Em 23 de julho, chega aos cinemas a ficção científica Futuro Futuro, de Davi Pretto. Neste filme, grande vencedor do Festival de Brasília 2025, o solitário K (Zé Maria Pescador) se encontra em um mundo afetado por uma epidemia que apaga as memórias dos cidadãos.
Sem saber quem ele é, junta-se a uma comunidade onde um estranho dispositivo oferece imagens para completarem a lacuna de lembranças. Mas como saber o que é real e o que é falso? Como lutar contra isso? De que maneira viveriam os ricos, nos arranha-céus do outro lado da cidade?
O filme desenvolve seu mistério enquanto reflete sobre nosso tempo de fake news, redes sociais e Inteligência Artificial. Além disso, o cineasta efetua uma conexão direta com as enchentes no Rio Grande do Sul, e alude a pandemias recentes — caso da Covid-19.
O elenco é completado por João Carlos Castanha, Carlota Joaquina, Clara Choveaux, Higor Campagnaro e Olivia Torres. Em entrevista ao Meio Amargo, Pretto discute a criação deste projeto fascinante:

O filme é uma distopia situada em eventos muito específicos da história brasileira recente — as enchentes no Rio Grande do Sul, o isolamento por Covid. Por que relacionar esta fantasia a temas tão precisos?
David Pretto: O primeiro desejo do filme era enxergar as distopias que já estão aqui. A gente tende a separar o futuro do presente, e imaginar que certas hipóteses estão descoladas da nossa realidade. A gente pensa nelas como algo concreto que chegaria em dado momento, mas as distopias normalmente chegam a conta-gotas, e a gente nem percebe.
Também me interessava pensar a ficção científica não para fazer uma profecia do futuro, mas para refletir sobre o presente. Então, o desejo do filme era investigar as distopias que já estão, mas a gente não percebe, ou não reage a elas. A distopia tecnológica, do controle das imagens, está muito presente no filme. Como a gente lida com as imagens, e o papel delas na nossa vida hoje em dia? Que imagens são essas? Como isso muda o nosso desejo, a nossa agência no mundo? O filme explora um pouco isso.
O desejo do filme era investigar as distopias que já estão aqui. A distopia tecnológica, do controle das imagens, está muito presente no filme.
Além disso, você literalmente menciona as enchentes no filme.
David Pretto: Foi uma coisa que nos atravessou, porque a enchente ocorreu durante a filmagem. Já tinha acontecido uma enchente enquanto eu terminava o roteiro, em setembro de 2023. A gente estava em preparação, procurando locações, quando aconteceu uma grande enchente em Porto Alegre. Aquilo obviamente nos afetou muito, e impactou o filme, que já estava pensando a crise climática. Então, obviamente a enchente já tinha entrado na história.
Já existia, por exemplo, a menção de que, em dado momento, o colégio do curso ia ser ocupado por pessoas que perderam tudo na enchente. Aquela foi a primeira diária que a gente filmou, inclusive. Choveu por três semanas durante o filme. No antepenúltimo dia, a enchente foi declarada em Porto Alegre. O lugar que a gente estava filmando foi evacuado pela prefeitura, e a gente parou de filmar por três meses.
Por isso, chove o tempo todo no filme, porque estava chovendo de verdade, e a gente dialoga com essa chuva. A gente também dialoga de alguma forma com esse trauma coletivo que foi a enchente. O que significou esta tragédia? Não no sentido de buscar imagens e provar que ela existiu. A gente sabe que ela existiu, porque ela está no nosso corpo, e a gente sente isso como um trauma coletivo. O que a gente tenta fazer no filme é expressar a sensação disso. É a sensação de viver num lugar onde uma catástrofe se torna parte da normalidade.

