
A princípio, Calle Cuba aparenta se concentrar na vida cotidiana de algumas pessoas na ilha caribenha. Eles acordam, se arrumam, se penteiam e saem às ruas. Cumprimentam os vizinhos e começam a trabalhar. A câmera passeia pelas calçadas, observando as fachadas dos prédios e a entrada dos comércios. Alguns planos aéreos dimensionam esta arquitetura no espaço, ao lado das águas. Percebemos as construções deterioradas, assim como as casas labirínticas dentro de cada conjunto habitacional. Há pessoas sentadas nos terraços e nas sacadas. Seria o documentário uma mera ode aos cidadãos locais, em dias quaisquer? Um apelo ao lema a rotina tem seu encanto?
Aos poucos, entretanto, a diretora Vanessa Batista começa a definir seu propósito e seu método. Concentra-se, em particular, em quatro mulheres: uma mãe solo de três crianças, que sofreu violência do ex-marido; uma jovem negra e trans; a atriz encorajada pelos familiares a abandonar Cuba e uma senhora que cuida da saúde frágil do esposo. Elas pertencem a recortes raciais e etários bastante distintos — sinal da preocupação em efetuar uma representação diversa da ilha. A cineasta não apenas se interessa pelo retrato das mulheres em Cuba, mas também procura abraçar a todas elas, com seus desafios particulares a cada segmento social.
Batista demonstra um apreço crítico por seu país natal: ela transparece evidente carinho pela estrutura social e pelos habitantes, embora critique a falta de oportunidades.
Mesmo a impressão de uma banalidade do dia a dia se dissipa. O documentário elege alguns conflitos centrais para cada protagonista: a decisão de partir para outro país; a dificuldade de comunicação da mãe com o filho adolescente; a busca da mulher idosa por um medicamento raro na cidade. Em comum, repetem-se as narrativas de violência de maridos e parceiros, desde o assédio nas ruas até o relato da amiga que foi presa após esfaquear seu agressor. Contextos políticos aparentemente evidentes (a Covid-19 que leva estas pessoas a usar máscaras; o embargo econômico dos EUA) são deixados em segundo planos para se privilegiar os dilemas particulares do quarteto central. Mais do que um olhar panorâmico sobre Cuba, a obra oferece um mosaico da experiência de ser mulher no país.
Para tal, a cineasta utiliza ferramentas bastante cuidadosas de direção de fotografia. Cada encontro entre dois ou três personagens ocorre diante de duas câmeras cuidadosamente posicionadas (ou possivelmente três, no jantar das amigas), em planos fixos, permitindo à montagem alternar entre esses pontos de vista. O caminhar de uma personagem na rua é acompanhado pelo deslizar da câmera em perfeita sincronia com seus passos. Sem dúvida, algumas interações são estimuladas pela autora (caso da conversa entre a atriz e a mulher soropositiva), que se preocupa em captar as interações fora do sentimento de urgência. Mesmo assim, o controle do dispositivo jamais impede que as falas resultem bastante espontâneas. As protagonistas se mostram cômodas diante da equipe cinematográfica, sem alterar seu comportamento devido ao fato de serem registradas.
Em paralelo, todo o trabalho de som e de montagem se prova dinâmico, bastante polido, embora jamais desperte atenção a si próprio. Batista demonstra um apreço crítico por seu país natal: ela transparece evidente carinho pela estrutura social e pelos habitantes, embora critique a falta de oportunidades. Em outra palavra, aponta falhas estruturais justamente porque gostaria de ver um lugar melhor. Desta forma, evita tanto a armadilha de uma Cuba turística, sedutora e cheia de vida, quanto a denúncia de crimes e precariedade social que costuma se associar ao olhar estrangeiro. Encontra certa forma de equilíbrio no discurso, entendendo que a perspectiva feminina (sua e das personagens) seria indispensável para refletir acerca do futuro da ilha.
A premissa que inicialmente soa agradável, porém um tanto descritiva, cede espaço progressivamente a belos instantes de contemplação. Calle Cuba cresce bastante ao longo da narrativa, conforme conhecemos melhor as protagonistas e suas ambições. Chegando ao desfecho, a emoção de pai e filha durante uma apresentação teatral, e o cansaço de um senhor que dorme na mesa de trabalho, durante a confecção de um colar, soam tão tristes quanto preciosos. A mise en scène antes tão apegada a fatos e movimentos mergulha, aos poucos, na psicologia destas figuras centrais. A abordagem sociológica é abandonada em detrimento da psicologia e da poesia puramente cinematográfica.


Ao final, o longa-metragem agrada por não procurar respostas fáceis aos dilemas da nação. Prefere escutar estas pessoas a transmitir uma mensagem a partir delas, utilizando-as enquanto exemplos de caso para algum discurso a respeito de Cuba. A obra demonstra a preocupação em observar e escutar, antes de afirmar pensamentos prévios. Tal respeito e distanciamento se prova fundamental ao aspecto melancólico do conjunto, assim como à confiança demonstrada pelas quatro mulheres. Mudar-se para a Rússia ou permanecer no país; retomar conversas amistosas com o ex agressor ou cortar os laços; arriscar-se em encontros sexuais pela cidade ou evitar possíveis violências. As protagonistas hesitam cena após cena, e a montagem se interrompe antes que tomem alguma decisão, ou aprendam algo a partir desta experiência diante da equipe cinematográfica.
Logo, o documentário desperta a impressão de fragmentos tão especiais quanto rotineiros. Caso Batista os filmasse algumas semanas antes, ou depois, possivelmente encontraria resultados semelhantes. Por isso, a crônica se equilibra entre a mobilidade e a inércia, entre resignar-se e se rebelar contra um sistema (patriarcal ou socioeconômico). Por preservar a complexidade destas questões fundamentais, a obra honra tanto a localidade quanto as personagens que se entregam com tamanha sinceridade.




