
Durante a integralidade deste longa-metragem, Clay (André Holland) se sente acuado. Ele está desconfortável na presença da esposa Kaya (Zazie Beetz), que o traiu num passado recente e, desde então, clama por perdão. O herói sente que o terapeuta de casal, Dr. Amiri (Stephen McKinley Henderson), está do lado da mulher infiel, provocando o paciente quanto à sua insegurança. Ele é cobrado em função de um discurso que precisa apresentar num jantar de negócios. Acima de tudo, sente-se ameaçado e chantageado por Lula (Kate Mara), mulher que conhece no metrô, e flerta com ele ao limite da perseguição.
Por isso, seria fácil percebê-lo inicialmente enquanto vítima das circunstâncias — pelo prisma da sobrecarga de trabalho, da pressão sobre a masculinidade, da dificuldade em se relacionar. No entanto, o diretor Andre Gaines, partindo da peça teatral de Amiri Baraka, privilegia um tom muito mais cruel. Não existe espaço para piedade, muito menos ternura, por nenhum personagem. Logo, as interações limitam-se quase exclusivamente à briga, à provocação, aos insultos racistas, às ameaças de violência. O protagonista é um homem raivoso que despeja sua ira sobre a demais pessoas — e estas, por sua vez, devolvem tal ira na mesma moeda.
O filme não visa deixar o espectador confortável, nem entretê-lo. Pelo contrário, investe na ciranda de tensões que apenas escalam em proporção, a partir dos desentendimentos iniciais. Não há tempo para contemplação ou ambiguidade: na cena inicial, Clay confessa a dor de ser traído; na cena 2, o terapeuta e o melhor amigo sugerem que ele também traia; na cena 3, a mulher agressiva e profundamente sexual se joga sobre ele no metrô. Ela tira a calcinha e oferece pra ele, perseguindo-o conforme o sujeito tenta trocar de assento. O homem se encontra tão fragilizado, e pressionado para sustentar uma virilidade ferida pós-infidelidade da esposa, que consente em fazer sexo com a figura insistente do metrô. Mas se alguém come alguém nesta troca, certamente é ela.
A direção passa longe de qualquer sutileza. Desejo em Manhattan sucumbe às suas pesadas pretensões sociológicas, filosóficas e políticas.
Para além do teor incendiário, a direção passa longe de qualquer sutileza. Gaines possui a mão pesada, a partir de que texto que já pode ser considerado pesadíssimo. O sujeito de nome Clay (“argila”) será comparado, adiante, com o boneco de argila de uma peça teatral. Para indicar que o protagonista constitui mero instrumento de uma encenação, ele encontra palcos teatrais, literalmente, por todos os cantos onde passe. Já que Lula representa a sedução, ela morde a maçã do pecado — e o texto frisa a analogia com a Branca de Neve. Posto que as ações dela são lidas como demoníacas, a personagem guarda objetos de bruxaria em sua casa.
A overdose semântica continua. Eles se enfrentam no vagão, cercados por frases “Rompa o ciclo” estampadas em cartazes promocionais. Na hora de discursar, Clay percebe suas mãos cobertas de sangue (existe metáfora shakespeariana mais desgastada do que essa?). Assim que entra no metrô, o empresário é revistado por policiais no intuito de reforçar a discriminação social. No intuito de assinalar o antinaturalismo dos acontecimentos no transporte público, uma magia verde-azulada toma conta das imagens. A mulher que necessita de ajuda em frente ao vagão encontra em Clay sua única testemunha; e assim por diante. Todos os personagens ao redor são concebidos para ele, tais quais frutos de sua imaginação. Constituem coadjuvantes escolhidos especificamente para dar a réplica ao astro deste espetáculo.
Ao menos, o autor assume a artificialidade de sua abordagem. De fato, trata-se de uma dramaturgia simbólica, sobrecarregada de metáforas mais ou menos óbvia a respeito da opressão aos negros na sociedade norte-americana. Seja pela postura dos demais passageiros do metrô (que aparentam não perceber o assédio logo ao lado), seja pela figura de oráculos e xamãs convenientes (o terapeuta, a mulher negra que cai das escadas), estamos cientes de que aquela não seria uma situação comum. Pelo contrário, trata-se de uma encenação exagerada, visando servir de exemplo de caso a todos os problemas que os autores desejam discutir — de gênero, raça, classe social, da esfera pública/privada etc. De fato, Clay nunca corresponde a um sujeito dotado de subjetividade particular. Ele se reveste tão somente de uma função social, um recorte racial específico. Trata-se do homem negro bem-sucedido, acuado pela mulher branca de origem modesta, que passa a chantageá-lo e acusá-lo de estupro caso ele não cumpra com todos os seus caprichos.
Por isso, os diálogos e situações se tornam verbalmente agressivos, numa espécie de racismo frontal que a maioria das narrativas já abandonou no século XXI (em detrimento de um racismo sistêmico, passivo-agressivo). Aqui, em contrapartida, escutamos as frases “Você não é um negro, é só um branco sujo”; “Você ainda é um negro fugitivo”; “Ser negro está na moda; eu queria ser negra”. Lula ainda provoca um médico durante a festa, por duvidar que o personagem negro possa, de fato, ser um neurocirurgião. Antes disso, ela recorre a metáforas da “escuridão” para sugerir algo nocivo e vazio. Os diálogos não perdem uma oportunidade sequer para introduzirem mais uma piscadela, mais um tapa na cara (das figuras fictícias e do espectador).


Ao final, a adaptação da peça de 1964 soa muito mais apropriada para discutir relações de raça do que de gênero. O texto consegue condensar a opressão que leva personagens negros ao limite, legitimando, inclusive, a violência enquanto resposta do oprimido, e ferramenta política num sentido mais amplo. (A solução ao homem acuado consistirá em ser ainda mais agressivo do que seus agressores, antecipando-se a eles. Para louco, louco e meio). Em contrapartida, o retrato das mulheres, no texto escrito por um homem, parece não se adequar tão bem assim ao século XXI. Limitar as mulheres a figuras de traidoras levianas, ou assediadoras histéricas, que mentem a respeito de estupro e chantageiam o pobre homem casado, ao limite do enlouquecimento, não corresponde ao melhor retrato da autonomia feminina. Aqui, elas se restringem ao caráter ostensivamente sexual e hormonal, enquanto o homem, como de costume, preserva o monopólio da sensatez e da razão.
Por fim, é possível argumentar que Desejo em Manhattan sucumbe às suas pesadas pretensões sociológicas, filosóficas e políticas. O resultado ainda é prejudicado pela escolha bastante equivocada de vender o projeto ao público brasileiro numa embalagem de sensualidade (vide o título nacional), enquanto aborda, de fato, o abuso psicológico e sexual. Gaines nunca demonstra real ternura por seus personagens — condição mínima para nos identificarmos com figuras tão perversas e manipuladoras. O autor se interessa mais pela discussão e pela denúncia do que pelo material humano, sacrificado em nome da importância do debate. Mesmo esta comunicação de afronta, apontando dedos ao espectador no intuito de conscientizá-lo por meio da intimidação, parece ter envelhecido mal face às estratégias vigentes de discurso político. A obra aborda temas extremamente contemporâneos através de uma linguagem anacrônica.




