
Tio Tony (Marcus Majella) afirma que detestaria cuidar de um bebê. Ele não entende por que alguém teria filhos hoje em dia. Dez minutos depois, uma criança é deixada à porta de sua casa. Ninguém pensa em chamar a polícia: pelo contrário, apenas abraçam o bebê e começam a se organizar em termos de fraldas e mamadeiras, assim como na escala entre tio e sobrinhos, revezando-se nos cuidados da pequena Alice. Obviamente, em pouquíssimo tempo, o sujeito malandro e reclamão estará apaixonado pela pequena. Salvou-se o dia: não haveria nada melhor para colocar um homem queer (e estranhamente assexuado) nos eixos do que lhe oferecer (contra a sua vontade) uma família e uma função paterna. Uma vez responsabilizado pela prole alheia, ele pode ser ajudado pela trama e se considerar feliz de fato. Fim.
Um Tio Quase Perfeito 3 segue à risca a comédia em moldes Paulo Gustavo. Traz um protagonista implicante pelo qual os personagens coadjuvantes movem montanhas (embora o sujeito jamais ajude em igual medida os demais). Inclui menções diretas a Minha Mãe É uma Peça, aos tiques do comediante (“Eu, hein?”), enquanto recorre à abrupta inclusão de um instante dramático (uma morte, é claro) para equilibrar com a comédia de costumes. Estima que o caráter espontâneo e desbocado do herói seja suficiente para desculpar todos os seus deslizes, motivados, afinal, por um bom coração. No final, defende-se a família e o cuidado ao próximo em detrimento do amor romântico.
Curiosamente, o roteiro de Sabrina Garcia, Pedro Antonio e Rodrigo Goulart acena a diversos caminhos cômicos que não pretende desenvolver de fato. Assim, o cartaz promocional sugere grande importância da fantasia de Marreco Furreco, embora o item desempenhe papel mínimo na trama. Investe em recriações fictícias de filmes, utilizando a bebê, mesmo que tal procedimento seja descartado a seguir. Aposta na fofura de Alice vestida de bichos de pelúcia, tal qual nas propagandas da Parmalat anos atrás. Ora, este fragmento tampouco possui qualquer relevância na jornada. Sugere que os três sobrinhos dos filmes anteriores sejam fundamentais ao humor, embora sejam escanteados e nunca participem de fato à comicidade. Qualquer pequena ideia singela ou terna é introjetada no roteiro, e esquecida a seguir.
Uma diversão ligeira, de pouca complexidade psicológica ou política, e muito satisfeita com isso.
Este caráter inconsequente acompanha as reviravoltas na totalidade. As guinadas são rápidas e inverossímeis — vide o bebê deixado à porta; o casamento decidido de um dia para o outro e uma morte súbita. Isso sem falar numa peça de teatro nem sequer começada que, num corte da montagem, se converte numa megaprodução repleta de figurinos, projeções e números musicais coreografados. A sobrinha precisa de dinheiro? Pronto, aqui está. Os familiares pensam em recorrer a serviços sociais? Uma amiga especializada (Isabel Fillardis) adentra a casa com respostas — o processo está andando, o juiz disse isso ou aquilo, tudo dará certo. Tony nunca precisa se deslocar até os departamentos necessários. Mesmo sua pretensa dedicação ao trabalho teima em convencer. A direção ama os dilemas e as resoluções, dispensando os processos permitindo chegar a tais conquistas — razão pela qual as ações se tornam tão difíceis de acreditar.
Em consequência, o longa-metragem contenta-se em funcionar enquanto mera distração. Alinha-se às comédias que buscam retratar as classes populares sem conhecê-las de fato, mencionando o trabalho pelo qual não se importa, e defendendo um ideal de família cujos contornos resultam fantasiosos. É problemática a ideia de conferir à única personagem nordestina da trama (a excelente Clarissa Pinheiro, que sempre esperamos ver em papéis maiores) a figura da pobre e solitária funcionária de limpeza pública, capaz de um ato moralmente contestável. Os trâmites relacionados ao abandono de uma criança e à adoção da mesma soam absurdos, de tão fáceis. Temas relativamente graves são tratados com tamanho descaso (a acusação de sequestro de menores no parque) que apenas transparecem o desinteresse pela complexidade do real. Os criadores desejam construir uma ode às famílias de classe média, contanto que não precisem retratar os desafios cotidianos deste segmento. Estimam, portanto, que a comédia seja incompatível com complexidade sociopolítica — uma falácia evidente.
Seria possível distinguir as propostas cômicas entre aquelas que partem de questões do dia a dia para encontrar alguma magia na rotina plausível (O Homem que Copiava, O Dia que te Conheci) e aquelas, de contornos mais histriônicos, que dependem de reviravoltas externas e inesperadas, a exemplo do enriquecimento repentino, viagens pela Europa, fenômenos mágicos (no caso das comédias de Fábio Porchat) e bebês deixados à porta. Uma delas pretende homenagear o real, e a outra, imaginar a realidade como gostaria que ela fosse. Tio Tony se insere neste contexto de um realismo mágico: nunca aparenta pertencer à sociedade de fato, agindo como bem entende, sem prestar contas a quem quer que seja. O filme o considera engraçado exatamente por isso: pelas roupas incomuns, o corte de cabelo pouco usual, as atitudes improváveis (na delegacia, por exemplo).
Resta uma diversão ligeira, de pouca complexidade psicológica ou política, e muito satisfeita com isso. Prefere embelezar a trama com trilha sonora em excesso (o problema comum à ampla maioria da produção popular), e com tiques do humor físico (vômito de bebê na cara, talco em pó na cara, chupeta de bebê na cara). Ainda recorre a soluções mágicas para salvar o dia, e ao encantamento direto diante de bebês sorridentes e bichos de pelúcia. Para além de abordar a infância, Um Tio Quase Perfeito 3 também depende desta visão um tanto infantilizada de mundo, para a qual o amor ultrapassa todos os obstáculos, o destino bate à sua porta e unidos vencemos qualquer dificuldade. O resultado é um filme fácil, em todos os sentidos do termo. Ele é tão fácil, precisamente, nesta versão adocicada dos relacionamentos familiares, que parece desconectado com os mesmos indivíduos que pretende homenagear.




