
O curta-metragem se inicia com uma série de letreiros, explicando sua origem, sua finalidade e seus métodos. O diretor Gustavo Guilherme da Conceição pontua orgulhosamente que esta é uma obra de “finalidade estética, crítica e de pesquisa”, “sem fins lucrativos”. Ora, qual seria o problema de um artista querer sobreviver de sua arte, ganhar dinheiro com seu o fruto de seu trabalho? Enfim, passemos.
Os letreiros nunca se interrompem, até o final da sessão. Refletem questionamentos retóricos do autor (“Se cinema é sonho, como filmamos nossos piores pesadelos?”, “O que faz um filme ser considerado inexibível?”), recordam passagens históricas durante a ditadura militar, além de fatos gerais, sem dados nem fontes. Sublinham palavras por meio de uma incontável quantidade de grifos vermelhos. Alguns termos se repetem na tela, ocupando a integralidade da imagem.
Para denunciar o regime totalitário, a censura contra as artes, a conservação insuficiente do patrimônio audiovisual e a gestão Bolsonaro, recorre a uma linguagem de impacto. O filme usa e abusa de sons de tiros e de “facadas fortes”, segundo a própria legenda. Opta por explosões, violências sexuais, denúncias explícitas da corrupção. Para tal, acredita na fragmentação, no choque, no incômodo via repetição de cenas e de estímulos.
Cinema, Poema e Gangrena chega a alfinetar Jean-Luc Godard (aliás, o que não é alvo de alfinetadas aqui?), embora a repetição de intertítulos dialogue diretamente com o procedimento popularizado pelo autor francês (algo que certamente soava mais inovador nos anos 1960-80 do que hoje). O resultado é um filme gritado, uma obra em negrito, caixa alta, fonte gigante, piscando aos nossos olhos. Alerta, há abusos! Crimes! Violências! Alerta! Alerta! Alerta!
A decisão de utilizar materiais de arquivo do cinema capixaba poderia ser interessante, caso houvesse uma preocupação em valorizar estas obras. Ora, os trechos são descontextualizados, e expostos na tela grande sem qualquer cuidado em relação à baixíssima qualidade da digitalização — caso em que muitos diretores preferem colocar telas-dentro-da-tela, que tornam mais sutil a baixa resolução. Nunca sabemos ao certo que filmes são aqueles, a importância que tiveram, nem sobre seus criadores e períodos. Em se tratando de um projeto de montagem, a dificuldade de estabelecer uma estrutura coesa a partir do material se faz ainda mais grave.
Por fim, nota-se a vontade de dizer tudo o que se pensa, explicando-se, repetindo-se, reformulando-se. As imagens nunca dão conta de transmitir todos os incontáveis focos do autor, razão pela qual a palestra via letreiros se faz necessária. Este é um curta-metragem que jamais confia na capacidade de seu espectador em efetuar conexões e analogias por conta próprio. Em consequência, soterra-o de estímulos, flashes e PALAVRAS, na esperança de que o fervor político nos impregne os poros por osmose. Ora, há maneiras muito mais elaboradas, e menos histriônicas, de discutir política junto do público, convidando-o ao debate.




