Funk (2026)

A favela-espetáculo

título original (ano)
Funk (2026)
país
Brasil
gênero
Drama
duração
107 minutos
direção
Aly Muritiba
elenco
Duda Santos, MC Nem, Lellê, Kibba, Crazy Jeff, Claudio Gabriel, Luana Oliveira, Rafael Delgado
visto em
50ª Mostra de São Paulo (2026)

Durante a apresentação deste filme na 50ª Mostra de São Paulo, a equipe reforçou a importância de construir mulheres fortes, donas de seu destino, criando a imagem desejada para si próprias. Sim, elas têm o direito de serem piranhas, em suas palavras. Se tantos homens cantam o prazer do sexo, e se vangloriam de suas conquistas, por que elas não poderiam fazer o mesmo? Apesar da presença de um homem na direção, e de outro na produção, tanto a diretora assistente, Sabothati, quanto as atrizes Duda Santos e MC Nem garantiram ao público que as escolhas artísticas também foram suas, e que a obra nasceu do desejo destas artistas negras e periféricas em se retratarem desta forma.

Portanto, Funk afasta-se das preocupações iniciais que afetam tantas obras do gênero: a possível objetificação do corpo feminino, o olhar masculino erotizado (o male gaze), atrizes retratadas em registro explorador, contra a sua vontade. É evidente que a equipe está coesa nesta abordagem a respeito de uma jovem funkeira, a MC Sabrina (Duda Santos), sonhando com a fama através de suas letras explícitas e da personalidade explosiva. Na disputa com a mãe, uma ex-funkeira decadente, e nos laços com a melhor amiga, ela encontra uma sororidade em meio à região tomada por traficantes homens — inclusive, o irmão da heroína, numa escolha bastante conveniente por parte do roteiro.

O longa-metragem surpreende pelo esforço em incorporar todo o brilho, o impacto e os tiques dos videoclipes e da publicidade.

Logo, as questões possivelmente incômodas no projeto são de outra natureza. Elas dizem respeito à formatação desta narrativa marginal dentro da linguagem mais comercial possível. Em outras palavras, o longa-metragem surpreende pelo esforço em incorporar todo o brilho, o impacto e os tiques dos videoclipes e da publicidade. MC Sabrina não apenas rebola a bunda e pede “me fode gostoso” — um direito dela, repete-se —, mas ela o faz sob constante luz rosa-azulada e profunda nitidez, além de uma aceleração dos cortes na montagem, que convertem seu corpo, e sua persona, num produto publicitário. Quando a personagem grava o spot para uma bebida energética, a ironia reside na mínima diferença entre a estética do filme e aquela do filme-dentro-do-filme.

Os criadores partem do princípio que esta história precisa ser divertida, empolgante, vibrante, acelerada. Por isso, concentram-se unicamente em instantes de catarse, quando a protagonista briga, grita, canta, rebola, ou dá um jeitinho de subir aos palcos e aparecer nos Stories alheios. Tudo é exterioridade. Na primeira vez que MC Sabrina vai à praia, encontra um funkeiro famoso que a ajuda na carreira. No primeiro show profissional, ela cria confusão com os demais profissionais. No primeiro trabalho com um produtor musical experiente, rompe com seu colaborador habitual. Na primeira gravação de uma publicidade, desfaz o contrato depois de enfrentar os preconceitos dos publicitários burgueses. As duas cenas de racismo explícito (no restaurante e no spot na favela) são didáticas, atingindo a ofensa racial em questão de segundos (“Você é favelada, não sabe roubar?”). É preciso que tudo seja treta, barraco, confusão.

