A Morte Não Tem Dono representou uma das experiências mais brutais e controversas da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
O diretor Jorge Thielen Armand retrata os efeitos da colonização, do racismo e da luta de classes, através da história de Caro (a italiana Asia Argento), que viaja à Venezuela para vender um casarão que herdou do pai. No entanto, chegando ao local, descobre que muitas famílias de pessoas negras e pobres ocupam o imóvel, e se recusam a sair.
As negociações não avançam, e as autoridades locais tampouco ajudam a europeia. Assim, ela recorre a meios cada vez mais violentos para expulsar os habitantes de sua propriedade, até iniciar uma verdadeira guerra.
Em entrevista ao Meio Amargo, o cineasta fala sobre esta coprodução venezuelana-canadense-italiana-luxemburguesa, que estreou na Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes.

Gostaria de perguntar sobre a representação da Venezuela no filme. Por que preferiu ficar longe de Caracas, numa região afastada?
Jorge Thielen Armand: O filme se passa em uma espécie de local isolado, longe da cidade. É por isso que eles fazem um longo trajeto de carro. Eu gosto de retratar uma Venezuela ambígua, afinal, também é ambígua a época em que a história se passa, por causa dos carros, das roupas, da ausência de celulares — bom, na verdade, há um celular no filme.
Também tem a textura da imagem. O filme nasce da ideia de um pesadelo, mas também vem da minha experiência como alguém que retorna à Venezuela a cada filme. É um lugar muito incerto, onde mito e realidade colidem. Nessa incerteza, também existe muito medo, porque a situação lá desperta essas alucinações. Para mim, os elementos fantásticos são uma descrição precisa da minha experiência na Venezuela.
A Venezuela é um lugar muito incerto, onde mito e realidade colidem. Nessa incerteza, também existe muito medo.
Você escolhe como protagonista uma mulher de atitudes bastante controversas. Que tipo de relação buscava estabelecer com o público?
Jorge Thielen Armand: Eu estava concentrado em fazer um filme onde não houvesse vítimas, só agressores. É claro que, de certa forma, todo mundo é vítima em algum momento, e todo mundo é agressor também. Essa ambiguidade moral faz parte dessa atmosfera de pesadelo e perigo constante. Eu queria que o público sentisse que era difícil escolher um lado, ou encontrar uma personagem por quem torcer.
Considero mais desafiador, e mais interessante, colocar o público diante da personagem com quem é mais difícil se identificar, sabe? Temos essa mulher branca europeia, diante de pessoas negras pobres. Então, de certa forma, talvez a gente não esteja acompanhando o olhar da pessoa por quem deveríamos torcer.
Por que propôs o papel a Asia Argento que, politicamente, representa algo tão distante de personagem?
Jorge Thielen Armand: A Asia traz uma bagagem para o filme. Ela atua desde os nove anos de idade, e propus esse filme a ela porque alguma coisa dentro de mim dizia que ela seria a pessoa certa. Eu estava interessado em quem ela é, em sua relação ao cinema e sua posição política. Queria muito colaborar com ela para criar essa personagem. Ela veio para a Venezuela dois meses antes das filmagens, e aprendeu espanhol para o papel.
Foi uma atitude muito corajosa para uma atriz como ela, ir a um lugar tão incerto quanto a Venezuela. Então esta foi uma colaboração realmente intensa. Passamos por muitas coisas juntos — ela ficou doente durante as filmagens, inclusive. Além disso, vivíamos constantemente sob a ameaça de que as filmagens pudessem ser interrompidas porque não tínhamos as autorizações oficiais.
Em paralelo, os barcos americanos estavam bem perto da costa enquanto filmávamos. Então, o clima de medo não existia apenas no filme; estava presente também na produção. A incerteza também era nossa.
Filmar na Venezuela é uma experiência muito particular. Você tem a sensação de que cada filme pode ser o último.
Mesmo sem autorização, esta é oficialmente uma produção venezuelana, correto?
Jorge Thielen Armand: Sim. Para mim, era importante torná-lo legalmente uma coprodução venezuelana, porque isso me permite trabalhar com chefes de departamento na Venezuela. Por isso, a maior parte da equipe é venezuelana. Mas não recebi nenhum apoio do Estado. Nunca recebi apoio do Estado para nenhum dos meus filmes. Mesmo assim, consegui incluir a Venezuela nessa equação por meio de alguns investimentos privados que o filme recebeu, e pude destinar esses recursos à parte venezuelana. Mas isso era importante, para a gente poder filmar lá, com equipe local.
Filmar na Venezuela é uma experiência muito particular porque, por um lado, existe uma situação econômica muito difícil. Muitos artistas já saíram do país. Mas as pessoas que ficaram continuam sendo profissionais incrivelmente talentosos, que receberam sua formação nos anos 1980 e 1990, quando havia diversas produções, tanto nacionais quanto internacionais. Então você tem a sensação de que cada filme pode ser o último. As pessoas não aparecem no set como se fosse apenas mais uma filmagem. Por isso, existe uma atmosfera dos anos 1970 em tudo isso. Se filmar um longa-metragem em qualquer lugar já é um milagre, ali é um milagre por cima de outro milagre.