A propósito de sensações catastróficas, tenho a impressão de que Futuro Futuro é o primeiro grande filme brasileiro a usar Inteligência Artificial de maneira ostensiva e crítica.
Davi Pretto: A questão da IA no cinema é relativamente nova, mas o debate sobre a IA em outras áreas é antigo. Ele já existe há décadas. A área da computação, por exemplo, discute e explora a IA há décadas. E as pessoas têm que investigar a IA para entender o que ela faz. Esse tabu de simplesmente não usar a IA, achando que isso vai resolver alguma coisa, é igual a acreditar que se tu recolher o teu pedacinho de papel de bombom da praia, vai impedir a poluição, enquanto existe Chernobyl do lado da praia. Se tiverem cinco empresas despejando toneladas de lixo nessa mesma praia, todos os dias, o fato de tu juntar ou não o teu papel vai fazer pouca diferença.
A IA se inseriu na nossa vida, já é automático. A gente abre um aplicativo, já tem um um mecanismo de IA ali, sugerindo uma automação de texto, um resumo. A pesquisa do Google já é diferenciada. Nesse momento, para debater a IA, a gente precisa investigar ela criticamente, e revelar o que existe por trás dela. Essa é a grande questão: o que existe atrás da IA não é simplesmente uma tecnologia, mas uma ideologia. Quais ideologias são essas? A quem serve a IA? A gente tem que se perguntar, e debater.
O que existe atrás da IA não é simplesmente uma tecnologia, mas uma ideologia. Quais ideologias são essas? A quem serve a IA?
A respeito desta crise das imagens, seus personagens são amnésicos, mas uma máquina oferece flashes de estímulos aleatórios. Isso me lembrou bastante o sentimento de navegar pelas redes sociais.
Davi Pretto: Tenho a sensação de que as imagens hoje ganharam um novo sentido no mundo. Antigamente, elas tinham, de alguma forma, uma relação com a realidade. Eram uma representação da realidade. Mas hoje, principalmente nesse momento de IA, com imagens computadorizadas, não existe mais, necessariamente, uma representação de mundo, e sim uma alteração de mundo.
Isso é uma coisa muito disruptiva no momento que as imagens servem para conduzir, inclusive, o que a gente acredita ser real. A gente vive num mundo que acreditou, por muito tempo, que a realidade e os fatos eram mediados pelas imagens. A gente conseguia distinguir do que não era real. Mas hoje é o oposto: precisamos entender o que é real. A quantidade de informações e imagens falsas é alucinante.
No fim das contas, quando tu fala das redes sociais, precisamos nos perguntar por que a gente passa horas olhando o TikTok, vendo pessoas comendo macarrão ou fazendo dancinhas. Estas imagens não têm muito sentido, mas, de alguma forma, instigam algum lugar do nosso inconsciente, que fazem a gente querer olhar aquilo. Então são imagens neurológicas, por assim dizer. São imagens que ativam algo em nós.
Por isso, existe uma disrupção aí. O filme busca pensar esse papel das novas imagens, que criam novas realidades, e como a gente lida com isso. A grande provocação que o filme faz, no fim das contas, diz respeito à ilusão de que temos alguma regência na nossa vida. A gente ainda tem algum poder de decisão? Será que essa ilusão, na verdade, não nos levou para uma tragédia individual e coletiva? Talvez, olhar para essa passividade e irrelevância total seja uma das grandes coisas que a gente precisa fazer.

Justamente, uma das coisas mais assustadoras do seu filme é a passividade geral. Não tem muito contra o quê lutar, ou contra quem. Não existe heroísmo.
Davi Pretto: A provocação está um pouco aí. Porque ninguém acha que é alienado. A gente pensa que tem poder de decisão. Nós postamos coisas nas redes sociais, e isso gera comoção. Mas a metáfora, segundo o Zizek, é como o torcedor que assiste a um jogo de futebol pela TV, e grita com a tela, achando que está influenciando de alguma forma aquele jogo. Mas ele não surte efeito nenhum. É pura ilusão, enquanto 22 milionários do futebol batem bola.
Essa é uma provocação muito boa perante a política do mundo, e o destino do mundo. Agora há pouco, eu estava no aeroporto, prestando atenção em quantas telas existiam ali, e qual conteúdo era exibido. Mas eu não tenho poder de decisão sobre nada disso. Absolutamente nada. E muito da nossa fala é formatada pelos algoritmos, por comportamentos que são inseridos na nossa cabeça. Então, essa é uma provocação importante que o filme faz. É uma provocação existencial. A gente tem que olhar para isso— talvez seja um exercício de humildade, para ver o que podemos fazer.
O Siddharta Ribeiro termina o livro O Oráculo da Noite falando que a nossa espécie sobreviveu ao tempo encontrando soluções para grandes problemas — predatórios, climáticos, de comidas, de organização social, de linguagem. Agora a gente tem que pensar nesse problema, da nossa passividade e da nossa irrelevância, porque nós não somos os oito bilionários que controlam a comunicação mundial. Essas pessoas pertencem a outra espécie.
Eu acho que a gente vive uma tirania da certeza. A gente precisa urgentemente da ambiguidade, da dúvida.
O filme tem uma série de símbolos um tanto misteriosos, que não necessariamente oferecem uma chave única de leitura. Penso no polvo, na piscina vermelha com os corpos… Como desenvolveu estas simbologias?
Davi Pretto: Eu acho que a gente vive uma tirania da certeza, e a gente precisa urgentemente criar cuidado perante a isso. A gente precisa urgentemente da ambiguidade, da dúvida. Neste momento, é comum tomar partido das coisas sem exatamente entender o que elas são, mas baseado no que elas parecem ser. Existe um termo para isso, é o look and feel. Então esse look and feel de cada coisa já nos transmite a posição que vamos tomar — se a gente é partidário, ou se opõe àquilo. Isso porque a gente não tem tempo de assimilar tudo o que está acontecendo no planeta. A gente não tem tempo para todas as informações, todas as opiniões. Isso vira a tirania da certeza, porque não existe mais tempo para a dúvida.
Então a dúvida, a ambiguidade, a disrupção, o estranho, é o que mais precisamos nesse momento, inclusive para despertarem novas perguntas e, em consequência, novas reflexões. Quanto mais eu penso sobre os temas que atravessam o filme, mais eu vejo que as respostas não são fáceis, mesmo aquela da Inteligência Artificial. A Inteligência Artificial veio para ficar, entendeu? Vai chegar o momento em que isso já foi tão assimilado que, quem não usar, talvez fique para trás numa questão de competitividade. Uma empresa que não usa IA não vai conseguir participar da concorrência porque não vai ter um produto de utilidade, tão rápido e barato. Estou falando de grandes empresas, mas isso vale para uma empresa de jornalismo, ou de publicidade.
Se você olha a Copa do Mundo, metade das propagandas era feita com IA. Veja a propaganda do Vampeta. Em termos de competição, a gente fica para trás se não usar. Então as perguntas e as respostas não são fáceis. Por isso, a gente precisa da ambiguidade, da contradição, para discutir sem respostas superficiais.

