Um Pouco de Esperança (2026)

Fábula melancólica

título original (ano)
Kami Nour (2026)
país
Irã, Suíça, Itália, Canadá, Turquia
gênero
Drama
duração
89 minutos
direção
Ali Asgari
elenco
Misagh Zareh, Sadaf Asgari, Forouzan Jamshidnejad, Ramtin Daghigh, Mina Rahimzadeh
visto em
50ª Mostra de São Paulo (2026)

Leva algum tempo até Um Pouco de Esperança revelar ao espectador o seu tema. Um rapaz chora à mesa, inconsolável, enquanto Arash (Missagh Zareh), explica, de maneira pragmática, o que deseja que o outro faça com suas plantas e com o apartamento. E o gato? Quem ficará com o animal? Aquilo que se assemelha a uma mudança (talvez para outra cidade, outro país?) adquire, gradativamente, contornos mais sombrios: o protagonista decidiu morrer. Não enxerga mais sentido na vida. Este médico experiente sabe de qual forma partir sem dor, e deseja comunicar aos familiares sua decisão, evitando assim a surpresa dos parentes a seguir. As sucessivas conversas com o irmão, as irmãs e a mãe consistem numa turnê de despedidas.

Felizmente, o drama dispensa o forte teor sentimental esperado do tema do suicídio. O espectador nunca é convidado a sentir piedade por este sujeito, nem chorar por ele. Tampouco somos instigados a questionar moralmente a sua escolha. Arash tomou esta decisão de maneira calma, racional, comunicando-a aos próximos com a serenidade de uma atitude irrevogável. Distancia-se, em consequência, das figuras carentes, em mera busca de atenção, esperando ser convencidas do contrário. O protagonista se encontra em outro patamar, de ordem pragmática: necessita resolver pendências do apartamento, das plantas, e transferir seus pacientes e outros médicos de sua confiança.

Uma fábula acerca do direito controlar o próprio destino face à vontade do governo em aniquilar seus opositores.

Devido a esta crônica de uma morte anunciada, o imaginário cinéfilo tem comparado A Bit of Light (título internacional) com o clássico Gosto de Cereja (1997), de Abbas Kiarostami, no qual um suicida procurava quem o enterrasse, conforme atravessava as planícies do país. Entretanto, algumas diferenças fundamentais separam os dois: a troca do cenário rural pelo ambiente urbano de apartamentos e avenidas; a substituição da fábula pelo drama; a doçura e gentileza de Kiarostami contra o tom seco e bruto de Asgari. Além disso, a opção de Arash em se comunicar com os familiares antes da morte também resulta bastante distinto do encontro do protagonista anterior com anônimos descobertos no percurso. A partir de um ponto de partida similar, as duas obras se bifurcam por completo — restando apenas, é claro, o olhar melancólico ao Irã.

De fato, a narrativa contemporânea se esforça em efetuar uma crônica dos novíssimos tempos em Teerã. Inclusive, cita a guerra em andamento com os Estados Unidos: “Aquele Sr. Trump está ameaçando bombardear aqui…”, lamenta uma mulher. Já o taxista brinca que gostaria de ter sua casa atingida por mísseis, porque planeja renovar e a demolição custa caro demais. Arash declara, em tom fatalista, que no Irã, “quando você acorda, não sabe se chegará ao final do dia”. Em detrimento do tom inflamado, de denúncia, paira uma nostalgia de cidadãos de classe-média, para quem aquele contexto está longe de constituir uma novidade. O médico teve seu consultório vandalizado e fechado por policiais, após prestar socorro a manifestantes (algo considerado um crime no Irã). Mesmo assim, não chora, nem se desespera. Este parece ter sido o gatilho para levá-lo à decisão trágica que vinha amadurecendo há tempos.

Em paralelo, os atores são calibrados para reagir à notícia com comedimento. Ficam surpresos, é claro, e tentam dissuadi-lo, como não poderiam deixar de fazer. Entretanto, uma vez compreendida a seriedade do irmão, respeitam seus planos e se prestam a honrá-los da melhor maneira possível. Transparece a dignidade do indivíduo, em circunstâncias nas quais o orgulho e a resistência a um governo opressor também se refletem na capacidade de controlar o seu próprio destino. Um pequeno aspecto de heroísmo reveste este gesto inesperado, ao invés da covardia pressuposta por alguns personagens. Logo, o valor e a moral do suicídio são questionados em chave avessa aos ditames religiosos. Asgari cogita, unicamente, a possibilidade de escapar a um regime ditatorial. Simbolicamente, Arash venceria neste contexto — leitura que os irmãos aparentam compreender.

Ao mesmo tempo, Um Pouco de Esperança recorre a um tratamento rígido de fotografia e som. Nada de trilha sonora emotiva, nem grandes gestos de câmera, capazes de chamar atenção a si mesmos. O diretor de fotografia (e também montador) Iman Tahsin trabalha essencialmente com planos fixos, apostando ocasionalmente em lentíssimos zoom-ins rumo ao corpo dos personagens. Quando duas pessoas conversam (interações que dominam a narrativa), opta por um dos dois rostos — seja daquele que fala, seja de quem escuta —, evitando os planos e contraplanos. A longa duração de cada imagem favorece os silêncios, a contemplação e o senso de inevitabilidade. 

Rumo ao final, os planos fixos na casa da matriarca, direcionados à mesa de jantar, condensam a delicada questão ética que conduz o filme inteiro: como anunciar à própria mãe idosa a decisão de se matar? Espertamente, Asgari foge à obrigação de resolver o dilema de “ele vai fazer ou não?”, procurando uma terceira via, simbolizada por um final suspenso. Os momentos mais belos, capazes de ecoar junto ao espectador, restam nestas imagens, muito bem pensadas em termos de duração, e destinadas a representar um indivíduo pela ausência. O diretor sabe muito bem quando filmar o personagem, e quando ele se torna ainda mais forte no instante em que a câmera desvia o olhar.

Somado às atuações precisas de todo o elenco, e ao naturalismo das circunstâncias, Asgari promove a dura crônica naturalista de um país em crise. Praticamente trinta anos após o suicida de Kiarostami, o cinema iraniano volta a estampar suas histórias com homens desencantados (também ilustrados pelos filmes de Jafar Panahi, por exemplo), que não enxergam soluções no Irã teocrático. Trata-se, em última instância, de fábulas acerca do direito controlar o próprio destino, face à vontade do governo em aniquilar seus opositores. O cidadão contra o sistema, o homem contra a nação. Desta vez, a revolução será interna — um martírio íntimo, pessoal, percebido unicamente pelo punhado de familiares ao redor. Às vezes, essa é a faísca que basta para iniciar um movimento.

Um Pouco de Esperança (2026)
8
Nota 8/10

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.