Na Passagem do Trópico (2025)

O homem das encostas

título original (ano)
Na Passagem do Trópico (2025)
país
Brasil
linguagem
Drama, Ficção
duração
88 minutos
direção
Francisco Miguez
elenco
Marat Descartes, João Filho
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

Não há um conflito propriamente dito em Na Passagem do Trópico. Nosso protagonista (Marat Descartes), um topógrafo de nome desconhecido, é encarregado de mapear as encostas de Ubatuba, e assim o faz. Certo, há obstáculos no caminho, mas todos são rapidamente superados: o assistente nunca chega, então o herói trabalha sozinho. O equipamento moderno está quebrado, porém, existe outro, mais antigo, disponível ao serviço. Mediante a dedicação de algumas horas por dia, o profissional apresenta seus dados, mapas e escalas aos servidores públicos da região. O homem não diverge de patrões, não atravessa problemas pessoais, não enfrenta dificuldades para concluir a tarefa.

O espectador logo percebe que a incursão deste personagem fictício constitui mera desculpa para o longa-metragem se confrontar a temas bastante reais. O diretor Francisco Miguez utiliza o interessante procedimento de figuras roteirizadas encontrando habitantes verdadeiros, que lhe falam a respeito dos problemas na região: os constantes deslizamentos de terra, as habitações em zona irregular, as ocupações, a mineração em área de proteção indígena. Ficção e documentário se unem na tarefa de expor, através de um procedimento lúdico, a complexidade geopolítica da cidade. Em paralelo, valorizam o trabalho dos topógrafos, apresentados enquanto figuras essenciais para qualquer política pública, apesar de precarizados.

Miguez retira do documentário seu caráter explicativo e sisudo, assim como desveste a ficção do senso de intencionalidade (a noção de encaminhar um personagem para um fim específico).

Ao ator principal, cabe a tarefa da escuta atenta, jogando cenicamente com os moradores à sua frente. Trata-se de um gesto de disponibilidade e atenção: em cada encontro com comunidades originárias ou habitantes de baixa renda, estes últimos constituem o foco das interações, ao invés do protagonista. Em diversos momentos, Descartes aparenta nem estar, de fato, face às pessoas entrevistadas. O procedimento desperta a impressão de ter filmado as entrevistas, nos moldes de um documentário tradicional, e então incluído o ator em contraplano, meramente assentindo às falas. Aqui, a ficção é utilizada enquanto mediador do real, como se o pressuposto do topógrafo servisse de palco para que sujeitos invisibilizados pudessem, enfim, ser escutados.

Por este motivo, conhecemos pouquíssimo acerca do profissional que comanda a trama. Ele nunca volta para um hotel no final do dia (nós o vemos acordando dentro do seu carro), nem se confronta a qualquer obrigação de ordem pessoal, durante o cumprimento de suas funções. Caso tenha amores, filhos, animais domésticos, atividades paralelas, gostos particulares, objetivos na profissão ou fora dela, não saberemos. O roteiro nunca o humaniza, nem o considera dotado de uma subjetividade particular. Fora do âmbito do trabalho, ele nem sequer existe — o que reforça a importância quase sepulcral de sua profissão. Mesmo a pretensa prima em Ubatuba aparece, convenientemente, para solicitar a medição de seu próprio terreno.

Trata-se de interações bastante improváveis — caso dos indígenas que confundem o sujeito, em seu carro modesto, com um perigoso minerador. A situação dificilmente se produziria desta forma. No entanto, serve ao cineasta para discutir aquilo que lhe interessa de verdade: a exploração de terras protegidas, a violação de direitos destas comunidades. O roteiro toma atalhos lúdicos para proporcionar as conversas necessárias à exposição de seus temas de predileção. Assim, o resultado se fortalece nas interações não-roteirizadas com habitantes da região, entretanto, se enfraquece devido aos motivos artificiais que servem para colocar o herói em movimento. Em outras palavras, certo incômodo decorre de uma ficção onde o caráter fictício é colocado em segundo lugar, tratado como menos importante, e exigindo menor investimento em termos de verossimilhança.

Já as liberdades poéticas do documentário proporcionam os melhores momentos do projeto. Na Passagem do Trópico impressiona pela disposição a projetar, na lente do teodolito, imagens do passado. Ao invés de meramente incluir, via montagem, fragmentos de material de arquivo, o filme permite que sejam revelados ao protagonista enquanto efetua suas medições. Cada vez que tenta mapear o presente, visando o planejamento futuro, encontra, ironicamente, sinais do passado. Afinal, o futuro é ancestral. A ideia que uma lente nos revele outra maneira de enxergar o mundo, e proporcione um ponto de vista inexistente a olho nu, remete à capacidade reveladora do próprio cinema em relação àquilo que o cerca. 

Logo, há certa semelhança entre o topógrafo e um diretor de cinema, no sentido de se apropriarem do real para criarem as formas necessárias para intervirem na sociedade. Assim, pode-se pensar no personagem central enquanto alter-ego de Miguez, ator de formação, que curiosamente escala um grande ator, bastante técnico e experiente, para este papel de entrega ao tempo e espaço, no qual jamais precisa efetuar uma composição clássica. É curiosa a disposição do cineasta em enveredar por um cinema de procedimentos, sem medo de detalhar etapas técnicas de um conhecimento bastante específico. O artista enxerga beleza num cientificismo de aparência analógica, bruta, dificilmente associado à abordagem tão lírica.

Talvez a beleza resida justamente nisso: um diretor-ator que privilegia uma atuação desafetada; um cinema da materialidade em busca de poesias; um documentário político disfarçado de meras conversas casuais a respeito do estado das coisas. Miguez retira do documentário seu caráter explicativo e sisudo, assim como desveste a ficção do senso de intencionalidade (a noção de encaminhar um personagem para um fim específico). Poderíamos seguir o topógrafo por mais ou menos dias, sem alteração real na experiência. Entre um jingle semicômico a respeito das maravilhas de Ubatuba, e um jazz sussurrante ao final, o cineasta brinca de convergir presente, passado e futuro, admirando a terra enquanto elemento concreto, político e poético.

Na Passagem do Trópico (2025)
6
Nota 6/10

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