Rainer Frimmel. Fonte: Diagonale / Anna Stöcher
Rainer Frimmel. Fonte: Diagonale / Anna Stöcher

O Homem Mais Solitário da Cidade é “um filme sobre resistência”, afirma Rainer Frimmel

Desde a sua primeira exibição no Festival de Berlim, O Homem Mais Solitário da Cidade tem conquistado uma aprovação unânime da imprensa e do público. É difícil não se encantar com a história de Al (Al Cook), homem idoso, sofrendo pressão para abandonar seu apartamento.

Ele é o último locatário de um edifício condenado à demolição, mas insiste em permanecer no imóvel onde sempre viveu com sua falecida esposa. Ao mesmo tempo, Al tem uma vida dedicada ao blues. O músico desenvolveu uma verdadeira fascinação por Elvis Presley durante a adolescência, e investiu numa carreira inspirada na sonoridade americana.

Esta é, de certa forma, a história real de Al Cook. Na ficção, os diretores Rainer Frimmel e Tizza Covi inventam uma trama onde o músico pode encarnar uma versão de si próprio. O cineasta veio ao Brasil, durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e conversou com o Meio Amargo a respeito deste afetuoso encontro entre ficção e fatos:

Você já conhecia bem o Al Cook antes do filme?
Rainer Frimmel: Sim, nós conhecemos o Al há muito tempo, porque ele é músico de blues em Viena, e temos costume de ir aos shows. Obviamente, quando você está em Viena, e tem interesse por música, você acaba esbarrado no Al mais cedo ou mais tarde. Depois de um tempo, também nos interessamos pela vida dele, porque este modo de viver era muito interessante para nós. Então, nós passamos a almoçar com ele todos os meses. Assim ele nos contou toda a história de sua vida.
Depois, nos disse que havia escrito uma autobiografia de cerca de 700 páginas, que também lemos. Em determinado momento, decidimos fazer um filme sobre ele porque gostávamos da maneira como ele faz arte sem concessões. Essa é uma pergunta que nós, como artistas, sempre nos fazemos: que tipo de concessões estamos dispostos a aceitar, e ainda permanecer honestos com nossos princípios, sem tentar agradar demais ao público? Isso foi algo que nos impressionou muito nele: o fato de seguir seu próprio caminho desde que começou a fazer música.

Ele aceitou participar do filme de imediato? Concordava em compartilhar toda a sua intimidade?
Rainer Frimmel: Olha, o Al certamente teria preferido um documentário sobre ele. Sabe, é alguém que escreveu 700 páginas de sua história, então obviamente os detalhes da vida são muito importante para ele. Mas nós explicamos: “É melhor fazer uma ficção. Você terá mais visibilidade, porque esse filme também será exibido em outros países. Se fizermos apenas um documentário, talvez ele só seja visto na Áustria”. Então ele aceitou, e começamos a decidir a história.
Para nós, era muito importante incluir um conflito sobre a gentrificação, esse problema global que temos hoje, com tantas pessoas perdendo as suas casas. Nós conversávamos muito sobre isso com Al, e ele aceitou a ideia. Então, havia um roteiro bem definido, mas sem diálogos. Os diálogos surgiram durante o processo de filmagem, e foram improvisados cena a cena.
Também é por isso que filmamos em ordem cronológica, para desenvolver a história durante as filmagens. Para um ator não profissional, é muito melhor trabalhar assim do que ter falas para decorar, o que não teria sido possível com o Al.

A atuação dele é excelente. Todas as reações, como aos vídeos do passado, soam muito genuínas.
Rainer Frimmel: Sim, nós nunca ensaiamos. Para nós, é importante conseguir essas emoções realmente verdadeiras. Quando ele assiste às gravações da esposa, por exemplo, apresenta emoções reais. No começo, quando ele está no porão, ouvindo música e olhando para a fotografia da esposa, também são emoções reais. É isso que torna o processo de fazer cinema tão interessante para nós: conseguir emoções verdadeiras.
Por isso, nunca ensaiamos. Outra coisa muito importante no nosso método é o fato de sermos uma equipe realmente pequena. Então, Tizza faz o som. Eu cuido da câmera e, para este filme, tivemos um assistente que me ajudou com a câmera e a iluminação. Criamos uma atmosfera bem familiar, para que nossos protagonistas, que são atores não profissionais, pudessem se sentir confortáveis e, de certa forma, em casa. Nós filmamos na casa verdadeira do Al. Todos os objetos são dele. Portanto, ele consegue realmente sentir essas emoções, sem precisar fingir nada.

