
Nesta rocambolesca comédia dramática, todos os personagens filmam. O audiovisual representa a ferramenta de expressão central para estas figuras egocêntricas, complexadas, solitárias. Juana (Esmeralda Pimentel), entediada com sua vida burguesa, decide fazer um filme sobre a própria vida. O pai dela, um rico empresário, dedica-se aos spots publicitários da campanha para governador de Yucatán. Já os trabalhadores desta empresa, revoltados com as demissões em massa, organizam um documentário de denúncia. Todas as noites, Camilo (Gael García Bernal) assiste a uma série brasileira em preto e branco, acerca da juventude do futuro presidente Lula. Quando se descobre enganado no trabalho, decide dar o troco por meio de um filme de animação.
Em contrapartida, esta narrativa tão apaixonada pela criação de histórias as apresenta como absurdas. Mais do que homenagear o cinema, o cineasta mexicano as parodia. Assim, a autobiografia de Juana acontece do dia para a noite. A mulher que nunca havia feito cinema converte-se em diretora e roteirista instantâneas. Em questão de dias, uma equipe surge em sua casa, sabe-se lá de onde. Quem dera fosse tão fácil realizar um longa-metragem! A animação vingativa brota de um dia para o outro. Como se organizou uma equipe de filmagem entre os sindicalistas? Com quais recursos? Bernal evita a filmagem enquanto processo e produção, preferindo enxergá-la como sonho: qualquer indivíduo que o deseje pode elaborar seu devaneio pessoal.
Os cubanos são descritos como malandros; os mexicanos, como pragmáticos, e os brasileiros, como sentimentais. Somos sonhadores movidos por paixões e certa propensão à malandragem.
Por este motivo, qualquer naturalismo inicial — a plácida imagem do mar, abrindo o filme — cede espaço à arte enquanto interpretação delirante da realidade. O próprio Camilo descobre que seu resgate de um milionário servia a uma narrativa diferente do heroísmo imaginado. (Ele se torna o ator involuntário da história alheia, pela primeira vez). Juana descobre que, na versão fictícia de sua vida, pode trocar o marido franzino pelo musculoso Ricky Martin. Na ficção histórica sobre Lula, o sindicalista escapa da prisão graças à sua capacidade de salto com vara. Logo, a realidade constitui mero parêntese neste delírio tão pessoal. Para o autor, o real constitui um ponto de partida, uma matéria-prima para voos mais altos. Existe uma generosidade sem freios na maneira como tantas ideias díspares são incorporadas e coladas à trama.
De fato, Homem ao Mar surpreende pela sucessão incansável de conflitos, guinadas e histórias paralelas. O texto continua incorporando novos personagens a cada passagem — o cachorro, a amante do pai, o pretenso marido de Silvina, o chefe dos sindicalistas. São tantas subtramas que várias ficam esquecidas pelo caminho. O bebê é praticamente esquecido, o cachorro deixa de se tornar um conflito, e a pobre amante passa o filme inteiro entediada, presa dentro do quarto, tal qual uma donzela no topo de seu castelo, esperando alguém que a liberte e a ame. O projeto se mostra particularmente duro com as mulheres, reduzidas a beldades pouco inteligentes, divas histriônicas ou vítimas lânguidas do domínio masculino. Elas deliram em fantasias pessoais (filmes para si próprias, amores escondidos), enquanto eles realmente agem sobre a realidade. Não se trata de uma visão particularmente empolgante sobre a parcela feminina da sociedade.
“Se a realidade não serve, precisamos inventar algo”. Esta frase se converte numa espécie de lema do projeto, guiando-se pelo imperativo de criar. Assim, nenhuma ideia é descartada neste brainstorming: críticas à opressão política, comédia de classes, retratos de uma crise conjugal, comentários acerca de diferenças culturais entre Cuba, México, Colômbia e Brasil. E se o empresário recebesse Camilo enquanto está sentado no vaso sanitário? E se o salva-vidas Camilo tivesse passado a juventude na França, estudando linguística? E se uma atriz brasileira (Débora Nascimento) chegasse à casa luxuosa, para se preparar a um papel de atleta do salto em vara? E se o mesmo invasor continuasse entrando na casa, dia após dia? Bernal e o co-roteirista Mariano Pensotti respondem sim a todas estas propostas, além de mais algumas dezenas de escolhas improváveis.
Deste modo, o resultado pode empolgar graças à disposição ao risco. De fato, o filme não se assemelha a nada que tenhamos visto recentemente nas salas de cinema, nem se esforça tanto para agradar o espectador. Nunca soa como projeto de vaidade para o diretor-roteirista-e-ator-principal, disposto a se colocar em posição patética na maioria das cenas. Ele prefere elaborar um trajeto de excessos, desvios, bifurcações — algo que qualquer laboratório de roteiro aconselharia a reduzir e polir. Aqui, os cubanos são descritos como malandros; os mexicanos, como pragmáticos, e os brasileiros, como sentimentais. Este caldeirão se funde em certo imaginário latino-americano de pessoas à flor da pele, que vão a fundo de cada plano, por mais improvável que seja. Somos sonhadores proativos, na visão do criador, movidos por paixões e certa propensão à malandragem.


É claro que o mesmo delírio pode ser considerado inconsistente, bagunçado demais. Um teor condescendente atravessa a história que, por trás da celebração de nossa identidade, ainda reserva aos homens o papel de heróis, enquanto escolhe mulheres por sua beleza física e poder de sedução. Logo, a iniciativa brinca com códigos de gênero com os quais não deseja necessariamente romper. Ele ama a ideia de explorar a atriz Fabiana na função de um sonho erótico que acolhe Camilo na cama, completamente nua; Juana no papel da mulher com quem pode explorar fetiches à noite; e a amante do sogro enquanto flerte inocente e ocasional. Esta casa repleta de mulheres existe para o personagem principal que, por acaso, também é o próprio cineasta. Mesmo não se tratando de uma obra vaidosa, no sentido de ostentar habilidades técnicas e narrativas, ainda existe forte tendência a fortalecer o ego masculino (vide a cena final).
Gael García Bernal apresenta um filme inesperado para atores-convertidos-em-cineastas. Ainda que repleto de arestas e problemas, demonstra um interesse na alteridade — outros países, culturas, línguas e realidades. O criador coloca a si mesmo na postura de homem do povo, de classe popular, tragado por um mundo de riquezas ao qual não pertence, e que costuma retratá-lo de uma forma que não se enxerga. Haveria, portanto, um caráter autobiográfico nesta empreitada? Um personagem insiste que este é um filme policial, ao invés de um melodrama. Ao final, Homem ao Mar não será nem um, nem outro. Mesmo assim, ele tritura, num único liquidificador, as novelas mexicanas, a ficção histórica brasileira, o drama cubano, a comédia de erros, o romance, a metalinguagem. O resultado é tão voraz quanto disperso; tão juvenil quanto anacrônico em sua representação social. Voluntariamente ou não, trata-se de uma obra bastante singular.



