À primeira vista, a Hacienda Nápoles, na Colômbia, é apenas um parque de diversões comum, com a temática de dinossauros. No entanto, este mesmo território já abrigou a violência de Pablo Escobar, e hoje se encontra ao lado de uma grande prisão nacional.
O diretor Sebastián Múnera explora as contradições deste cenário em Meteorito, filme apresentado pela primeira vez na Semana da Crítica do Festival de Veneza, e depois na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Na trama, Tefa e Nia (Luna Gaviria e Ángela Cano) são melhores amigas que aproveitam a oportunidade de contrabandear objetos para dentro da prisão, como forma de ganhar algum dinheiro.
Mas quando sofrem violência destes homens, decidem se vingar… através do sexo. O filme está repleto de imagens fortes e poéticas, que dificilmente deixam o espectador indiferente. O cineasta, presente no Brasil para a exibição da obra, comenta estas escolhas arriscadas:

Como descreveria a união entre as duas protagonistas?
Sebastián Múnera: Em primeiro lugar, elas são unidas pela amizade enquanto atrizes mesmo. As duas são amigas, e estudaram artes dramáticas juntas na Universidade de Antioquia, na Colômbia. Por isso, já havia uma amizade entre elas. Neste sentido, construir uma ficção a partir dessas duas foi um desafio mas, ao mesmo tempo, fácil, porque elas compartilharam muito de suas vidas com o projeto.
Na ficção, o que une as duas personagens é o desejo de vingança por meio do sexo. Mas Ángela Cano e Luna Gaviria são o presente que este filme tem. São a nossa principal qualidade.
Eu venho do mundo das artes plásticas, então, para mim, primeiro vêm as imagens, e só depois as histórias.
A ilegalidade não está associada ao senso de urgência, nem de espetáculo no seu filme. Meteorito me parece bem melancólico.
Sebastián Múnera: Esta não foi uma escolha. É que eu venho do mundo das artes plásticas, então, para mim, primeiro vêm as imagens, e só depois as histórias. Eu filmo conforme vou recebendo os lugares, e sentindo a potência deles. Eu sabia que queria filmar naquele lugar complexo e difícil para a história da Colômbia, que é o parque temático e santuário Hacienda Nápoles, ao lado da prisão.
Este é um lugar difícil, repleto de tensões, mas não cheguei lá por causa da narrativa, e sim, pela imagem que aquele lugar propõe. Ele se parece com um parque de diversões até você mergulhar de fato nele. Mas a imagem sempre vem antes da história.
Vou ser muito sincero: sei que em algumas conversas sobre o Meteorito, falou-se sobre essa estetização, essa “superestetização”. É claro, seria possível filmar aquele contexto de outra maneira, talvez de forma mais crua, atraves do realismo social. Mas acredito que a violência também precisa ser filmada de maneira poética. Essa é a aposta do filme: filmar esses contextos, esse passado, com uma camada de ficção poética. O filme tem uma vingança poética no final, que somente o cinema de ficção permite fazer. No fim das contas, são gestos criativos.

O sexo é filmado de maneira muito particular, como um ritual. Como pensou estas cenas?
Sebastián Múnera: Muito da principal cena de sexo se deve à grande atriz Luna Gaviria. Para mim, como para muitos, o cinema é coletivo. Propus a Luna a cena de sexo durante uma conversa final sobre o roteiro. Em determinado momento, Luna me convidou para tomar café da manhã e me disse: “Feche os olhos, vou ler uma cena para você”. Ela leu para mim a cena 19, quando as amigas estão conversando à noite e planejando uma espécie de conjuro, que depois faz sentido para a cena final. Fechei os olhos e senti que aquela cena precisava ser feita.
Além disso, ela vem do mundo do teatro erótico, é uma atriz burlesca. Ela adora ficar nua, e me disse: “Quero matá-lo, e além de matá-lo, quero consumi-lo, engoli-lo. Quero me vingar dele por meio do meu próprio corpo, porque isso me dá poder”. Depois começamos a construir com o ator Esteban Madrigal, que também já conhecia bem a Luna antes. Contamos com esta relação de confiança para fazer esta cena bem complicada — aquela tomada foi filmada 14 vezes.
Luna me pediu aquela morte, ela me pediu para consumir aquele homem.
Eu queria que fosse um plano longo, para não romper a compreensão de que eles estavam fazendo sexo, sem precisar cortar para um primeiro plano e disfarçar, via montagem, o tempo do sexo. Construímos com Luna uma figura animal do louva-a-deus. Este é um animal que engole o macho, não é? Ela o come lentamente. A Luna já havia trabalhado essa figura criativa em Medeia, uma peça teatral que ela já encenou, como atriz e diretora de teatro.
Depois refletimos muito sobre a melhor maneira de filmar. Optamos pelo plano longo de uma mulher nua diante de nós, devorando o homem diante da câmera, em um ritual. É um plano muito arriscado nesse sentido, porque ou você o ama ou detesta. Mas esse foi o acordo que fiz com Luna. Ela me pediu aquela morte, ela me pediu para consumir aquele homem, com um orgasmo feminino capaz de matar.

