garantida quanto… incômoda. Por um lado, jamais fizeram qualquer mal ao homem de saúde frágil. Por outro lado, cobram caro por estes favores. Pregam suas palavras religiosas, e efetuam estranhos rituais envolvendo Raimundo (sem consultar a filha, é claro). Estimam-se no direito de questionar os moradores a respeito de sua conduta moral e sua filiação às normas conservadoras.

Uma imagem representa muito bem tal desconforto. Graça e a namorada francesa Clara (Jehnny Beth) dirigem numa rua, até uma das rodas do carro ficar presa num buraco. Seis homens aparecem, sob uma forte chuva, e batem na lateral do veículo. As duas se assustam, temendo uma possível agressão. Mas os desconhecidos simplesmente empurram o carro, que sai da vala onde se encontrava. Elas respiram aliviadas. Pelo vidro de trás, a chuva impede que se veja os rostos daqueles que auxiliaram. As luzes ainda insinuam alguma forma de perigo. Em A Professora de Francês, aqueles mais solícitos também constituem os menos confiáveis. Quando a estrangeira aconselha a namorada a dispensar os cuidados das pessoas do bairro, a outra responde: “Eu preciso deles”. 

Germano e Alves Jr. continuam se provando excelentes criadores de ambientação, de um clima onde violência e tesão andam lado a lado.

Neste longa-metragem, o diretor Ricardo Alves Jr. e seu habitual colaborador, o roteirista Germano Melo, abordam de maneira particularmente complexa um fenômeno comum à população LGBTQIA+: a necessidade de sair de casa para viver livremente a sua identidade. O meio conservador em que Graça foi criada não a corresponde. Ela precisa ocultar o relacionamento evidente, sob pena de despertar olhares agressivos e outras formas de represália dos vizinhos. Um dos principais motivos pelos quais não convive com o pai idoso se encontra na violência que este bairro de classe média-baixa exerce sobre pessoas não-normativas. Em paralelo, a direção de fotografia capricha nas amplas imagens de prédios por todos os lados, elaborando uma paisagem urbana sufocante, formada por rostos atentos. Não há horizonte livre da presença alheia.

Logo, a câmera se concentra nestes olhares constantes sobre o corpo e a vida de Graça. A mulher cética, de nome religioso, se depara com diversos conhecidos, parcialmente amistosos, mas potencialmente afrontosos. Nunca se sabe ao certo se a atenção fixa decorre de uma curiosidade, uma indignação, ou mesmo uma sedução. O principal exemplo para tal indefinição reside em Tomás (Pedro Goifman), jovem que Graça conheceu quando ele ainda era um menino. Hoje, o rapaz se sente potente (sexual e socialmente), convertido numa espécie de curandeiro local. Ele flerta abertamente com a protagonista, justamente por saber de sua homossexualidade. Utiliza o corpo enquanto provocação ao pressuposto de heterossexualidade de cada indivíduo — até prova em contrário, claro. Ao lado de tantas pessoas de fala doce e sorriso no rosto (mas passíveis de atrocidades), Tomás se torna o único personagem assumidamente vilanesco, possuído. Ele carrega nas falas e no olhar uma combinação de cinismo e perversidade. Sempre que ele aparece, o tom se transforma, e o projeto corre o risco de perder a sutileza que vinha trabalhando tão sabiamente até então.

Isso porque A Professora de Francês se constrói, essencialmente, nas ambiguidades. Desde o princípio, os sucessivos enquadramentos de arranha-céus em Belo Horizonte se revestem de um mistério, entre o risco e a atração. A trilha sonora (uma melodia sensual e vaporosa), com letreiros cor-de-rosa, apelam a este mundo de segredos possivelmente deliciosos — ou seriam  aflitivos? Em diversos instantes, o filme brasileiro remete a O Bebê de Rosemary: vide a cantiga inicial, a mulher controlada por uma vizinhança de aparência gentil a princípio, e a chegada de um bebê responsável por restituir a rígida função materna no tecido social. Rosemary estava ao mesmo tempo louca e sã, já Graça preserva sua sanidade o tempo inteiro. (Estamos do lado dela, e podemos atestar). Protege-se até onde pode se proteger, numa narrativa que progressivamente incorpora as ferramentas do terror. Cada vez mais isolada, ela descobre do que são capazes estas pessoas de bem.

