
Dizem as teorias de cinema que, para um filme ser analisado dentro do gênero do terror, não bastam a presença de uma ameaça, a intromissão de um monstro, ou a discussão sobre a morte. É necessário introduzir uma estética do horror, ou seja, uma maneira específica de filmar, iluminar e criar espaços pensados para personagens e acontecimentos antinaturais. Qualquer sensação de incômodo, temor ou repulsa precisa se transmitir na própria textura da imagem. Por isso, seria impertinente, ou conceitualmente falho, filmar uma trama fantástica da mesma maneira que se captaria um drama. Monstros exigem uma imagem monstruosa.
Essa ideia vem à mente diante de um filme como Segredo Obscuro (Shell, no original). O diretor Max Minghella mergulha nos códigos do body horror, ou seja, o subgênero destinado às modificações corporais, visando testar os limites da pressão social pela beleza. Quando Samantha (Elizabeth Moss), uma atriz decadente, sucumbe às imposições de procedimentos estéticos invasivos, aceita tomar uma droga extraída de crustáceos, divulgada pela empresária Zoe (Kate Hudson). Os resultados são imediatos. Mas até onde ela estaria disposta a ir para se manter bela? Que efeitos esta busca obsessiva pela juventude poderia surtir?
Incontáveis críticas e vídeos a respeito deste projeto o comparam ao marco A Substância, filme que não apenas atualizou o body horror popularizado por Cronenberg, como introduziu um ponto de vista feminino a partir de um rigor estético e uma imaginação alucinantes. Titane também veio à mente — as modificações no corpo das mulheres têm soado como a proposta ideal para refletir os desafios da autonomia feminina. De fato, alguns códigos do filme de Coralie Fargeat estão presentes: a presença de um líquido estranho que promove beleza e juventude, a associação do procedimento a algo ilegal e inseguro, a concessão da própria saúde em nome da aparência. Em comum, Samantha e Elisabeth (Demi Moore) são figuras públicas, com mais de 40 anos, e consideradas ultrapassadas pelos padrões da mídia. Tentam, portanto, se ajustar às demandas do mercado, de maneira acelerada e perigosa.
Talvez aí se encontre um problema essencial de Segredo Obscuro: o descaso com a desumanização das personagens que supostamente defende.
Ora, nestes projetos, é comum que, quanto maior o ganho estético, maiores os efeitos colaterais da droga (o que também valia para Insaciável, de 2026). No caso de Shell, algumas verrugas surgem na pele rejuvenescida das clientes. Depois, estas cascas pretas se multiplicam. Está instaurada a monstruosidade — as beldades se tornam progressivamente grotescas. O projeto funciona, então, nos moldes da fábula de precaução (cautionary tale), alertando a respeito dos danos físicos e psicológicos provocados por tais procedimentos. Por trás de uma defesa do direito de agir sobre o próprio corpo, há uma tentativa de compensar, via medicamentos e técnicas experimentais, a baixa autoestima e o machismo estrutural.
Apesar da premissa de forte potencial, Segredo Obscuro sofre com diversos problemas. Em especial, a carência de uma estética do horror, citada na introdução deste texto. Minghella filma espaços, modificações corporais e estranhamentos plásticos sem nenhuma proposta criativa propriamente dita. O intenso clímax, promovendo o encontro entre os protagonistas e uma criatura, ocorre num galpão vazio, escuro e cinzento. A revelação do monstro soa anticlimática — talvez a escuridão vise ocultar a qualidade modesta dos efeitos visuais. Elementos visando a perturbação dos sentidos (um jantar elaborado com pele humana) são filmados sem nenhuma ojeriza. Pior ainda seria a sugestão de que as mulheres se empoderarão mediante uso de um consolo gigante, emprestado na festa alheia. O grave dilema social se confunde com falta de sexo.
Nem mesmo o futurismo do longa-metragem é explorado a contento pela direção, pela fotografia ou pelo departamento de arte. Robôs caseiros, relógios super avançados e outros equipamentos sugerem um futuro próximo, ainda que os gadgets nunca surtam efeito determinante na trama. O aspecto parcialmente famoso, parcialmente secreto da empresa Shell tampouco convence: afinal, trata-se de um procedimento ultra escondido e clandestino, ou conhecido e tolerado? Se várias mulheres famosas recorrem a tais intervenções, como se conseguiu esconder os efeitos danosos até agora?
Ainda mais questionável é o tratamento dos processos, ou seja, da evolução entre os primeiros indícios de que existe algo errado, e sua materialização num espetáculo do horror. Durante a gravação de uma série de TV, Sam se sente mal. Segundos depois, vomita litros de uma gosma preta nos colegas de set. Imediatamente após o uso dos produtos Shell, a atriz se torna belíssima (basicamente, maquiada e com roupas caras), além de rica, famosa, desejada por homens musculosos. Quando aparecem os primeiros efeitos colaterais, este combo de maravilhas desaparece. Mediante uma técnica corretiva emergencial, volta-se ao padrão publicitário. Minghella não consegue filmar a dúvida, a sugestão, a impressão de que algo dará errado, nem a evolução progressiva do caos. Ele pula do micro indício ao exagero dos efeitos; ou da humanidade à completa perda da mesma.


Mesmo as simples interações destinadas ao suspense sofrem com más escolhas de direção. Com a perna ferida, Samantha consegue fugir de policiais e capangas qualificados, que a perdem a poucos metros de distância — uma, duas, três vezes. A amizade profunda entre a empresária poderosa e a atriz desesperada resulta igualmente fortuita: a partir desta intimidade, a CEO nem mesmo precisa ir à empresa e cuidar dos negócios. Uma vez que se investe nas consequências corporais do produto, a montagem elíptica (ou seja, com vários saltos temporais) negligencia todos efeitos psicológicos nestas mulheres, a exemplo da culpa, do medo, da insegurança. Elas se resumem a meros corpos. O principal sintoma disso reside na transformação brutal de uma personagem coadjuvante, com a qual o filme jamais se importa de fato.
Talvez aí se encontre um problema essencial de Segredo Obscuro: o descaso com a desumanização das personagens que supostamente defende. Em paralelo, ele se deleita com a ideia de mulheres competindo umas com as outras, passando a perna nas concorrentes por inveja e ciúme. Grandes filmes recentes — caso de A Substância — evitavam precisamente estas armadilhas, deixando claro que a degradação do corpo feminino correspondia a uma opressão masculina, convertendo-se num esgotamento psíquico das heroínas. Ao final, a mensagem extraída por Minghella e sua equipe se prova ingênua demais (tudo bem buscar a beleza, mas não exagere), e simplifica-se demais por meio do mecanismo desgastado do livro de autoajuda publicado na conclusão. Os criadores partem de uma premissa provocadora, mas nunca sabem ao certo como desenvolvê-la esteticamente, nem narrativamente.




