
Maria é uma protagonista… misteriosa. Inicialmente, soa como uma jovem dotada de severa limitação intelectual. Arianne Botelho, atriz de 33 anos, interpreta esta heroína com pouco mais de 20 anos, e idade mental de uma criança pequena. Ela observa o mundo com os olhos arregalados de quem o descobre pela primeira vez. Na condição de animal indefeso, pula e dança a esmo, enquanto ignora a evidente maldade dos homens desta fazenda do Brasil Império. A pobre nunca viu um chão de madeira, um espelho, nem o açúcar. Ignora o significado das palavras “partir” e “comprido”. Acredita que seu sobrenome é “filha de um descuido do destino”, devido à descrição do pai.
Ao mesmo tempo, a protagonista com alguma forma de deficiência cognitiva possui lampejos de lucidez e eloquência. Ocasionalmente, mostra-se capaz de detectar a perversidade dos donos de escravizados, assim como elaborar planos de vingança. Então seria tudo um grande fingimento? Uma artimanha da mulher que, fingindo-se de indefesa, arquitetaria com mais facilidade sua escapatória? Mas então, por que ainda agiria de forma animalesca quando se encontra sozinha? Como os homens instruídos da fazenda acreditariam na farsa de Maria enquanto professora de matemática, ou celebrariam uma barriga de gestante, em fase avançada, aparecida do dia para a noite? Afinal, a tola é ela, ou são todos tolos nesta fábula com apreço tão reduzido pelos próprios personagens?
É muito difícil que nenhum artista envolvido tenha percebido o quão próximo este dispositivo se encontrava da paródia. Como levar a sério um arsenal estético e uma visão de mundo tão anacrônicos?
De fato, A Prisioneira demonstra a incômoda tendência a ridicularizar estas figuras. Todas as mulheres são frágeis, histéricas, ou perfeitamente cômodas com a agressão sofrida. Os personagens negros são dóceis, seja literalmente emudecidos, devido às línguas cortadas, seja embrutecidos, dotados de um sotaque tão estereotipado que faria corar qualquer novela dos anos 1980. Sabe-se que um sujeito é gay, ou “invertido”, como dizem, pelo fato de se comunicar em francês, apreciar Paris e desmunhecar às vezes. O advogado comporta-se com soberba: “A lei sou eu!”. Menos do que personagens dotados de subjetividades próprias, os criadores trabalham com estereótipos desgastados e exageradíssimos de suas categorias sociais (a mulher, o negro, o gay), sem perceber o quão ofensivo tal retrato pode ser.
Mas a trama se passa no século XIX, quando esta opressão existia! Isso é historicamente comprovado! Este costuma ser o argumento principal para defender construções tão maniqueístas da sociedade. Ora, ninguém negaria a existência de abusos e injustiças — os letreiros de abertura inclusive ostentam a consultoria de uma doutora em História. O problema não reside na agressividade de um personagem para com o outro, mas no olhar da direção em relação a todos eles. Mesmo abordando os séculos passados, este ainda é um filme de 2026. Homens e mulheres escravizados sempre possuíram voz, força, objetivo, subjetividade — cabendo aos artistas de hoje resgatá-los. Homens gays sempre foram mais do que o gosto por perfumes, trufas e Paris. E as jovens mulheres, ingênuas e indefesas, jamais corresponderam a tamanho embrutecimento e passividade.
Maria soa como uma figura extraída de A Pequena Sereia — uma princesa descobrindo o mundo humano, porém em versão live action. Ora, as ações se situam em contornos políticos e sociais tão complexos que tamanha simplificação dos laços sociais incorre numa irresponsabilidade ética e moral. Subitamente, a menina-mulher-animal-traiçoeira, que cheira florzinhas e utiliza uma eterna camisola branca de pureza e inocência, converte-se na Lady Macbeth clássica. Ao fundo do corredor, enxerga as mucamas mutiladas, convertidas nas meninas de O Iluminado. As referências se misturam, do filme “sério” à paródia, do naturalismo ao delírio, da referência puramente brasileira ao imaginário de uma cinefilia e literatura internacionais. Poucas ações realmente têm sentido nesta fusão de iconografias e simbologias.
Para complicar a situação, o longa-metragem é inteiramente acompanhado por uma trilha sonora digna do cinema mudo. Um piano insistente pontua cada ação, antecipando os instantes graves e sugerindo tensão. Enquanto isso, Arianne Botelho / Lillian Gish abre bem os olhos e a boca, exagera nos trejeitos, grita a plenos pulmões. “Invertido, invertido!”. A frase poderia sair de uma cartela de 1920. Aliás, como surgiu a sutilíssima ideia de plantar o título diretamente na boca aberta da menina-bicho, gritando desesperada? É muito difícil que nenhum artista envolvido tenha percebido o quão próximo este dispositivo se encontrava do humor, da paródia, da chacota destas mesmas épocas e referências. Como pode se levar a sério um arsenal estético e uma visão de mundo tão anacrônicos?


Já a direção de fotografia, profundamente nítida, prova-se incapaz de projetar o espectador no mundo de quase 200 anos atrás. Alguns atores certamente se esforçam bastante para conferir estofo às caricaturas que encarnam. Entretanto, nem os experientes Fernando Alves Pinto e Leopoldo Pacheco conseguem atenuar a superficialidade do texto e a improbabilidade dos acontecimentos — vide o sumiço de personagens centrais durante tanto tempo, e a ausência de curiosidade de Maria em explorar o mundo ao redor. Uma vez que escravizados e escravizadas somem de cena, o projeto simplesmente os esquece. Afinal, nunca havia se importado com qualquer um deles de fato. De onde teria surgido o garoto negro, com quem a heroína desenvolve um inesperado laço de carinho? Jamais saberemos. Mas podemos antecipar o final acessório que o menino terá.
Ironicamente, no fundo, bem no fundo, pressente-se que A Prisioneira possuísse intenções nobres. É possível que Francisco Ramalho Jr. e sua equipe buscassem denunciar a opressão contra mulheres, a injustiça contra pessoas negras, além da crueldade dos homens da época. Entretanto, a possível denúncia social se perde no desprezo pela complexidade social, e na estereotipia das mesmas vítimas que pretendia honrar. O longa-metragem observa estas mulheres enquanto loucas, ignorantes ou malignas, sem exceção. Calibra Tião num nível que atuação, com tal dicção e olhar, que resulta contraproducente ao ator e à trama. Permanece vários graus acima do naturalismo, embora jamais assuma sua vertente fantasiosa ou paródica. Erra gravemente o alvo, resultando mais prejudicial do que reflexivo.




