A Terra do Meu Pai (2026)

Um choro preso na garganta

título original (ano)
Fatherland (2026)
país
Polônia, Alemanha, Itália, França
gênero
Drama
duração
82 minutos
direção
Paweł Pawlikowski
elenco
Hanns Zischler, Sandra Hüller, August Diehl, Devid Striesow, Joachim Meyerhoff
visto em
50ª Mostra de São Paulo (2026)

A narrativa de A Terra do Meu Pai ocorre em um período político particularmente tenso. A Segunda Guerra Mundial já acabou, mas a Alemanha ainda se reconstrói, e negocia o pacto de convivência entre os polos capitalista e comunista. A Guerra Fria toma proporções mais ameaçadoras, enquanto diversos artistas se encontram no exílio — caso do escritor Thomas Mann (Hanns Zischler), de A Morte em Veneza e A Montanha Mágica, e vencedor do prêmio Nobel de Literatura. De volta à Alemanha natal, ele é convidado a dar palestras, escrever discursos e responder às perguntas maliciosas da imprensa a respeito de sua filiação ideológica: afinal, onde seria sua casa de fato? O autor ri e tergiversa. Os Estados Unidos de sua residência ainda lhe soam estranhos, enquanto a Alemanha de sua infância não existe mais.

Neste contexto, o diretor e roteirista Paweł Pawlikowski se baseia nos fatos da vida do autor — em particular, a relação conturbada com o filho Klaus (August Diehl). Homossexual assumido, depressivo e de personalidade extravagante, o jovem representa o oposto do comedimento do pai (que tentava ocultar seus próprios interesses amorosos por homens). Por influência da filha Erika (Sandra Hüller), os dois homens aceitam conversar, e Klaus cogita acompanhar o pai na viagem ao longo de diversas cidades da Alemanha. No entanto, o rapaz angustiado jamais aparece. Ele comete suicídio em 22 de maio, na cidade de Cannes, onde vive. Ora, onde seria mais importante a Thomas comparecer? No enterro do filho, ou nos pronunciamentos à nação?

O cineasta testa os limites de seu procedimento estético, reduzindo progressivamente a emotividade enquanto aumenta o formalismo das imagens e dos sons.

O longa-metragem se articula entre estas duas esferas: a privada e a pública, a pessoal e a nacional. O escritor renomado, que tanto se dedicou a narrativas morais e éticas, tende a seguir viagem — o dever com a Alemanha viria em primeiro lugar. Entretanto, Erika sugere que a prioridade deveria ser o trabalho de luto e o adeus a Klaus. Para o mundo ao redor, em contrapartida, pai e filha seguem uma jornada sem sobressaltos. Os dilemas são internos, minúsculos, e escondidos aos olhares da intelectualidade burguesa. A única extravagância decorre da mulher, quando estapeia o ex-marido impertinente numa festa, e depois se afasta. De resto, chora em silêncio no quarto — ao passo que Thomas não chora em momento nenhum. Apesar das catástrofes (da família e da nação), a vida segue.

Tamanha contenção de sentimentos se alinha bem com a estética do cineasta polonês, habituado à rigidez formal. Ele segue a cartilha que tem lhe servido muito bem nos últimos longas-metragens: a janela mais próxima do quadrado (um formato de tela estreito); a fotografia em preto e branco bastante contrastado, com planos cuidadosamente simétricos; as narrativas sucintas que nem mesmo chegam aos 90 minutos. As violências ocorrem fora de quadro, ou de maneira a não contaminarem a polidez do conjunto. Ao invés das catarses, Pawlikowski prefere a tentativa de segurar o choro, o sorriso por educação, os esforços para manter a compostura em público. Aqui, os personagens perfeitamente funcionais e cientes de suas responsabilidades transparecem, em pequenos instantes revelados somente ao espectador, a ruína interna que tentam esconder.

A propósito de ruínas, A Terra do Meu Pai efetua uma bela exploração da geografia de um país desmantelado. Com frequência, estas imagens em contra-plongée (de cima para baixo) abrem bastante o escopo das paisagens, diminuindo a proporção dos dois protagonistas em meio aos cenários vazios. Desta forma, sugerem a solidão e a incomunicabilidade, sem precisarem explicitá-la em ações didáticas. O próprio contraste do preto e branco sugere, numa alegoria clássica, um país dividido, incapaz de se reconciliar com suas diferenças. Em outras palavras, a estética da extrema compostura, entre reuniões com políticos e jantares de gala, transmite a incômoda naturalidade diante de tantas violências e traumas recentes. A artificialidade dos procedimentos é representada por uma linguagem igualmente pomposa e, por isso mesmo, avessa ao realismo social.

É possível que a obra seja criticada, desta vez, por um desenvolvimento ainda mais frio e implacável do que aquele percebido nos aclamados Guerra Fria e Ida. O cineasta testa os limites de seu procedimento estético, reduzindo progressivamente a emotividade enquanto aumenta o formalismo das imagens e dos sons. Até que ponto os cenários e as luzes darão conta de representar a vida interna de personagens tão fragmentados? A partir de qual momento o estetismo se sobrepõe ao humanismo, chamando mais atenção aos gestos da direção e à fotografia de Łukasz Żal? Pawlikowski se junta a autores tais quais Hong Sang-soo no sentido de que, após a consagração por uma estética particular, aprofundam-na até estabelecerem os limites de seu funcionamento.

Aos atores, restam composições competentes, voluntariamente contidas. Afinal, os enquadramentos nunca se aproximam dos rostos, e os pequenos choros ocorrem à distância, ou com o elenco de costas à câmera. Sandra Hüler é tão capaz de experimentar o histrionismo (Digger) quanto a contenção (A Terra do Meu Pai); os sentimentos em moldes comerciais (Devoradores de Estrelas) ou ostensivos (Rose). Aqui, apresenta seu papel mais preciso e minúsculo — do tipo que a maioria dos cineastas adoraria captar em close-ups, evitados pelo diretor polonês. Hanns Zischler encarna muito mais uma persona, um ícone nacional, do que um indivíduo dotado de subjetividade complexa. Até mesmo o filho suicida de August Diehl privilegia a melancolia ao desespero. 

Por este motivo, chegando ao possível clímax do encontro entre pai e filha, o filme termina. Quando enfim poderiam extravasar seus sentimentos, darem início ao trabalho de luto e revelarem suas pessoas físicas, ao invés dos cargos que representam, a jornada se interrompe. O projeto deixa o grito preso à garganta, assim como o maravilhamento estético diante de uma arquitetura esvaziada. Caberá ao espectador determinar se a suspensão abrupta recompensa a carga sentimental (por apostar na capacidade do público em projetar suas próprias emoções ) ou frustra a relação de espectatorialidade (por nos privar de um expurgo emocional sugerido tantas vezes ao longo da trama). Talvez o longa-metragem seja mais apreciável em nível intelectual do que emocional — ou seja, mais admirável do que cativante. Ora, este aparenta ser precisamente o efeito buscado por seus criadores.

A Terra do Meu Pai (2026)
8
Nota 8/10

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