Apesar da equipe reduzida, existe um controle estético impressionante. Os planos fixos, mais longos, a iluminação…
Rainer Frimmel: Isso era fundamental para nós: explorar diferentes recursos enquanto cineastas. Em cada filme que fazemos, temos protagonistas diferentes, e eles merecem abordagens diferentes. No caso de Al, foi um processo muito, muito lento. Ele é um homem idoso; não podíamos nos apressar. Ficávamos preparando os planos durante horas. Depois filmávamos talvez um ou dois planos por dia.
É por isso que trabalhamos com a câmera no tripé e os planos mais longos, porque, para nós, essa era a linguagem necessária para esta história, e para o blues. Então, decidimos seguir essa estética. Além disso, filmamos em 16 mm. Isso exige mais preparação, e mais tempo, por causa das limitações da película. Temos apenas dez minutos por rolo, em geral.

Eu também aprecio muito o humor do filme. É uma comicidade carinhosa, que nunca ri da cara do protagonista.
Rainer Frimmel: Para nós, é fundamental não zombar dos nossos protagonistas, porque eles nos dão tanto de suas vidas, de seus sentimentos, de suas emoções, que seria uma traição fazer chacota com eles. Existem limites muito delicados que não podemos ultrapassar.
Além disso, esse tipo de humor também vem do próprio personagem. Nós somos frequentemente pegos de surpresa pelas reações deles ou pelas coisas que dizem, porque os diálogos são improvisados. Por exemplo, quando as duas pessoas retiram os móveis do apartamento, não sabíamos o que elas diriam. Esse tipo de humor, esse sarcasmo, surpreende até a nós mesmos. E o restante, obviamente, depende de como você monta o filme, para criar essa sensação de comicidade. O humor é sempre muito importante para nós, porque, sem humor, a vida seria triste demais.

A música é central neste projeto, que quase poderia ser considerado um musical. Como escolheu as canções que Al toca e escuta?
Rainer Frimmel: Olha, eu não sei exatamente qual é a definição de um musical. Sempre penso nessas histórias com pessoas que se levantam, saem cantando e dançando — coisas assim. Obviamente, não fazemos isso. Mas é um filme sobre música, sem dúvida, e sobre o blues. É sobre como o Al assume o blues enquanto modo de vida, porque dedicou toda a sua jornada pessoal à música. Por isso, era muito importante para nós escolher a música junto com ele.
O Al nos deu muitas sugestões, e preparou uma grande lista com seus músicos favoritos e suas canções preferidas. Assim, pudemos escolher as músicas certas para este filme. No começo, tem aquela canção triste do Lonnie Johnson, quando ele está de luto pela esposa. Depois, no final, Robert Johnson, e outros músicos fantásticos. Aprendemos muito sobre o blues durante esse processo, e descobri que é uma música divertida, agridoce, às vezes triste, às vezes muito engraçada, que influenciou tanto o rock quanto a música pop. Fico realmente muito feliz por ter tido essas aulas com Al Cook.
Sobre as canções que ele toca, a principal delas é The Loneliest Man in Town, que dá origem ao título. Foi o primeiro grande sucesso dele, e o maior sucesso daquela época. A outra, que ele grava no meio da história, foi composta especialmente para o filme.

Toda a narrativa se articula entre ficar e partir — seja no apartamento, seja em Viena. Como percebem este movimento, em relação ao Al?
Rainer Frimmel: Primeiro, este é um filme sobre resistência. Até que ponto você está disposto a resistir às forças que o obrigam, ou que tentam obrigá-lo, a fazer algo que você não está disposto a fazer? Mas quando ele percebe que não tem nenhuma chance, decide partir. Mesmo assim, isso abre uma nova oportunidade. Talvez esta seja a possibilidade de transformar um sonho em realidade. É o sonho de deixar essa Áustria provinciana e se mudar para o Delta do Mississippi, para tocar blues lá.
Mas, no final, a questão é: vale a pena? Será que o seu sonho é realmente aquilo que imaginou? Existe uma frase de um escritor austríaco, Egon Friedell, que disse: “Não há nada pior do que os sonhos se tornarem realidade”. Talvez, para Al, se ele fosse hoje para os Estados Unidos, não seria aquilo que ele tem em mente. Todos aqueles cantores consagrados do blues desapareceram, e a América mudou.

Acredita que, de certa forma, o filme preserva uma visão do sonho americano?
Rainer Frimmel: Bom, o sonho dele continua presente, porque é um projeto absolutamente ligado à música. Esse sonho continua vivo. Mas a realidade talvez fosse uma grande desilusão, porque emigrar para os Estados Unidos hoje é algo muito diferente de muitos anos atrás, ou mesmo no começo do século, quando tantas pessoas eram recebidas de braços abertos.
Então, para Al, esse sonho ainda sobrevive, numa esfera unicamente relacionada à música. Não é sobre o país em si. É sobre aquela região, o Delta do Mississippi. Esses são os Estados Unidos que ele tem em mente: o berço do blues. Mas no final, Al nunca esteve nos Estados Unidos.

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.