
Uma jovem se matricula na academia. O instrutor lhe faz as perguntas habituais a respeito dos objetivos pessoais, e do histórico de saúde da nova aluna. Um estranhamento se instaura, entretanto, devido à estética empregada — afinal, não enxergamos o rosto da garota. Por que a identidade dela estaria oculta, priorizando somente a voz em off? Estas provocações de ordem da linguagem proporcionam os melhores instantes do curta-metragem dirigido por Julia Uliana e Natália Dornelas. Logo, chega a frase que materializa o incômodo: a protagonista teve um linfoma, mas não sabe se isso deveria constar no relatório esportivo.
Conforme as artistas explicaram no palco do Sesc Glória, durante a apresentação do filme no Festival de Vitória, o objetivo era pensar não exatamente na experiência do câncer, mas na vida após a doença. Que traumas permanecem com a pessoa? De que modo se portar a respeito? O mesmo instrutor da abertura demonstra uma mistura de curiosidade e piedade pela jovem, a quem observa como excessivamente frágil. A condescendência está estampada no rosto do ator: de fato, não estamos preparados para conversar a respeito de situações de quase-morte, nem a olhar nos olhos daqueles que atravessaram algo semelhante. O desconforto é palpável.
A autoconsciência e a autocondescendência constituem meio e finalidade da mise en scène.
Felizmente, as criadoras brincam bastante com as expectativas relacionadas ao tema. A primeira metade do projeto se concentra num aspecto satírico, formado por esquetes semi-independentes. No karaokê, a heroína se prepara para cantar Love by Grace, de Lara Fabian — a famosa música que embalava o choro de Carolina Dieckmmann na novela, enquanto tinha os cabelos raspados. Em contrapartida, a versão forró da melodia triste quebra a perspectiva melancólica. Durante uma festa, o trocadilho entre o signo de câncer e a condição médica homônima gera outra bela fagulha de comicidade. Quando se confronta ao teor cotidiano, e ao tabu do diálogo com a finitude, o roteiro diverte tanto quanto nos convida à reflexão.
Em contrapartida, a segunda metade assume um tom mais grave. As diretoras preferem um texto didático, colocando na boca das atrizes da peça-dentro-do-filme tudo aquilo que gostariam de dizer ao espectador. Seguindo a estética do falso documentário (ou do falso making of), registram a discussão entre duas jovens que se recuperaram de um câncer. Uma delas acredita na necessidade de falar a respeito, e elaborar o trauma através da arte. Já a outra estima que o recurso seria egocêntrico, vaidoso, e que a superação da doença implicaria no direito (ou dever?) de seguir em frente. Imagina-se que esta dualidade componha as dúvidas pessoais das próprias autoras.
De fato, trata-se de um questionamento relevante, que poderia ser expandido para além de questões de saúde. Por que criadores precisariam falar de si? De suas próprias experiências, em chave confessional, ao invés de utilizarem a linguagem do cinema para irem em direção ao outro? Uma personagem inclusive sugere que tais dilemas seriam mais bem resolvidos na terapia do que no cinema. As autoras sabem problematizar esta questão fundamental, ainda que o didatismo das encenações no palco rompa com a capacidade de rir de si próprio, que imperava a princípio.
Subitamente, a obra começa a se levar a sério demais, culminando num bate-boca de tom folhetinesco — legitimado pelo fato de se tratar do estilo da peça-dentro-do-filme, não do filme em si. Ora, às vezes o tom metalinguístico soa mais simplificador (no sentido de fácil, conveniente) do que propriamente auspicioso na relação entre o real e sua representação. Mesmo assim, o saldo é positivo para este filme sobre câncer, plenamente consciente de ser um filme sobre câncer, e buscando ser mais do que um filme sobre o câncer. A autoconsciência e a autocondescendência constituem meio e finalidade da mise en scène.