Atenção: possíveis spoilers a seguir.

Curiosamente, o pai representa o único sujeito gentil e acolhedor, enquanto os demais homens (Ítalo Moreira, Rômulo Braga, Eduardo Moreira) representam alguma forma, mais ou menos agressiva, de controle dos corpos femininos. Mesmo assim, estes sujeitos jamais são vendidos enquanto monstruosos. Em seus bairros, desempenham um papel considerado fundamental. Já as mulheres infratoras, curiosamente, desaparecem. Alves Jr. sabe exatamente o que deseja mostrar, em termos de violência contra a mulher (o que inclui uma dura cena envolvendo Rômulo Braga), e quando prefere deixar ao espectador a pressuposição de acontecimentos específicos. Algumas personagens femininas são tão afetuosas, e interpretadas por atrizes tão boas, que fazem falta quando simplesmente desaparecem da trama. (Seria esta a intenção — apelar à saudade do próprio espectador?).

Diante da progressiva ocupação da casa e da própria personagem (o conto A Casa Tomada, de Júlio Cortázar, também vem à mente), o roteiro concebe uma forma implacável de reação. Talvez esta seja uma solução pouco verossímil (a vedação de uma casa inteira sem despertar suspeitas), apelando a um dos símbolos mais utilizados do cinema brasileiro recente: o incêndio redentor. Em Bacurau, Fogaréu, Fim de Semana no Paraíso Selvagem e tantos alguns, a solução para se vingar de um sistema repressivo consiste em tacar fogo no símbolo de poder, e abandonar a localidade em sinal de vitória. A alternativa soa um pouco fácil, abrupta — uma faísca de cinema espetacular onde antes havia insinuação, libido e iminência. Logo, o desfecho pode resultar fraco para a primorosa construção prévia. 

Mesmo assim, demonstra a capacidade dos autores em manipular o horror na chave da gradação, paulatinamente. De certa forma, os ingredientes que fomentam o clímax sempre estiveram presentes, desde a cena inicial. Quando se rompe por completo a fronteira entre o público e o privado, entre o individual e o coletivo, não há mais direitos garantidos — sobretudo para as mulheres. Um personagem explica que, durante uma infestação de ratos, “se não matar a fêmea, os bicho toma conta de tudo”. Por isso, ataca-se enquanto forma de prevenção, repudiando o comportamento que não se conhece bem. O pavor da diferença e a ignorância fantasiada de bons costumes são muitíssimo bem trabalhados neste filme, que ecoa na mente após a sessão. 

Assim, os olhos expressivos de Grace Passô, as luzes acesas da janela vizinha, uma motocicleta que demora tempo demais ao lado do carro garantem uma sensação de que tudo por ocorrer, a qualquer momento. Germano e Alves Jr. continuam se provando excelentes criadores de ambientação, de um clima onde violência e tesão andam lado a lado. Este princípio se encontra igualmente neste avesso de Parque de Diversões: enquanto aquele projeto imaginava a utopia dos corpos livres, colocando em prática seus desejos em total ausência das leis, o longa-metragem de 2026 implementa a distopia do controle absoluto e impune. Desta vez, a polícia se funde em qualquer indivíduo. Graça não precisa sair da casa do pai para ser atacada: a lesbofobia adentra o domicílio quando bem entende, sem bater à porta. Assim, A Professora de Francês resulta lindamente desagradável, e elegantemente perturbador.

A Professora de Francês (2026)
8
Nota 8/10

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