Além das cores e dos enquadramentos fixos, Meteorito chama muito a atenção pelo trabalho potente de som.
Sebastián Múnera: O desenho sonoro foi feito pelo Deimer Quintero e o Abel Romero. Eles chegaram em um momento em que estávamos finalizando, mas ainda sem um desenho sonoro, e queríamos que o trabalho de som servisse como um chão para estas imagens poéticas. Ele seria fundamental para arrebatar o espectador, e provocar uma experiência forte.
Então, fizemos um desenho sonoro apostando numa sala de cinema bem equipada, com sistema de som 5.1. Ele se torna a camada subterrânea, jurássica do filme, como aqueles dinossauros do parque. Claro, há uma camada superficial, relacionada ao parque de diversões atual. Os sonhos foram construídos nesses dois níveis. Mas a diversão das famílias no parque se entrelaça com uma memória pré-histórica que antecede tudo isso: quem está debaixo de nós, e qual animal está debaixo de nós. Qual é a memória que nos habita?
O filme poderia ter adquirido uma estética totalmente diferente. Afinal, eu escrevi o roteiro durante a pós-produção.
Pensamos então nestes dois níveis, incluindo o som dos dinossauros enquanto metáfora da memória na Colômbia. O dinossauro enterrado debaixo de todos nós, colombianos. A própria Hacienda Nápoles já é, por si só, um parque temático no estilo de Jurassic Park. Mas qual animal, enquanto metáfora, se encontra por baixo de toda essa diversão? Tudo isso é um pouco perverso.
E acima de tudo isso, existe a água do rio Magdalena, o rio mais importante da Colômbia. Então, o que aconteceria se o rio esquentasse? Como quando sentimos raiva e o sangue esquenta? Tivemos todas essas conversas a respeito do som.
Esta é uma pergunta que me faz voltar ao estúdio de gravação, e às perguntas que a gente fazia na época. A pós-produção proporciona um debate criativo espetacular. O filme poderia ter adquirido uma estética totalmente diferente. Afinal, eu escrevi o roteiro durante a pós-produção. Encontrei o filme neste momento, com Luna e com Deimer. Foi ali, conversando com eles, gravando aquelas vozes em off — ou seja, o filme se torna muito vivo na pós-produção. Boa parte da atmosfera de sonho chegou nesta fase do processo.

Como você vê Meteorito dentro da produção colombiana contemporânea? Qual o espaço para este cinema poético, de invenção?
Sebastián Múnera: Nós temos um grande desafio, que é fazer com que, compreendendo as virtudes de uma experiência cinematográfica em sala de cinema, o filme possa ser apreciado por um determinado público. Adoraríamos que ele chegasse às salas de cinema.
Mas sabemos que ele tem nudez, o que já o leva a ser excluído, de imediato, de muitas salas de cinema. Além disso, é a nudez de corpos não-hegemônicos. Mas, como não fizemos o filme para encher as salas, estamos pouco nos lixando.
Como continuar pensando esteticamente a violência, sem reproduzi-la da mesma maneira que já vimos tantas vezes? Precisamos encontrar soluções poéticas.
Pensando o contexto colombiano, sei que já se fez muito cinema sobre o narcotráfico na América Latina. Enquanto cineastas, nós seguimos pensando a violência enquanto tema e linguagem. Mas como isso pode ser interpretado agora? Eu sempre quis filmar na Hacienda Nápoles, que é a origem de uma das violências da Colômbia — a violência do narcotráfico de Pablo Escobar nos anos 1980 e 1990. Mas não queria filmar isso, exatamente, e sim me voltar a outras coisas.
Como continuar pensando esteticamente a violência, sem reproduzi-la da mesma maneira que já vimos tantas vezes? Precisamos encontrar soluções poéticas e metafóricas. O Meteorito surge disso, da incursão no cinema de gênero. O terror, o melodrama e os gêneros em geral nos ajudam a transformar a violência política, para falar dela a partir de um novo ponto de vista.



