O drama Lua Cheia (Full Moon, no original) parte de uma situação bastante particular: a adolescente Hae-mi (Jung Min-ju) se torna cada vez mais responsável pelos cuidados dos pais, ambos dotados de algum grau de deficiência intelectual. Por vergonha, ela tenta esconder a informação dos amigos de escola, mas quando a mãe descobre as redes sociais e começa a aparecer em vídeos, Hae-mi precisa aceitar a sua realidade.
O filme é um dos sete longas-metragens sul-coreanos da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Ele constitui o segundo filme da diretora Jeong Ji-hye, que veio ao Brasil pela primeira vez para apresentar este projeto e conversar com a imprensa, junto do diretor de fotografia Jung Jin-hyeok:

Como surge essa história sobre uma adolescente que acaba, de certa forma, se tornando a mãe dos próprios pais?
Jeong Ji-hye: Tenho uma amiga com uma família bem parecida, então eu basicamente me inspirei nesta história. Mesmo assim, eu percebo que tem bastante gente, e inclusive bastante adolescentes, que precisam amadurecer mais rápido. Antes mesmo da fase adulta, são encarregados de responsabilidades para as quais ainda não estão prontos. Isso me inspirou a fazer esse filme.
Não é a deficiência que define um grupo de pessoas. Cada um tem a sua identidade.
De que maneira queria abordar o tema da deficiência nesta trama?
Jeong Ji-hye: Eu não acredito que exista uma representação única de pessoas com deficiência, porque são casos muito distintos, com características próprias. De qualquer modo, não é a deficiência que define um grupo de pessoas. Cada um tem a sua identidade e ter ou não uma deficiência consiste em apenas uma destas características.
Neste cenário, o ator que interpreta o pai já possui uma deficiência muito evidente. Por isso, eu deixei o elenco bastante solto. Não tinha sentido impor muitas limitações na forma como deveriam atuar. Deixei que se expressassem do jeito deles, para representar justamente a singularidade de cada um. Cada indivíduo tem suas características próprias, capazes de despertar identificação com o espectador — independentemente de ter uma deficiência ou não.

Percebo a preocupação em filmar estes corpos e personalidades sem invadir o espaço deles.
Jung Jin-hyeok: Diante de atores com deficiência, é fundamental respeitar este distanciamento primeiro. Não queria que a câmera chegasse muito agressivamente em ninguém do elenco, para acompanhar o movimento de cada um e respeitar ao máximo essa naturalidade. Então, tanto na posição distante da câmera, tanto no trabalho com o elenco, tudo foi decidido na base do respeito, para preservar a naturalidade mesmo.
Diria que Lua Cheia é um filme crítico às redes sociais?
Jeong Ji-hye: Existe um diálogo parecido no filme, dizendo que as redes sociais são como a pele dessas garotas. Por isso, eu queria retratar a realidade do uso das redes sociais para elas. Por isso, uma parte do filme apresenta a tradição, a violência das redes, o abandono social. Algo fundamental é a descoberta da Hae-mi sobre o interesse dos pais nestas ferramentas, e isso começa a afetá-la. O espaço da rede social pode representar tanto uma oportunidade de comunicação para estes pais, quanto um perigo. Mas para mim era fundamental estar muito próxima da realidade contemporânea, principalmente nas adolescentes.
O espaço da rede social pode representar tanto uma oportunidade de comunicação para estes pais, quanto um perigo.
A respeito destas adolescentes, como encontrou Jung Min-ju e a preparou para este papel? Ela está bastante confortável em cena.
Jeong Ji-hye: O único requisito que a gente tinha para a Hae-mi era que ela fosse mais alta do que as colegas, para que todo conseguisse entender, de forma visual, que ela teve um amadurecimento mais rápido do que as outras. Pensamos, neste caso, na altura. Esse era o único requisito, mas quando encontramos Jung Min-ju, ela já era mais velha do que as outras candidatas. Ela estava no segundo ano do ensino colegial, enquanto outras eram mais novas.
Por isso, ela não tinha muita esperança de ser aprovada. Então, ela veio ao teste com menos energia. Ela tinha uma fala calma, tranquila e foi exatamente essa falta de energia que nos fez pensar: “É ela que vai ser a Hae-mi”.
Depois, fizemos mais testes com as outras, e muitos ensaios, duas semanas antes de começarem as filmagens. Inclusive, tivemos que fazer ensaios de dança. Além desse treinamento, passei bastante tempo com Jung Min-ju e a Kim Kum-soon num workshop de atuação.

A trilha sonora me parece bem importante. Ela ajuda a atribuir um tom doce aos acontecimentos.
Jeong Ji-hye: Sem dúvida, a trilha sonora é uma parte fundamental deste filme. Por isso, trabalhei bastante com o compositor Lee Min-hwi para que todas as músicas se encaixassem exatamente no estado emocional das personagens. A melodia era importante não apenas visualmente, mas também para construir toda a família, e desenvolver a situação independentemente de qualquer outro contexto. Era fundamental que a trilha comentasse o acontecimento de cada momento.
Além disso, a gente trouxe bastante músicas antigas, pouco comuns para os adolescentes de hoje. Não é algo que a gente veja os jovens cantando. Mas aí encontramos uma banda que pega músicas antigas e faz novos arranjos, para tornar mais contemporâneo. Foram estas versões que a gente usou no filme, para dialogar com a experiência dos adolescentes.
Esta foi a primeira exibição internacional do meu filme, e acabou sendo logo no Brasil.
Como descreve a experiência de apresentar esta família coreana a uma cultura tão diferente quanto a brasileira?
Jeong Ji-hye: Eu sempre escutei sobre São Paulo, e tinha vontade de vir para cá. Esta foi a primeira exibição internacional do meu filme, e acabou sendo logo no Brasil. Antes disso, Lua Cheia só tinha sido exibido na Coreia. Estou particularmente interessada em saber da reação dos espectadores, porque acabamos de chegar ao país, e estamos animados para o retorno do público.
Jung Jin-hyeok: De fato, são culturas muito diferentes. Mas no fundo, não acredito que a gente pense de maneiras tão diferentes assim. Fico muito feliz que a nossa cultura possa ser representada em um festival com tantos países. Esta é a maior riqueza.



