Foto: Leo Lara/Universo Produção
Foto: Leo Lara/Universo Produção

Paz Encina | “Eu me interesso pelo que acontece depois da guerra, depois da ditadura”

Em 2026, a grande homenageada do 20º CineBH: Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte é a cineasta paraguaia Paz Encina. Além de diversos curtas-metragens, ela se tornou conhecida mundialmente através de Hamaca Paraguaya (2006), um estudo sobre dois pais idosos esperando que o filho retorne da guerra.

Depois deste drama, exibido em Cannes, ela mergulhou no próprio passado, atravessado pela ditadura de Stroessner, em Ejercicios de Memoria (2016), e concentrou-se na opressão contra povos indígenas em EAMI (2022). No evento mineiro, ela apresenta três filmes: Hamaca Paraguaya, Ejercicios de Memoria e Cartas a un Viejo Master — sua homenagem pessoal a Eduardo Coutinho.

A diretora conversou com o Meio Amargo a respeito desta retrospectiva:

Hamaca Paraguaia (2006)
Hamaca Paraguaya (2006)

Tanto Hamaca Paraguaya quanto Ejercicios de Memoria separam bastante o som da imagem, que nos contam histórias diferentes. Por que gosta deste procedimento?
Paz Encina: Não sei se a questão é o gosto pela dissociação entre som e imagem. Mas eu gosto de trabalhar o tempo. Essa é uma questão da minha infância: quando eu era muito pequena, comecei a estudar violão clássico. Fui concertista de violão clássico durante muito tempo, e naturalmente, os tempos convivem na música. Você toca uma semínima, uma colcheia, uma mínima, mas nem pensa que está fazendo tudo isso. As primeiras coisas que eu aprendi a ler e escrever foram notas musicais, não foram letras. Essa é a minha estrutura de pensamento, por ter passado três anos somente lendo e escrevendo música. Aos sete anos, comecei a ler e a escrever de verdade. Por causa deste percurso, se tornou orgânico para mim trabalhar o tempo.
Além disso, nos meus filmes, eu começo criando toda a banda sonora (os diálogos e sons), e só depois escrevo a imagem. Há um movimento e um tormento, por assim dizer, no som. Ele é a base de tudo, e a imagem se encontra em outra camada. Eu considero que trabalhar o tempo é uma das principais coisas que podemos fazer no cinema.

Eu não quero filmar a violência. De qualquer forma, ela já está presente, porque são momentos traumáticos.

Neste dois projetos, a violência é muito forte, mas ela se encontra no som, nunca na imagem. Por quê?
Paz Encina: Eu não quero filmar a violência. De qualquer forma, ela já está presente, porque são momentos traumáticos: uma guerra e uma ditadura. Mas não eram essas as coisas que eu queria filmar — além disso, nem sei como filmá-las. O que posso fazer é dar ao espectador as ferramentas para que imagine essa violência. São imagens que já temos na memória, mesmo que seja uma guerra dos anos 1930. A Primeira Guerra Mundial já estava repleta de imagens. Falamos em ditaduras, e já temos estas imagens na cabeça.
Por outro lado, também não sentia que fosse necessário. Afinal, eu me interesso pelo que aconteceu com todas essas pessoas depois. O que acontece depois de uma guerra? Depois de uma ditadura? Como lidar com um desaparecido, ou um filho morto? A vida destas pessoas se foi; é impossível se reconstruir.

Hamaca Paraguaia (2006)
Hamaca Paraguaia (2006)

Você também não mostra os rostos de perto. Em Hamaca Paraguaya, os personagens estão sempre distantes. Mal enxergamos sua expressão. Por que fez esta escolha?
Paz Encina: Por dois motivos. Primeiro, porque eles estão de luto. Eu não queria estar perto de um luto, em sinal de respeito. Eu já vivi lutos, e percebo como um instante muito íntimo. No filme, somente aquele pai entendia o que aquela mãe vivia, e somente aquela mãe entendia o que aquele pai vivia. Por isso, o que todos nós poderíamos fazer tão perto deles?
Algumas leituras bonitas decorrem disso. Por exemplo, quando vemos a mulher de costas, com aquele lenço amarrado no cabelo, uma das produtoras me disse: “Para mim, ela é uma mãe iraniana.” Já a argentina me disse: “Para mim, é uma das Mães da Praça de Maio.” Cada pessoa confere a ela uma identidade diferente, e por isso gosto de não mostrar exatamente os rostos. Além disso, para mim, eles eram como a imagem de uma memória — e na memória, eu nunca me lembro dos detalhes, nem vejo bem os rostos.