Ao mesmo tempo, algumas referências me parecem mais precisas. O personagem K nos remete de imediato ao universo de Kakfa.
Davi Pretto: São pequenas faíscas, que cabe a cada pessoa investigar. Quem conhece a obra do Kafka obviamente faz ligações a partir da obra dele. Por exemplo, quando a gente estreou na República Tcheca, no Festival de Karlovy Vary, a gente estava na terra do Kafka. Para aquele público, esta era a grande chave de leitura. No Rio Grande Sul, obviamente a leitura principal passava pelas enchentes.
O filme propõe signos — mesmo o oráculo remete a algumas coisas do Cronenberg, quando pensamos em Videodrome. Essas referências estão presentes porque as conversas não se encerram no próprio filme. Existe algo maior do que o filme, e a discussão abrange várias coisas. Por exemplo, a doença do filme se chama Neurodeflação Súbita. Esta é uma doença que a gente inventou, mas isso vem de Psicodeflação, um termo cunhado pelo pensador italiano Franco “Bifo” Berardi, para cunhar a ideia de que a gente sucumbe perante todos esses estímulos diários. Algumas pessoas pescam isso, e fazem paralelos. Isso já aconteceu em debates. Eu gosto que o filme, de alguma forma, aponte para outros pensamentos e ideias circulando ao redor, mas que fizeram parte da feitura do filme também.
Quem conhece a obra do Kafka obviamente faz ligações a partir da obra dele. […] Mesmo o oráculo remete a algumas coisas do Cronenberg, quando pensamos em Videodrome.
Como trabalhou estas temáticas com o elenco? Tenho impressão de que seus personagens são figuras ordinárias em um mundo extraordinário.
Davi Pretto: Eu deixei isso muito aberto desde o começo, então, cada um trouxe sua experiência de vida perante os temas que acontecem no filme. O Zé Maria, por exemplo, mora na praia de Baía Formosa, e ele vê os impactos do aquecimento global e e da destruição da natureza diariamente. Ele sabe disso e trouxe essa experiência para o filme, em termos de sentimento, de angústia, de ansiedade climática. A Carlota Joaquina tem uma vida política muito atuante em São Paulo. Ela trouxe as frustrações pessoais de participar da vida política como uma militante de esquerda — uma esquerda ainda mais à esquerda — e isso moldou a Joana, que também é, de certa forma, uma líder comunitária.
Cada pessoa trouxe a sua vivência, num espaço de troca. Gosto muito das rodas de conversa antes de ensaiar. Prefiro inclusive essas conversas ao próprio ensaio, para pensar como traduzir esses sentimentos em presença corporal. Assim descobrimos como eles agem, como caminham, como falam no filme.
Eu fico muito feliz por todo o elenco porque, principalmente no cinema brasileiro, viver de atuação muitas vezes significa ter uma vida dupla. Eles também são professores de rede pública, são assistentes sociais, trabalham em colégio. Então, eles vivem uma realidade que está totalmente relacionada com o filme, e que obviamente vai transparecer na atuação.

Para concluir, queria discutir Futuro Futuro na sua filmografia. Em Continente, você usava o terror para comentar o real. Agora, faz isso com a distopia e a ficção científica. Que papel o cinema de gênero tem ocupado na sua abordagem?
Davi Pretto: Bom, eu não venho de uma família das artes. Minha mãe trabalhava como caixa de banco, e o meu pai, na construção civil. Então, eu me criei com os filmes da TV. Eram os filmes de ação do Denzel Washington, os filmes de Kung Fu, os filmes do Jet Li. Obviamente, esse cinema de gênero fez parte do meu DNA. Depois eu descobri Cronenberg, quando já estava na faculdade. Eu gosto muito do cinema de gênero pela possibilidade de traduzir coisas que o real já não consegue traduzir. A gente vive imerso em uma situação que o real já não dá mais conta de representar.
O cinema de gênero sempre me interessou, desde o Castanha, que é um filme de fantasmas. Ele abre com uma cena de gênero, com o Castanha ensanguentado, caminhando na rua. O Rifle mergulha no faroeste. Estes são cinemas e gêneros que me marcaram muito, e que, de alguma forma, fazem parte de quem eu sou hoje em dia. Essa é a própria essência do gênero, pensado como ferramenta para traduzir a nossa existência, política e socialmente. Nunca é apenas o gênero pelo gênero.