O filme já foi exibido na Venezuela? Como os espectadores locais responderam a esta representação do país?
Jorge Thielen Armand: Tivemos uma semana de lançamento nos cinemas da Venezuela, para torná-lo elegível ao Oscar. Agora, ele é a seleção oficial da Venezuela para o Oscar 2027, e também vai abrir o Festival de Cinema em Caracas. O lançamento comercial acontece no ano que vem.
Infelizmente, eu não estive presente durante essa semana de exibição, em um único cinema. Eu teria adorado presenciar a reação deles, porque realmente quero vivenciar esse contato. Meu último filme estreou em 2020, o ano da Covid, então existe uma espécie de lacuna. Perdi essa interação com o público. Mas, pelo que sei, o filme provoca reações muito fortes, como acontece em qualquer território. O filme desperta muito ódio e muito amor. É muito controverso, mas ele não deixa ninguém indiferente.
O filme desperta muito ódio e muito amor, mas ele não deixa ninguém indiferente.
Aqui na Mostra, ouvi muitas discussões a respeito da violência do filme. Por que preferiu esta representação explícita das agressões?
Jorge Thielen Armand: Porque eu estava interessado em representar as diferentes formas de violência. Meu filme está cheio de violência metafórica e de violência sutil. É claro que o sonho inicial é violento. Mas, depois, há pequenos gestos no filme. Por exemplo, o olhar fixo e prolongado que algumas pessoas dirigem a outras pode ser interpretado como um ato de violência por parte de uma mulher europeia.
Há também histórias contadas de forma agressiva, a exemplo do taxista que diz: “Graças a Deus que mataram todos os criminosos”. Então, você sente que existe um clima hostil. E claro, há toda essa violência neocolonial, quando a personagem Caro diz à criança que talvez o nome dele seja Michael, e não Maiko, sabe? São pequenos gestos que começam a intensificar essa violência.
Depois, a violência explícita vem à tona. Fiz escolhas muito conscientes para representar essa dimensão por meio do close-up da mão agarrando o chicote, ou afiando esse pedaço de madeira com a faca e, por fim, do sangue respingando no rosto da Asia.
A dimensão da violência evolui ao longo do filme. Acredito que representar a violência dessa forma era absolutamente necessário, porque se trata de uma história sobre o ciclo vicioso da violência, e ainda não descobrimos como interromper esse ciclo.
Afinal, não existem respostas. Sim, eu poderia ter terminado meu filme de outra maneira, mas sinto que não havia uma solução possível. Não existem respostas possíveis para essas questões eternas, que vêm de antes mesmo do colonialismo.

Os demais atores são experientes também? Ou misturou com atores naturais?
Jorge Thielen Armand: Todos os outros integrantes do elenco são atores não-profissionais. Na verdade, falo dos principais nomes do elenco, porque o taxista, a mulher na delegacia e o homem no hotel são profissionais. Mas, em relação ao trabalho com os atores não-profissionais, esse trabalho começa no processo de seleção. Você tenta encontrar pessoas que possam trazer algo para o papel, que estejam preparadas para isso, de certa forma.
Por exemplo, conhecemos a Dogreika Tovar na casa dela, e fizemos um exercício de interpretação. Foi então que descobrimos que ela tocava percussão. Pensei: “Bem, se ela toca, se tem esse talento, podemos ter uma cena com música”. Depois, encontrei as cantoras que vemos na cena do hotel. Eu as vi na rua e perguntei: “Vocês querem participar do meu filme?”. Não havia uma cena para elas, mas sabia que precisava inclui-las. Em seguida, quando encontrei o restaurante do hotel, virei para o lado, vi o palco e pensei: “Aqui está a cena das cantoras”.
Eu vou criando ao longo do processo. O trabalho com esses atores não-profissionais começa quando, junto com o preparador de elenco, mergulhamos em um processo de concentração, de meditação, para ensiná-los a estar presentes uns com os outros. Nos meus filmes anteriores, eu recorria bastante à improvisação. Mas, aqui, não podia fazer isso, porque embora a Asia tenha aprendido espanhol, ela não conseguiria improvisar se necessário. Então fizemos muitos ensaios.
A escolha de uma luz dura combinava com a história, porque é o sol da tragédia, sabe? É o sol que enlouquece a personagem.
Outra coisa que parece muito controlada é a estética do filme. Os reflexos, as luzes, os zooms lentos, a textura da imagem soam como um sonho febril.
Jorge Thielen Armand: Como tudo na minha abordagem, isso vem da intuição. Não existe um grande planejamento. Existem desejos. Luis Armando Arteaga, meu diretor de fotografia, tem um estilo muito marcado. Ele trabalha bastante com a manipulação de câmeras digitais, não necessariamente para imitar a película, mas para criar uma imagem digital mais bruta.
Isso começa pela câmera, mas passa pela escolha de trabalhar com algumas lentes antigas, e aceitar que algumas delas têm defeitos. O halo luminoso que vemos na imagem, na verdade, é um arranhão na lente. Mas também tem a ver com a dureza dessas luzes, algo que o Luis adora trabalhar. Hoje em dia, a maioria das produções é muito limpa, com alta definição. Todas as roupas são perfeitas, e a direção de arte parece seguir uma paleta bem definida.
Nós trabalhamos apenas com a intuição. A escolha de uma luz dura também combinava muito com a história, porque é o sol da tragédia, sabe? É o sol que enlouquece a personagem. É o sol do gótico tropical.
É possível que esta história de invasões, no atual contexto, seja vista como uma metáfora para a invasão dos Estados Unidos à Venezuela. O que acha disso?
Jorge Thielen Armand: Eu gosto que as pessoas atribuam suas próprias metáforas ao filme. Eu escrevi esse filme em 2021. Então, essa situação com Trump aconteceu enquanto estávamos filmando. Foi, digamos, uma bela coincidência. O que dizer? A história tende a se repetir. A vida se repete.