Ao mesmo tempo, retorna-se ao imaginário de uma favela excitante, repleta de sexo, música e ilegalidade. Parte das críticas disparadas contra os fetichistas Cidade de Deus e Tropa de Elite consistia neste olhar de classe média à favela enquanto palco de selvageria e ação frenética. Felizmente, as armas não disparam em Funk, e estas mulheres livres jamais encontram algum romance acessório para convertê-las ao “bom caminho”. Não engravidam, nem “caem nas drogas”. Evita-se o clichê do pobre irresponsável, incapaz de cuidar de si próprio, porém, incorre-se em outro: o do morador de uma comunidade sem lei, onde tudo se resolve no jeitinho e na força. Estamos longe da utopia reacionária de Corrida dos Bichos, mas ainda nos encontramos perto demais do imaginário folhetinesco.

Isso porque o longa-metragem de Aly Muritiba retorna, com frequência, às soluções mágicas da telenovela, fazendo com que todos os dilemas de uma comunidade estejam ligados à protagonista, e sejam resolvidos na base da boa vontade. Problemas crônicos resolvem-se com acréscimo de amor. Se fosse tão simples… Mas aqui, a rixa com a melhor amiga se atenua no clímax, magicamente, enquanto uma vida inteira de negligência materna se soluciona com um abraço e um presente da loja chique. Rompem-se contratos seríssimos sem multa nem represálias, e a favela acolhe de braços abertos a estrela que parecia ter virado as costas aos vizinhos. Os melhores amigos servem, unicamente, para dar a réplica à protagonista, porque nunca possuem vida própria (no sentido de amores, dilemas e sonhos particulares). Sabrina vai ter sucesso na vida porque o filme assim o deseja, e porque estima que a garota precisa ser recompensada por seus esforços. Logo, recorre ao otimismo ingênuo da meritocracia.

Ao mesmo tempo, esta Gata Borralheira do Morro dos Prazeres vê-se envolta em uma série de tiques da ferramenta televisiva e do streaming. Basta ver o começo bombástico, com todas as bundas, palavrões e choques necessários, para o público não mudar de conteúdo; a praia apresentada pela desgastadíssima sucessão de corpos sedutores e vendedores ambulantes, em colagens aceleradas; as bundas rebolando em câmera lenta e planos próximos, para mostrar que as atrizes estão fazendo isso de verdade. Se o funk ostenta a sexualidade feminina sem meios-termos, o cinema se estima responsável por uma abordagem igualmente frontal, em imagens e sons. 

No elenco, de fato, Duda Santos se prova excelente em espontaneidade e vigor. A jovem é divertida, ágil, e sabe brincar com o aspecto de sedução tão estimulado pelos criadores. Ela está cercada por atores igualmente competentes, caso das ótimas MC Nem e Lellê. Não há um passo em falso nesta escalação de artistas competentes, transbordando de pulsão e corporeidade. O problema se encontra no olhar do filme, acreditando que elas sejam apenas isso: encaradas, intimidação, briga, malandragem. Não há espaço para contemplação, dúvida ou silêncio, porque os criadores estimam que isso não geraria um espetáculo tão interessante quanto sucessivas cenas de intimidação sob luz rosa neon e trilha sonora pulsante.

É engraçado lembrar que, recentemente, Kasa Branca (2024) também trazia em sua trama um funkeiro famoso e o sonho do reconhecimento no meio musical. Ora, esta ambição era embutida numa vida plausível, naturalista, repleta de afetos e dúvidas. Os jovens do diretor Luciano Vidigal se ajudavam, mas também lamentavam, choravam, sofriam. Eram filmados à certa distância contemplativa, ao invés da imersão direta nas sensações e na pele do elenco. Havia muita humanidade e carinho naquele olhar tão terno, comandado por um cineasta da própria comunidade. Em Funk, a homenagem à autonomia feminina é condicionada à possibilidade de torná-la uma mulher-barraco, uma mulher-potência. Não há diferença fundamental entre a persona artística de Sabrina sobre os palcos e a jovem no dia a dia, porque o longa-metragem de 2026 deseja enxergá-la, unicamente, pelo sedutor viés da afronta. Retira-se o funk carioca de um estereótipo nocivo (o da imoralidade) apenas para colocá-lo em outro (o da mulher-pulsão, limitada a voracidade e impestuosidade). 

Funk (2026)
5
Nota 5/10

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