Gosto de não mostrar exatamente os rostos. Eles eram como a imagem de uma memória — e na memória, eu nunca me lembro dos detalhes.

Em Hamaca Paraguaya, você adapta o seu próprio curta-metragem. O que te convenceu de que uma proposta estética tão ousada funcionaria no longa-metragem?
Paz Encina: Eu comecei escrevendo este longa e, quando finalizei o roteiro, senti que poderia funcionar. Eu também fiz uma oficina com Joaquim Jordà, que me deu muita segurança e coragem. Foi precioso compartilhar aquilo com Joaquim, que me disse para ir com tudo. Para ele, ou você mergulha de cabeça numa proposta, ou é melhor não fazer.
Eu tinha uma intuição de que aquilo poderia funcionar. Além disso, trabalhei com Lita Stantic, uma produtora argentina, que me pediu uma demo do roteiro do longa-metragem, para ver se funcionaria. Então eu fiz. Por isso, quando chegou a filmagem, eu já tinha um curta-metragem, que mostrei ao Jorge La Ferla, meu professor. Depois de tudo isso, eu estava absolutamente segura — era como se eu já tivesse ensaiado bastante.
Eu ainda pensava que, se isso me importa e me emociona, vai importar e emocionar alguém. Era uma sensação que eu tinha: o filme me emocionava. Ele tinha uma aura, algo que já o protegia por si mesmo. Por isso, eu estava muito segura com esse filme. Eu me sentia próxima dele.

Hamaca Paraguaia (2006)
Hamaca Paraguaia (2006)

Me parece que o fato de o som estar bem perto de nós também contribui para essa intimidade, já que os rostos estão distantes.
Paz Encina: Sim. Se o som estivesse mais distante, o filme não se sustentaria. A gente se sentiria de fora daquela situação. Mas o som nos envolve e nos torna presentes. Por isso, a concepção do som foi muito pensada e trabalhada com um técnico de som incrível, o Guido Berenblum. Ele foi minucioso: cada passarinho, cada latido era muito pensado.
Mas outra coisa é importante para mim, em relação ao curta e ao longa. Entre os dois projetos, eu escrevi uma tese sobre Yasujirō Ozu. Foi uma tese obsessiva, fundamental para mim. Fiquei quase louca de tanto que estudei o cinema dele, em profundidade. Analisei onde ele decide colocar a câmera — na altura do tatame, trabalhando os objetos, movendo cada vez menos a câmera, saltando o eixo. Isso também fez com que eu me perguntasse: “Qual é a minha gramática? O que eu quero fazer? Como quero olhar o mundo?”. Para mim, isso foi essencial. Por isso, sinto que o curta é frágil, enquanto o longa-metragem é bem mais sólido. Isso teve a ver com minha tese.

Até hoje, continuo sendo não a diretora de EAMI, não a diretora de Ejercicios de Memoria, não a diretora de Cartas a un Viejo Master: sigo sendo a diretora de Hamaca Paraguaya.

Hamaca Paraguaya teve reações excelentes em Cannes e nos outros festivais. Essa reação te abriu portas, no sentido de permitir fazer o que quisesse a seguir?
Paz Encina: Hamaca me abriu muitos caminhos. Até hoje, continuo sendo não a diretora de EAMI, não a diretora de Ejercicios de Memoria, não a diretora de Cartas a un Viejo Master: sigo sendo a diretora de Hamaca Paraguaya. Hamaca foi um filme muito generoso comigo, e até hoje, continua me abrindo caminhos. Eu também sinto que me preparei a vida inteira para fazer esse filme, e foi fundamental tê-lo feito já na minha estreia em longas.
Atualmente, eu posso continuar filmando porque tive produtoras mulheres excelentes e corajosas: Marianne Slot, Ilse Hughan e Lita Stantic. Só pude fazer Hamaca Paraguaya porque elas estavam presentes. Vinte anos atrás, nós não tínhamos incentivo ao cinema, nem uma lei do cinema. O edital específico existe há cinco anos. Eu não teria conseguido continuar filmando no Paraguai, com todos os apoios que tive, sem o reconhecimento por Hamaca Paraguaya.

