Filhas da Lua (2026)

Para filmar a diferença

título original (ano)
Filhas da Lua (2026)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
71 minutos
direção
Tatiana Sager
com
Dandara de Brum Borges, Fabíula Yasmin Rezende de Souza, Rubby Moreira, Rafaela Hammel
visto em
54º Festival de Gramado (2026)

Filhas da Lua parte, sem dúvida nenhuma, de ótimas intenções. O sistema prisional brasileiro costuma receber um olhar desumanizado, e no que diz respeito às travestis encarceradas, a representatividade audiovisual se torna quase nula. Portanto, o esforço da diretora Tatiana Sager em se aproximar de quatro mulheres, conhecer suas histórias e escutá-las de maneira humanizada se traduz num movimento fundamental. Percebe-se que o quarteto confiou bastante na cineasta, assim como no dispositivo do longa-metragem, para apresentar sua vivência a partir de uma perspectiva própria. O protagonismo travesti, em si mesmo, constitui uma exceção, tornando o resultado digno de nota.

Além disso, o documentário possui belos momentos. É valioso escutar as garotas conversando entre si, de maneira descontraída em suas casas, o que permite uma identificação direta com seu cotidiano. Quando mencionam os amores distantes (em geral, ainda na prisão), ou os erros dos quais se arrependem, aproximam-se da vivência de qualquer espectador médio. Além disso, aproveitam a oportunidade para expor o preconceito adicional que sofrem devido à passagem pela prisão, enquanto travestis. Narram os episódios repetidos de estupro no interior das celas masculinas, restrições injustificáveis de direitos (o banho de sol, por exemplo), e discriminação durante visitas íntimas.

Filhas da Lua transparece um senso de comunidade, além de um olhar empático às suas protagonistas. Mas o filme sofre com graves deficiências de ordem estética.

Em paralelo, problematizam a dicotomia entre liberdade e cerceamento de direitos dentro e fora do sistema carcerário. Posto que, uma vez fora da prisão, elas são restritas quase sempre à prostituição, devido à ausência de oportunidades de trabalho e acolhimento social, que liberdade realmente possuem? Este tipo de reflexão, embora apresentado de maneira rápida pelo discurso, permite aprofundar o debate para além da mera constatação dos fatos. A vulnerabilidade desta população ocorre tanto dentro de uma cela quanto fora dela — o que justifica a necessidade de recorrer a oportunidades desesperadas de ganhar dinheiro, para se manterem sozinhas.

No entanto, determinadas escolhas prejudicam bastante o resultado. Em primeiro lugar, de ordem ética ou moral. O contato inicial com as quatro protagonistas ocorre mediante uma ficha criminal, animada pelo filme e estampada da tela. Antes de sabermos quem são, o que desejam, e como pensam, elas são descritas por seus crimes (homicídio qualificado, tráfico de drogas, roubo, extorsão, sequestro) e suas respectivas penas. Esta ferramenta condiciona imediatamente o olhar: elas serão vistas, acima de tudo, enquanto prisioneiras e criminosas. Ora, por que seria tão importante à direção que esta informação determinasse nossa percepção imediata delas, constituindo o cartão de visitas do quarteto ao olhar do público? (Enquanto isso, um documentário como Carcereiras nem mesmo citava o crime de cada mulher, por estimar precisamente que não deveriam ser definidas por isso).

A maneira como são filmadas desperta incômodo. Rafaela Hammel oferece seu testemunho à câmera embaixo do chuveiro, enquanto toma banho. A câmera filma seus seios, seu corpo nu, e depois a acompanha se secando e vestindo. Ora, por que se estimou importante explorar a nudez de uma travesti? Teria sido aceitável entrevistar uma mulher cis sob a ducha, revelando o corpo? Caso negativo, por que isso seria natural no retrato de uma mulher travesti? Pressupõe-se que a personagem tenha se sentido confortável com tal cena, sem expressar nenhuma oposição à mise en scène. Em contrapartida, isso levanta questionamentos acerca do ponto de vista sobre pessoas trans — sobretudo, depois de décadas de uma nociva tradição de limitar travestis à genitalidade e o fetiche de seus corpos.

Algumas cenas íntimas são filmadas de maneira extremamente próxima e invasiva — caso, novamente, de Rafaela com outra mulher, dentro do quarto. A personagem escuta falas duras, sofre preconceito pela menção repetida do pronome masculino, enquanto a câmera se cola aos rostos e corpos como se estivesse sentada à cama, junto da dupla. A questão do distanciamento (tanto literal quanto simbólico) em relação às personagens, sobretudo em posição de vulnerabilidade, é fundamental. Numa primeira cena, o foco repetido nas mãos algemadas limita, mais uma vez, nosso olhar à constatação imediata da ficha criminal de Dandara. O projeto possui grande dificuldade de simplesmente observá-las enquanto mulheres comuns, para além desta passagem pela prisão. Desconhecemos os sonhos profissionais, a relação com familiares, os gostos e preferências. 

Em acréscimo a estas configurações, Filha da Lua sofre com graves deficiências de ordem estética. O som, em particular, mostra-se muito ruim. A captação de som direto aparenta não ter conseguido nem mesmo utilizar uma simples lapela, em determinadas cenas. Outras foram aparentemente afetadas por filtros, visando atenuar ruídos, o que deixa o resultado abafado e metálico. Dentro da casa de uma delas, no corredor da prisão, ou durante a visita do namorado, o tratamento sonoro é ruidoso, e incapaz de dissociar as falas dos barulhos ao redor. Ocasionalmente, a trilha sonora tenta disfarçar certas carências, mas apenas joga foco à diferença de qualidade entre a música gravada e as falas captadas in loco. (Obviamente, não ajuda o fato de que o som da projeção durante o Festival de Gramado estava altíssimo, reforçando problemas que talvez chamassem menos atenção em calibragem equilibrada do sistema sonoro).

A direção de fotografia também apresenta dificuldades, seja de escolha estética diante do imprevisto (para onde olhar, com qual enquadramento), seja para estabelecer prioridades de atenção quando várias pessoas conversam ao mesmo tempo (caso das três amigas dentro de casa). Em linhas gerais, a captação via digital de baixa resolução prejudica a experiência, sobretudo quando projetada numa grande sala de cinema. Compreende-se que os produtores partam de orçamento baixíssimo, como ocorre a tantos documentários semelhantes, mas mesmo os concorrentes no Festival de Gramado, confrontados a restrições comparáveis, haviam encontrado soluções melhores a tais entraves (a exemplo de Morro da Cruz: Memória Popular).

Por fim, apesar de tantas deficiências, Filhas da Lua transparece um senso de comunidade, além de um olhar empático às suas protagonistas. Parece ter sido bem recebido pelo público no Palácio dos Festivais, deixando suas personagens visivelmente orgulhosas da iniciativa. Por isso, merece o reconhecimento. Em contrapartida, ainda precisa desenvolver bastante seu pensamento cinematográfico no que diz respeito à delicada arte de representar a diferença, e adentrar a intimidade de indivíduos em situação de fragilidade. Estas grandes personagens merecem uma grande imagem, um grande som, e um grande filme, à altura da força que apresentaram nos palcos gramadenses.

Filhas da Lua (2026)
4
Nota 4/10

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