
A história de Dona Vitória já foi muito discutida na imprensa e nas artes. Os jornais se deliciaram com a trama improvável de uma mulher solitária que, inconformada com o tráfico de drogas a céu aberto, em frente ao seu apartamento, filmou os infratores para enviar as fitas aos jornalistas. O contraponto entre a expectativa de docilidade de uma avó, e a maneira agressiva como captava seus adversários com uma câmera amadora (muitas vezes, gritando contra eles na janela) desperta o interesse central desta jornada de exceção. A trama deu origem ao bem-sucedido Vitória (2025), drama dirigido por Andrucha Waddington, e estrelado por Fernanda Montenegro.
Agora, o documentário dirigido por Ricardo Calil, Dudu Levy e Fábio Gusmão decide se voltar aos fatos. Para além do sensacionalismo e da excentricidade, houve uma senhora de passado traumático, que encontrou na denúncia do tráfico uma válvula de escape para seus sentimentos. Mesmo dentro de casa, ela pertencia à sociedade e intervinha diretamente nela, por meio das filmagens efetuadas entre 2003 e 2005. Em consequência, permaneceu durante muitos anos em serviços de proteção à testemunha, antes de ter o verdadeiro nome revelado: Joana Zeferino da Paz. Os autores se dedicam então a investigar a personalidade desta mulher, além de suas motivações para atos tão incomuns. Estudam, em paralelo, o poder da imagem enquanto prova, numa época em que ainda não podia ser falseada com a mesma facilidade dos nossos dias. Buscam homenagear os responsáveis pela façanha policial realizada, em grande parte, por iniciativa civil.
Enquanto construção de ritmo e de narrativa, Vitória da Paz se sai muito bem, [mas] se enfraquece devido à insistência em enxergar o caso pelo prisma do heroísmo.
Os cineasta encontram um desafio considerável diante dos 17 anos de anonimato da personagem. Posto que Vitória filmava a partir de seu olhar, num ponto de vista subjetivo, não víamos seu rosto. Assim, como o espectador desconhecia o rosto (e a pele negra) desta mulher durante tanto tempo, o longa-metragem estima necessário efetuar um caminho semelhante, desenhando a personalidade de uma protagonista que não vemos. A narrativa se empenha em gerar empatia em torno de um nome, um imaginário de mulher, desprovido de expressões faciais. Contamos apenas com a voz dela, gravada nos áudios, além dos depoimentos pitorescos de jornalistas e pessoas próximas. Desta forma, transmite-se todo o senso de humor, e também o ímpeto de provocação, da mulher descrita como explosiva e encrenqueira.
Logo, o projeto conta com muitas imagens de arquivo, porém, poucos registros de sua protagonista. Inicialmente, explica em detalhes ao espectador suas intenções, de que forma obteve os registros, e por que reproduziu nas entrevistas contemporâneas a pixelização do vídeo de antigamente. Por um lado, percebe-se um bem-vindo senso de coesão estética entre os registros — afinal, as filmagens atuais, efetuadas com uma câmera idêntica àquela de Vitória, assemelham-se aos registros da personagem. Por outro, incomoda a tendência em transformar todo documentário em sua “versão comentada”, seu próprio making of. O caráter didático se acentua quando os criadores pontuam objetivos, metodologia e hipóteses desde o princípio. Isso não deveria estar claro pelas próprias imagens e sons? Por que os novos autores se sentem devedores de tantas explicações ao espectador?
Enquanto construção de ritmo e de narrativa, Vitória da Paz se sai muito bem. Excetuando algumas comparações forçadas (“Aquilo é Hitchcock puro. De certa maneira, [Vitória] está com as duas pernas quebradas”, em referência a Janela Indiscreta), o percurso pontua de maneira bastante eficaz os principais momentos desta jornada, assim como a relação de afronta da mulher com o meio ao redor. Estabelece um paralelo clássico, embora pertinente, entre a arma e a filmadora (na convergência do verbo to shoot, ou seja, atirar/filmar). Sobretudo, impregna de humor e leveza este episódio tenso, graças aos absurdos da situação: o tráfico escancarado, os xingamentos e pedras disparados pela idosa, a recusa em participar do programa de proteção às testemunhas e manter o anonimato. O filme se torna divertido em função da personalidade insólita da senhora, e das consequências tão concretas de atitudes que soavam, a princípio, como mera rebeldia.
Em contrapartida, o resultado se enfraquece devido à insistência em enxergar o caso pelo prisma do mérito individual. Os criadores sublinham o heroísmo dela, dos agentes encarregados de sua proteção, e dos jornalistas envolvidos. Reforçam que este seria o verdadeiro patriotismo, o amor real pela nação. Em tempos de disputa de narrativas quanto ao termo patriotismo, a obra mergulha em campos ideologicamente ambíguos ao insinuar que Vitória seria ainda mais patriota devido à jaqueta verde e amarela, e à bandeira do Brasil em sua casa. A denúncia dos jovens traficantes estaria ligada à justiça social ou ao senso de punitivismo típico da direita? Seria uma preocupação com o bem-estar dos moradores nas comunidades, ou somente um grito contra a “bandidagem” em sua acepção mais genérica?


O roteiro preserva frases laudatórias: “Dona Vitória era uma encrenqueira pelo bem da humanidade”; “Ela tinha um amor muito grande pelo Brasil”. Até um dos traficantes filmados por ela, hoje afastado do crime, é surpreendentemente chamado às entrevistas, para endeusá-la: “Ela salvou a minha vida”, atesta o rapaz, que tinha certeza de sua morte precoce caso não fosse preso e afastado daquele meio. Afinal, segundo ele, “melhor preso que morto”. O discurso ainda reforça a força de vontade e a preocupação ética impecável dos jornalistas envolvidos (um deles, Fábio Gusmão, também dirige este filme autoelogioso), em paralelo ao funcionamento ideal do serviço de proteção. Vitória queria bem ao Brasil, e todos lhe queriam bem em retorno. Neste projeto, alguns homens sensíveis, convertidos em filhos postiços, choram ao se lembrar da idosa elevada à condição de ícone nacional.
Logo, alguns filmes a respeito de ídolos da nação se esforçam em retratar o indivíduo por trás da persona pública. Insistem que, na verdade, tratavam-se de homens e mulheres comuns, com ambições comuns, e um cotidiano próximo do nosso. Procuram criar, desta forma, um senso de identificação. Vitória da Paz efetua o caminho oposto, apropriando-se da mulher cotidiana para reforçar que, caso não se saiba, ela era uma verdadeira heroína na guerra contra as drogas no Brasil. Uma figura que arriscou a própria vida em sua denúncia contra o crime. Uma guerreira, uma santa, tendo salvado a vida dos mesmos homens que entregou à justiça. Por mais agradável e informativo que seja o projeto, ainda paira a dúvida se a construção dos heroísmos, e a hipervalorização do patriotismo, compreendido enquanto combate ao crime a qualquer custo, corresponde à melhor maneira de pensar as contradições sociais brasileiras.




