Angh (2026)

A invasão gentil

título original (ano)
Angh (2026)
país
Índia
gênero
Drama
duração
103 minutos
direção
Theja Rio
elenco
Anglong Konyak, Sobino Rengma, Douglas James Henshall, Genpai Konyak, Wangton Konyak, Amah Konyak
visto em
50ª Mostra de São Paulo (2026)

Uma fábula indígena a respeito da Borracha e da Árvore atravessa toda a narrativa de Angh. Segundo esta história, a Borracha pedia à Árvore, dia após dia, para dormir sob a sua sombra. Esta última, habituada a acolher pessoas apoiadas em seu tronco, aceitou. Com o costume, os pedidos nem eram mais necessários. Um dia, a Árvore acordou completamente coberta pela Borracha, que havia paralisado as suas raízes até matá-la. Em outras palavras: crie corvos, e eles arrancarão seus olhos, como diria o provérbio ocidental, e também o filme de Carlos Saura. O princípio é o mesmo: algumas violências ocorrem lentamente, sob forma de gentileza. Chegam até nós com um sorriso no rosto, e depois tomam tudo o que temos.

Este processo está no centro do longa-metragem escrito e dirigido pelo cineasta indígena Theja Rio, a partir do curta-metragem homônimo de 2021. A trama se inicia onde a maioria das jornadas terminaria: o Velho Líder de uma comunidade indígena, e seu filho pequeno, são os únicos habitantes a preservar as tradições ancestrais. Todos os demais vestem roupas de brancos, falam inglês e frequentam missas cristãs. Aprovam a derrubada de árvores para a construção de uma estrada que os conectará “com o resto do mundo”. Curam suas doenças com práticas hospitalares e, sobretudo, recusam-se a repetir a cerimônia de cortar a cabeça dos mortos para queimá-las e preservar os crânios num altar sagrado. Seguindo as regras do cristianismo, os indígenas convertidos preferem o enterro.

Um teor profundamente fatalista contamina a obra, como se qualquer forma de resistência fosse impossível. O homem simplesmente aceita a sua sina face à opressão crescente.

Logo, a jornada parte de um ponto de derrota evidente, e apenas agrava a situação a partir daí. Não se trata de acompanhar o lento processo de colonização cultural de seu povo — eles já estão plenamente adaptados ao modo de vida alheio, e não demonstram nenhuma vontade de retornar ao estilo dos antepassados. Angh (Anglong Konyak) não tem como, ou contra quem, lutar: o que ele poderia fazer, sozinho, contra todos os demais, e contra o poderoso pastor, que oferece ajuda em tom amistoso? Pior do que isso, ele começa a perder o filho pequeno, cada vez mais seduzido pela perspectiva de brincar com as outras crianças. O menino emudecido, cumprindo as ordens do pai sem real motivação, encanta-se com o rádio, a comida europeia, as camisetas, as igrejas. 

O ponto de vista permanece junto ao homem resistente, de olhar expressivo e dignidade intacta. Evidentemente amoroso, ele também executa com pragmatismo os rituais necessários, sobretudo envolvendo a morte. É exatamente contra esta rigidez moral que o pré-adolescente se rebela. Ora, a única alternativa disponível consiste no apelo desta esmagadora maioria batista, que insiste em convidá-lo, sem gritos nem reprimendas. Apenas um convite de convívio social e escapatória à solidão. Como resistir? Neste contexto, compreende-se que a direção se situe junto ao líder, observando com indignação a disseminação da catequese por todo o território. 

Em simultâneo, um sentimento de impotência se apodera do protagonista, e do filme na totalidade. O drama jamais recorre a soluções milagrosas para instaurar uma conclusão otimista, muito pelo contrário. Angh utiliza artifícios desesperados, tais quais literalmente trancar o filho em casa. Não adianta. A luta soa impossível, inviável. Um teor profundamente fatalista contamina a obra, como se qualquer forma de resistência fosse impossível. O homem simplesmente aceita a sua sina face à opressão crescente. A árvore consente com a tomada da borracha; o dono do corvo entrega seu próprio olho ao animal. Talvez o aspecto mais incômodo, e também questionável do belíssimo projeto, resida neste aparente conformismo. Não há formas de combate, nem mesmo simbólico ou sonhado. A derrota é certa, implacável. Um letreiro no final nos alerta que “Nagalândia é o estado mais Batista do mundo”, em referência à região da Índia na fronteira com a Birmânia.

Devido a este fator, e à recusa do cineasta em caracterizar os invasores como figuras malignas e perversas, Angh aparenta acatar com relativa docilidade o aculturamento deste povo originário. “É um filme oficialmente cristão, não é?”, perguntava um espectador confuso, na saída da sessão da 50ª Mostra de São Paulo. A dúvida se torna perigosamente plausível, face ao retrato bastante cortês destes brancos que oferecem comida, jogos, roupas, aparelhos domésticos, e ainda cuidam das crianças indígenas doentes em caso de necessidade. Quem aprisiona o pequeno Amao numa jaula, de maneira animalesca, é o protagonista. Na tentativa de não demonizar o “outro lado”, o discurso o tolera até demais, a ponto de abrir brechas para uma interpretação de condescendência.

Diante de tamanhos conflitos morais, sobressai no longa-metragem o primoroso trabalho estético. A filmagem em película favorece a impressão de um tempo passado (a trama se situa em 1962), sem exagerar na granulação a ponto de chamar atenção para si própria. As composições em planos fixos, valorizando tanto os rostos quanto espaços, é primorosa na utilização da profundidade de campo, das luzes e das cores. Enquanto isso, a montagem mostra-se bastante ágil para uma iniciativa que privilegia a contemplação e o silêncio. A homogeneidade das atuações e a abertura muito crua ao realismo mágico (uma excepcional sequência de sonho, onde os desejos mais profundos de Angh se realizam) oferecem um verdadeiro banquete aos sentidos.

O mesmo vale para o respeitoso tratamento do ritual mortuário. Rio aposta numa linguagem frontal e explícita de cabeças sendo cortadas, no entanto, encontra ângulos e maneiras de tornar este ato tão naturalista quanto encoberto por certo mistério. A cabeça é cortada durante um plano aéreo, enquanto a morte do animal ocorre num espaço extraquadro, durante um plano-sequência espetacular. Em outras palavras, tanto visual quanto sonoramente, Angh transparece um domínio ímpar da linguagem cinematográfica. É uma pena que tamanha gentileza com seus agressores ainda deixe um sentimento amargo por tolerar, parcialmente, aquele que nos aniquilam. Há um meio do caminho muito importante a estabelecer entre a denúncia fervorosa e a aceitação passiva de nosso “fim iminente, como se a nossa relevância estivesse diminuindo a cada momento”, nas palavras do líder.

Angh (2026)
7
Nota 7/10

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