Ejercicios de Memoria (2016)
Ejercicios de Memoria (2016)

Quando você chega a Ejercicios de Memoria, já aborda um tema bastante próximo de sua história pessoal: a ditadura de Stroessner, os desaparecimentos e assassinatos pelos militares. Por que fez esta escolha?
Paz Encina: Ejercicios de Memoria teve algo que, para mim, foi fundamental: o diretor de fotografia, que também era o cinegrafista, me perguntou: “Qual é o ponto de vista no filme?” E eu pensei: é de Agustín. Eles são crianças, então é preciso estar perto e olhá-las nos olhos. Não eram adultos vivendo o luto pelo pai: eram crianças, que ficaram muito feridas. Então, a decisão de estar perto foi muito importante e contundente.
Mas para mim, levou bastante tempo até a ditadura se transformar em um objeto de estudo. Eu vivi a ditadura, com um pai militante, que foi preso e exilado. Não era algo que eu conhecia apenas de ouvir falar: eu sabia muito bem o que havia acontecido no Paraguai. Vivi isso durante 18 anos: eu nasci em 1971, e a ditadura termina em 1989. Eu já era bem crescida quando a ditadura terminou.
Então, decidi pesquisar aquilo que chamamos de Arquivos do Terror, que são os arquivos da polícia de Stroessner encontrados no Paraguai. Foi muito forte para mim, porque eu reconhecia aquelas pessoas. Não precisava ler legendas para saber quem eram: era o amigo do meu pai, era meu professor na universidade. Mentalmente, isso me afetou muito. Hoje já faço isso com mais leveza, quase por ofício. É a maturidade. Mas, há dez anos, foi inferno para mim mergulhar naquele mundo.

Não era algo que eu conhecia apenas de ouvir falar: eu sabia muito bem o que havia acontecido no Paraguai. Vivi isso durante 18 anos.

Em Ejercicios de Memoria, os três filhos voltam à região onde viviam — um lugar bastante traumático para eles. Essa decisão veio deles mesmos, ou foi você quem pediu para fazerem isso?
Paz Encina: Eu pedi. Eu conversava muito com eles, e esse também foi um processo comigo. Eu gosto muito do tom destas entrevistas que fiz durante dois ou três anos. Eu sabia que, se eles tivessem confiança em mim, me contariam o que sentem de verdade. Eles mesmos tinham vontade de falar sobre o pai, mas não queriam falar de si próprios. Levou muito tempo para chegar a um ponto em que eles tivessem confiança em mim. Por isso, foi tão bonito quando me disseram: “Sabe do que não me esqueço? Da Paz”, em relação ao meu nome. Então já éramos muito próximos, e eles tinham vontade de voltar ali. Era como uma aventura para nós.
Ao mesmo tempo, foi muito, muito duro. Eu nem me lembro de quantas cidades, nem quantas casas percorremos, porque eles se mudavam de casa o tempo todo. Eu sempre sinto que existe outro documentário dentro do documentário que fiz, porque era como se tudo estivesse desaparecendo. As casas onde eles tinham morado não existiam mais. Tudo ia se desfazendo e caindo — era algo muito forte.

Ejercicios de Memoria (2016)
Ejercicios de Memoria (2016)

Você já disse que não pretende filmar sempre as violências do país, e gostaria de mudar de temas. Mas se sente responsável por abordar estas temáticas, nem sempre são retratadas no cinema?
Paz Encina: Eu sentia uma responsabilidade enorme. Eu precisava fazer aquilo; era um dever para mim. A minha geração não tinha elaborado tudo o que havia acontecido com a ditadura e com a memória. Minha geração ficou muito cômoda nesse sentido, e eu me sentia muito culpada. Por isso, senti muita responsabilidade naquele momento. Ainda sinto.
Mas agora há outras pessoas trabalhando sobre a ditadura, e isso me dá certo alívio, porque se ninguém estivesse fazendo isso, eu sentiria o triplo da responsabilidade que sinto hoje. Agora temos jovens abordando isso: acabou de sair Narciso, do Marcelo Martinessi, que se passa no contexto da ditadura; além de Bajo las Banderas, El Sol, de Juanjo Pereira, que, para mim, é uma obra-prima.
Isso é um grande respiro, que vai diminuindo o peso nas costas. Antes, eu pensava: “Ninguém conhece os arquivos, ninguém os mostra, ninguém entra neles. Sempre tenho que resgatar esses arquivos para que as pessoas os vejam”. Isso sempre me deu muita angústia. Hoje, ainda são poucas pessoas acessando este material, mas elas existem. Para mim, o fato de Juanjo, Marcelo e um monte de outras pessoas estarem trabalhando a ditadura — também tem o Pablo Lamar, por exemplo — é um alívio enorme. Isso me dá a possibilidade de pensar em outras coisas.
Além disso, eu sofri muitas represálias pelos filmes que fiz, e elas foram muito duras para mim. Todo o poder político e econômico no Paraguai está nas mãos dos stroessnistas. Então, claro, o setor privado não iria me apoiar em nada — não apenas o meu trabalho sobre a ditadura, mas nenhum outro. Isso também foi muito pesado para mim. Era uma rejeição cada vez mais clara.

