A História Mais Triste do Mundo (2026)

Crescer sem amor

título original (ano)
A História Mais Triste do Mundo (2026)
país
Brasil
gênero
Fantasia, Drama, Infantil
duração
92 minutos
direção
Hique Montanari
elenco
Caetano Rostro, Arthur Seidel, Nelson Diniz, Heinz Limaverde, Sandra Dani, Laila Garroni, Naddo Pontes, Nick Chagas, Paula Quirino, Valéria Barcellos
visto em
54º Festival de Gramado (2026)

Abandono familiar. Luto por um irmão. Escravidão. Trabalho infantil. Maus-tratos de crianças. Solidão. Miséria. Bullying. Fobias generalizadas. Estes são apenas alguns dos temas de A História Mais Triste do Mundo, um projeto surpreendentemente afetuoso para tantos temas gravíssimos abordados. Ainda mais inesperado é o recorte infantojuvenil da obra: trata-se de uma comédia dramática voltada, entre outros, aos pequenos. Nas palavras de Mário Corso, autor da obra original, a ideia seria apresentar às crianças, numa linguagem que possam assimilar, as dificuldades da vida adulta (em oposição a ocultar ou mentir os problemas da realidade).

No caso, o menino Marco cresceu sem amor. Após a morte de seu irmão gêmeo idêntico, os pais não conseguem mais olhá-lo no rosto, por enxergarem nele os traços o filho perdido. (Percebe-se que a obra foi escrita por um psicanalista). Em consequência, é vendido para um circo, onde efetua trabalho forçado, recebe uns trocados modestos e dorme dentro da jaula do leão (ele em um canto, e o bicho, no outro). Nunca comemorou um aniversário, nem teve amigos próximos. Inicialmente, o ímpeto de sobrevivência domina a existência do jovem herói, até se descobrir digno de amar e de receber amor. Em outras palavras, entender-se como gente, cidadão, pessoa autônoma, dotada de direitos, e ocupando um espaço próprio no mundo.

Como se percebe, ao invés de simplificar o mundo para abordá-lo com facilidade, esta obra prefere encontrar ferramentas estéticas capazes de sustentar tal conteúdo. O diretor Hique Montanari recorre a uma infinidade de magias, fantasias e deslocamentos do naturalismo. Seja por limitações orçamentárias, seja pela decisão assumida de abraçar o aspecto fabular da jornada, decide que os animais do circo (leão, elefante, cachorro) sejam representados por bonecos. Os passeios com o elefante pela cidade são representados via animação, de traços coloridos e infantis, enquanto os primeiros medos implicam no uso de efeitos caleidoscópicos. Ocasionalmente, bonecos (de argila? barro?) Ilustram o passado infeliz na casa dos familiares.

Uma inesperada obra colorida, agradável e divertida, como se espera dos filmes infantis, porém abordando temas delicados, que a maioria dos projetos voltados a este público evitaria.

Deste modo, esteticamente, o longa-metragem nunca para de introduzir novas formas de maravilhamento visual, empregados para ilustrar uma vida nada maravilhosa. Logo, a bela estratégia dos criadores consiste em oferecer, via linguagem, poesia e lirismo a um amadurecimento desprovido de tais características. Talvez fosse óbvio, mesmo redundante, converter este crescimento trágico num calvário de cores cinzas e tons tristes. Muito pelo contrário, a narrativa aproveita o teor colorido do circo, e a lucididade própria deste espaço, para contrastar com os sentimentos do garoto. Enquanto a plateia sorri e se diverte, os funcionários contam suas moedas e lamentam o dia em que foram abandonados pelos pais, por falta de comida em casa. Mas afinal, quem fará os palhaços rirem? 

Ao mesmo tempo, Marco conta sua própria história ao espectador, via narração em off. Embora o roteiro dependa excessivamente desta voz condutora para avançar a trama, ela ao menos nos garante que, em algum momento no futuro, nosso herói estará bem. Existe certo alívio nesta promessa tácita de que, apesar do calvário ligado aos sentimentos por si próprio (os problemas de autoimagem refletidos no cabelo vermelho e nas orelhas enormes) e pelos demais (a dupla traição dos pais biológicos e da figura paterna que comanda o circo), ele encontrará alguma forma de paz. Afinal, o rapaz descreve seu percurso com distanciamento, evitando a autopiedade e o sensacionalismo. Ele apresenta uma infância cruamente realista da mesma forma que contaria às crianças, antes de dormirem, uma história sobre fadas e dragões.

Ironicamente, o protagonista encontrará uma forma de acolhimento via amor romântico. Em outras palavras, conhece uma garota (igualmente pobre e solitária) com quem se relaciona e, a partir disso, a vida seguirá dura, porém mais tolerável, nas palavras do próprio. Ora, então a salvação provém do acaso? Da sorte, da espera pelo encontro eventual com alguém em situação semelhante? Talvez o final feliz, neste caso, soe demasiado simples para uma obra que evitava, precisamente, as simplificações. Mesmo assim, sustenta-se uma fé, ou um otimismo, na capacidade de superação de traumas. Embora não tenha recebido amor, Marco será capaz de se amar, e de dar amor a alguém. Terá superado o medo de palhaços, de leões, e também aquele do olhar dos outros (belas figuras de passantes com máscaras pela cidade de Porto Alegre). À narrativa, isso basta.

Assim, resta o sentimento de uma inesperada obra colorida, agradável e divertida, como se espera dos filmes infantis, porém abordando temas delicados, que a maioria dos projetos voltados a este público evitaria. Trata-se de uma bela prova de respeito às crianças e pré-adolescentes, por acreditar em sua capacidade de compreender o mundo. Ao final, sorrimos diante de algo bastante triste, ou nos comovemos com cenas que poderiam, em sua essência, ser consideradas engraçadas, devido ao grau de absurdo e ridículo — vide os pais vendendo o cachorro idoso da família ao próprio filho. Parte do generoso humor provém deste deslocamento do bom senso, que apela à nossa empatia e habilidade de reconhecer tais cenas enquanto inaceitáveis.

No elenco, muitos fatores se sobressaem positivamente. Um alívio decorre da escolha de que, em um universo circense, o ator com nanismo (Naddo Pontes) não interprete uma atração ao público, apenas uma figura administrativa da empresa. Interessa bastante que a figura da autoridade e da proteção legal às crianças provenha de uma mulher trans (no caso, a sempre ótima Valéria Barcellos). Para os papéis das crianças, numa fase mais madura, Arthur Seidel se mostra excelente com diálogos, em especial, junto à igualmente talentosa Paula Quirino. Interpretando Fausto, o líder do circo, Nelson Diniz consegue escapar à vilanização redutora do personagem, encontrando variações preciosas entre o cuidado e o controle.

Por fim, Hique Montanari se prova um exímio cineasta na arte de abraçar discussões delicadas, e tabus, através de uma linguagem capaz de comportá-las. Havia abordado o suicídio na adolescência em Yonlu (2017), e agora, retorna às infâncias marcadas por abusos. Para representar garotos de 16 anos, recorria à linguagem da Internet, e agora, num universo de crianças menores, investe no circo, nas marionetes, nas animações coloridas. Existe uma difícil maestria em navegar por registros tão distintos com igual desenvoltura — e, no final, elaborar reflexões tão respeitáveis e adultas.

A História Mais Triste do Mundo (2026)
8
Nota 8/10

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.