Fjord (2026)

O mundo das ideias

título original (ano)
Fjord (2026)
país
Romênia, França, Noruega, Suécia, Dinamarca
gênero
Drama
duração
146 minutos
direção
Cristian Mungiu
elenco
Sebastian Stan, Renate Reinsve, Lisa Carlehed, Ellen Dorrit Petersen, Lisa Loven Kongsli, Henrikke Lund-Olsen, Vanessa Ceban, Christian Rubeck
visto em
50ª Mostra de São Paulo (2026)

Em uma entrevista recente, o diretor Denis Côté fez questão de distanciar seu trabalho dos filmes de Andrey Zvyagintsev e Cristian Mungiu. Para o canadense, as obras destes cineastas são pomposas, grandiloquentes, meros trabalhos de “arquitetura moral”. O argumento se justifica diante de Fjord, drama elaborado com o intuito preciso de confrontar a cultura cristã romena à cultura secular norueguesa. Por isso, concebe um casal formado por um romeno (Sebastian Stan) e uma norueguesa (Renate Reinsve), num contexto de imigração. Em meio a um vilarejo predominantemente laico, instaura-se a família religiosa.

A trama observa uma faísca, aumentada progressivamente até a explosão. Certo dia, a adolescente Elia (Vanessa Ceban) aparece na escola com manchas avermelhadas no corpo. A dúvida para os educadores seria, em primeiro lugar, se o machucado decorre de uma agressão por parte dos pais e, em segundo lugar, se a possível agressão está associada à educação religiosa. Uma pergunta diz respeito aos fatos, e a segunda, a um julgamento moral (os motivos para a pretensa violência). Não tarda até a família Gheorghiu ser criticada pelos locais em função de sua ideologia conservadora. O real debate diz respeito ao direito de possuir uma opinião contrária face à maioria, e ao direito do imigrante de conservar sua cultura numa sociedade distinta.

Mungiu não é muito sutil em seu debate. Ele faz com que este conflito pontual adquira grandes proporções com rapidez espantosa, chegando à proximidade da caricatura em ambos os lados. Logo, os professores laicos logo chamam o Serviço Tutelar devido ao comentário da adolescente religiosa contra a amiga lésbica; enquanto a enfermeira romena presenteia seus pacientes noruegueses com uma mini-Bíblia. O embate desemboca, literalmente, em um tribunal, no qual os réus são desqualificados pelo promotor em virtude de suas convicções religiosas. O caráter vilanesco deste advogado (que guarda boas semelhanças com aquele de Anatomia de uma Queda) contribui ao teor pedagógico do dilema moral.

O filme serve como uma competente e luxuosa apresentação do conflito que nunca pretende, de fato, esmiuçar.

De certa forma, a binariedade desta oposição garante uma narrativa eficaz. O filme esclarece seu tema, seus objetivos, assim como a recusa em tomar lados. Contrariamente a tantos espectadores que sugeriram um filme conservador, Fjord mostra-se mais isento do que reacionário — afinal, colocar cristãos em posição de protagonista não equivale a defendê-los. Para cada argumento pró-Gheorghiu (a fobia cristã da professora, os comentários de desdém do vizinho), surgem argumentos pró-comunidade norueguesa (a confissão das palmadas por parte do casal, a obrigação de ler a Bíblia diversas vezes, a proibição de dançar). O diretor deseja abordar o tema, contanto que não precise se posicionar, deixando qualquer forma de conclusão ao espectador. Trata-se de uma dialética incompleta, dotada de tese e antítese, mas nunca de síntese.

Este arsenal filosoficamente interessante, porém emocionalmente rígido, se reveste de uma estética glacial. O cineasta e seu diretor de fotografia Tudor Vladimir Panduru optam por uma rara câmera móvel, mas perfeitamente estabilizada, o que implica em alguma leveza na imagem, porém, sem a tremedeira excessiva do cinema de urgência. Algumas cenas ostentam a megaprodução entre cinco países — caso da câmera atravessando o interior de um carro e adentrando o veículo ao lado, na conclusão; e da atriz pulando na água para resgatar um idoso suicida, em plano-sequência, com a câmera seguindo o salto. A polidez e elegância generalizadas — o padrão europeu de qualidade tão valorizado no Festival de Cannes — se associa a eventuais fragmentos vaidosos de mise en scène.

Mungiu, de fato, possui pleno controle dos espaços e dos tempos, assim como do trabalho com atores. Utiliza muito bem a geografia fria, além da proximidade das casas, para sugerir ao mesmo tempo o desconhecimento em relação ao outro, e a invasão na intimidade alheia. A montagem e a direção de arte descrevem com competência implacável a classe-média exemplar. Para que os protagonistas não sejam julgados por outros fatores para além de suas crenças, encontram-se todos na mesma classe social, mesma raça, mesmo nível de escolaridade. São igualmente inteligentes e eloquentes quando confrontados a opiniões adversas. Dificilmente tomam atitudes equivocadas no calor do momento. Para um filme acerca da possível agressão a uma criança, surpreende tamanho comedimento.

Ainda mais inesperada é a decisão de deixar fora de quadro as informações centrais para nosso julgamento moral. Em outras palavras, somos convidados a opinar, ainda que sem provas. Nunca presenciamos o instante em que o ferimento de Elia aconteceu. Já a possível agressão da mãe Lisbet aos filhos, enquanto segura o bebê de colo, ocorre convenientemente atrás de uma parede. O pai Mihai reclama de seus deslocamentos frequentes na estrada (que nunca vemos), e do escândalo da imprensa (que jamais testemunhamos). Tanto os fatos quanto a repercussão destes são ocultados, para que o espectador fique preso à versão de um contra a versão de outro. A enigmática solução poética do desfecho interrompe qualquer possibilidade de posicionamento do autor. Nem mesmo constitui uma terceira via às perspectivas, apenas uma suspensão do atrito.

Talvez o principal incômodo em Fjord resida na opção por uma perspectiva onisciente. Embora Lisbet e Mihai sejam os protagonistas, a história não é contada pelo olhar deles. Por isso, desconhecemos suas atitudes reais no passado, e os abandonamos ao longo de diversas cenas para nos focar nos vizinhos e professores. A maioria das obras morais de destaque recentemente (Minotauro, Anatomia de uma Queda) optava por um protagonista claro, a quem éramos convidados a seguir. Aqui, o posicionamento do diretor se mostra equidistante das famílias, enquanto ignoramos os pensamentos reais de um e de outro. Isso faz com que eles se tornem meros exemplos de caso, instrumentalizados para representar uma classe — os religiosos contra os laicos; ou os conservadores contra os progressistas. 

Logo, apesar de dotados de subjetividades razoavelmente bem construídas, os adultos são soterrados pelo princípio moral que necessitam representar. Nunca apresentam dúvidas ou contradições em seus pensamentos, porque a narrativa troca a perspectiva otimista de uma evolução pessoal pela impossibilidade de conciliá-los. Ora, o que Mungiu nos diz, para além de constatar a existência de problemas tão complexos nas sociedades contemporâneas? Sugere algum modo de conduta, alguma perspectiva a médio e longo prazos? É difícil saber. O filme de 146 minutos serve como uma competente e luxuosa apresentação do conflito que nunca pretende, de fato, esmiuçar. Retira o pathos, a catarse e os fatos, para nos deixar apenas com a ideia da discussão. Apesar de sua materialidade via representação audiovisual, o resultado se torna bastante abstrato — para o bem e para o mal.

Fjord (2026)
7
Nota 7/10

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