Eu sofri muitas represálias pelos filmes que fiz. Então o setor privado não iria me apoiar em nada.

Às vezes as pessoas reclamam que o cinema brasileiro também faz muitos filmes sobre a ditadura, especialmente depois de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto. Mas acredito que isso se deva ao fato que as feridas continuam abertas. Os nossos torturadores não sofreram nenhuma punição por seus crimes.
Paz Encina: As feridas continuam abertas e, no Brasil, não se pode tocar nos arquivos dos militares, o que também é uma questão grave. Nesse sentido, acho que até o Paraguai está um pouco mais adiantado — por uma questão aleatória dos Arquivos do Terror, mas está.
O que acontece é que, para mim, uma coisa é um governo de direita, e outra coisa é um governo fascista. Quando a direita começa a se aproximar do fascismo, aí estamos diante de um problema muito grande. Também é neste momento que percebemos o valor de uma luta. Quando os jovens se veem ameaçados, ou percebem aquela ameaça que seus avós viveram, aí eles entendem. Acho que agora estão conseguindo entendê-la.
Porque antes era como algo distante e alheio, que nunca voltaria. Mas as nossas democracias nunca estão garantidas. Nunca. A Argentina é o grande exemplo disso. É muito complexo o que está acontecendo com Milei. Ele está destruindo uma luta de muitos anos. Mas em toda a América Latina, há uma espécie de bastião dos desobedientes, que enfrentam este cenário e atribuem potência a tudo isso. Os próprios familiares dos repressores se posicionam, e isso é muito forte. Já não são as vítimas, mas os familiares daqueles que carregam a luta. Esta é uma contrapartida interessante a todo o fascismo e a toda a direita.

Carta a un Viejo Master (2024)
Carta a un Viejo Master (2024)

Qual é a importância de apresentar seus filmes no Brasil, vinte anos, e dez anos depois da realização de cada um?
Paz Encina: É gratificante para mim, porque o Brasil é um país tão grande, com tantos diretores e diretoras, que o foco no meu trabalho é motivo de muita gratidão. É realmente um grande presente que isso aconteça. Além disso, percebo que os filmes são vistos por jovens que, vinte anos atrás, nem tinham nascido.
O fato que estes filmes sejam vistos novamente é um sonho que se torna realidade, porque eu sempre quis que meus filmes perdurassem no tempo.

O fato que estes filmes sejam vistos novamente é um sonho que se torna realidade. Eu sempre quis que meus filmes perdurassem no tempo.

Inclusive, além de Hamaca Paraguaya e Ejercicios de Memoria, você está presente no CineBH com Carta a un Viejo Master — uma homenagem a Eduardo Coutinho. Qual a sua conexão com o cineasta brasileiro?
Paz Encina: Ele é um diretor muito importante na minha carreira. Eu o conheci quando estava estudando cinema, através de Cabra Marcado para Morrer. Quem me apresentou este filme foi meu professor Jorge La Ferla. Nunca vou me esquecer. Desde então, acompanhei toda a filmografia de Coutinho. E depois, quando fiz EAMI, trabalhei com com Jordana Berg — isso foi decisivo para mim.
Por isso, quando me falam do Rio de Janeiro, não penso no mar, nem na praia. Para mim, o Rio de Janeiro é Coutinho, é o Edifício Master, é Jordana. Por isso eu quis voltar ao Edifício Master. Quando cheguei lá, comecei a investigar, mas quase nenhum personagem do Coutinho ainda estava ali. Somente consegui encontrar uma mulher. Então, o que fiz foi me transformar em uma entrevistada de Coutinho. Eu começo a contar minhas experiências à medida que avanço pelo Edifício Master. Vou aos apartamentos e digo: “Sei isso sobre esta pessoa; esta aqui morreu; esta se mudou”.
Foi muito bonito, de alguma maneira, ter essa oportunidade. Mas eu nunca cheguei ao nível de Coutinho. Eu não sei se tenho a capacidade de fazer com que alguém venha falar comigo como falava com ele, transformando as vidas delas em um filme. Isso me parece maravilhoso, mas não tenho esse dom. Jamais me atrevi a fazer algo parecido com o que Coutinho fazia. Nunca teria me atrevido.

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