
“A terra fala, mas vocês não escutam!”. Esta fala é proferida ao longo da narrativa por uma liderança indígena, ao público presumido branco. Nos palcos do Olhar de Cinema, quando o documentário foi apresentado pela primeira vez, o cineasta yanomami Morzaniel Iramari reforçou a necessidade de alertar o espectador a respeito dos crimes cometidos em terras indígenas: a mineração ilegal, as invasões em terras demarcadas, as ameaças de fazendeiros.
Por isso, as diretoras Mariana Machado e Ana Maria Machado efetuam uma obra de assumida vocação utilitarista: ela seria importante para denunciar, avisar, alertar ao maior número de pessoas possível. A quem interessar possa, os povos originários sofrem repetidos ataques por parte de empresários e dos deputados e senadores que os representam. Pode-se argumentar que um ativismo tão clássico e explícito, de vocação educadora, dificilmente atingiria um espectador sem conhecimento mínimo sobre temas retratados, ou disposição prévia para escutar a respeito. Em outras palavras, é possível que tal esforço apenas pregue aos convertidos.
Mesmo assim, acredita-se, com razão, na importância de escutar as palavras do pensador Davi Kopenawa. O xamã discorre tanto a respeito de problemas imediatos, de ordem da política institucional, quanto da necessidade de sonhar, em sentidos figurado e literal. Ao conversar com interlocutores via rádio, escuta, sem real surpresa, que seus amigos sofreram novas ameaças de ocupação. “Já era para eu estar morto!”, alerta a voz do outro lado da linha. A normalização de atos bárbaros, que incomodam sem surpreender, transparece a ameaça crônica de violação de direitos. Não por acaso, os letreiros iniciais listam sucessivas invasões às comunidades indígenas, em 1975, 1992 e 2023.
Por um lado, as diretoras aparentam decorrer de ampla pesquisa e convivência com seus personagens. Por outro, apresentam um fragmento limitado de temas tão complexos.
Logo, as denúncias verbais surtem um efeito conhecido — mesmo cômodo, diria-se. Quando simplesmente se verbalizam os crimes, abusos e negligências, as frases correm o risco de ecoar no vazio — a mera listagem de contravenções não basta mais para sensibilizar, nem mobilizar o espectador. É preciso significar tais violências, representando-as através dos mecanismos únicos da arte. Para um filme tão defensor dos sonhos, falta precisamente o onirismo para equilibrar a construção de um realismo pragmático, direto e funcional. A própria narração descritiva em off se converteu num recurso tão desgastado que tende a anestesiar os sentidos, ao invés de despertá-los. Não basta mais falar de um problema; é preciso construir seu significado via imagem e som.
Mariana Machado e Ana Maria Machado optam por não mostrar a parte adversa. Diversos projetos acreditam, legitimamente, que não se deva oferecer palco às falas do ex-presidente negacionista, aos deputados pró-garimpo, nem os empresários que defendem a tomada de terras em nome de um ilusório “progresso”. Por isso, testemunhamos as terras devastadas, mas jamais os agentes de tamanha devastação. Isso porque o discurso visa a apresentação didática do contexto, jamais a sensibilização epidérmica, da ordem da raiva ou da surpresa. Maxita preserva um teor plácido, mais distanciado do que colérico. Aqui, o alerta das vozes se combina com uma espécie de lamentação face ao real. Em termos de sentidos, constata-se mais do que se elabora.
Os melhores instantes do documentário provêm da exposição silenciosa do enriquecimento através da mineração. A câmera desliza pelas ruas das cidades próximas, revelando uma infinidade de comércios de joias e pedras preciosas, um do lado do outro. Em seguida, presenciamos estátuas em homenagem a garimpeiros, além de placas em sua honra. Fragmentos como estes, reforçando a imagem positiva do invasor, transmitem muito mais ao espectador do que um mero diálogo sobre sua existência o faria. As contradições políticas estão incrustadas nas pedras, marcadas nas ruas, enquanto símbolos de ostentação deste nosso “povo da mercadoria”, nas palavras de Kopenawa.
Em paralelo, o encontro com Ailton Krenak também promove belas interações, posto que ambos os pensadores investem em recursos muito distintos de fala e de ação. É uma pena que estes fragmentos sejam tão curtos, interrompidos antes de se atingir uma intimidade de fato entre os dois homens. Algo semelhante ocorre com as descrições de conceitos fundamentais aos indígenas: a própria Maxita, indicando a terra que nos permite viver; Mari-Hi, a árvore que nos ensina a sonhar; os espíritos Xapiri, que protegem a floresta; a Yãkoana, líquido ingerido para a realização de práticas ritualísticas. Todos são mencionados brevemente, sem o tempo necessário para surtirem efeito determinante na trama. Passa-se com uma velocidade incompreensível de um elemento ao seguinte.


Talvez o montador Affonso Uchôa dispusesse de poucos materiais, mesmo após diversos anos de pesquisa e captação por parte das autoras? Ou seria uma escolha deliberada pela abordagem sucinta, direta, mais informativa do que contemplativa? De qualquer forma, o rigor na edição está presente, sendo comprovado pelo excelente corte final, que interrompe abruptamente uma fala que também evoca rupturas. Em suma, este seria um fator de relativa confusão no que diz respeito à abordagem das autoras: por um lado, aparentam decorrer de ampla pesquisa e convivência com seus personagens. Por outro, apresentam ao espectador um fragmento muito restrito, veloz e limitado de temas tão complexos. Líderes inteligentíssimos são representados por narrações e conversas relevantes, porém, aquém do que sabemos que podem oferecer.
Resta um ativismo clássico, como se costumava esperar do cinema político de décadas atrás. Nota-se uma comunicação tão vasta quando generalizada, pensando o cinema sobretudo enquanto plataforma de disseminação de ideias. Ainda que as teses sejam defensáveis e bastante válidas no Brasil contemporâneo (ainda mais em ano eleitoral), nenhuma imagem ou captação sonora surpreende ou impressiona por sua elaboração. Sim, é preciso repetir o óbvio, e lembrar as pessoas a respeito de crimes aos quais prestem pouca atenção, ou talvez já tenha esquecido. Afinal, encontramo-nos em tempo de baixa capacidade de indignação. Mesmo assim, cabe questionar os meios para tal finalidade. A crise política dos povos yanomami segue em estado de alerta, porém, a estética audiovisual se transformou sensivelmente desde o início deste problema. Num projeto desta natureza, seria importante encontrar tanta paixão pela luta indígena quanto pelo próprio cinema.




