Não Sei Viver sem Palavras (2025)

Pequenas memórias

título original (ano)
Não Sei Viver sem Palavras (2025)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
80 minutos
direção
André Brandão
com
Ignacio Loyola de Brandão, André Brandão, Gabriel Braga Nunes
visto em
Cinemas

Quando Ignacio de Loyola Brandão teve seu filho André, filmava o garotinho com uma câmera Super-8, registrando o seu crescimento. Décadas mais tarde, André, tornado cineasta, registra o envelhecimento do pai escritor através de câmeras digitais. O gesto de afeto de um dialoga com o olhar carinhoso do outro. Não Sei Viver Sem Palavras possui plena consciência de que não apenas homenageia o criador de Não Verás País Nenhum e Obscenidades para uma Dona de Casa, mas também cumpre um desejo jamais cumprido pelo autor. De fato, o prolífico artista sempre sonhou em dirigir um filme.

A perspectiva de um filho realizando uma obra a respeito de seu pai desperta alguns receios prévios, devido ao histórico de iniciativas semelhantes no cinema brasileiro. Teria sido conveniente apenas enaltecer, erguendo um patamar às evidentes qualidades do membro da Academia Brasileira de Letras, que acaba de completar 90 anos. Entretanto, o longa-metragem demonstra um olhar muito mais complexo. O simples fato de dedicar um filme ao pai constitui uma ternura em si própria — logo, nunca se ressente a falta de um compilado de elogios por parte do cineasta e de terceiros. O discurso tampouco explica Ignacio, nem resume didaticamente o seu percurso profissional. Foge, desta maneira, às armadilhas tão incômodas nos documentários de vocação jornalística.

É difícil pensar em qualquer documentário brasileiro recente com tamanha inventividade, ousadia e fluidez no agenciamento de sons e imagens.

Há inúmeros pontos de vista, vozes, registros e temporalidades entrecruzados pela narrativa. Ignacio fala por si mesmo, seja diretamente a André, seja em entrevistas à mídia, ou durante homenagens e palestras. André também se posiciona, até surgir, em estilo totalmente distinto, a voz impostadíssima do ator Gabriel Braga Nunes, entoando trechos escritos pelo autor. As falas se misturam em off, evocando pensamentos amplos acerca do mundo e da criação. Jamais explicam aquilo que o espectador pode ver por conta própria, sobretudo, devido ao fato que as imagens e os sons nem sempre coincidem. O autor busca estímulos poéticos para representar as reflexões do pai, seja no contato com a natureza, seja nas películas de filmes antigos. A narrativa foge de qualquer obviedade indicial, preferindo criar sentidos próprios.

Por isso, Não Sei Viver sem Palavras se revela tão especial. André Brandão jamais soa refém dos materiais à disposição. Nunca se contenta com as fotos e os vídeos de arquivo — pelo contrário, utiliza-os enquanto princípios de criação de algo novo. Em paralelo, efetua diversas filmagens por conta própria, assumindo também a função de diretor de fotografia. Busca seus paralelos (a estação de trem ontem e hoje) e suas metáforas, enquanto resgata filmagens que, a priori, não teriam qualquer relação direta com o escritor e sua vida. Aí reside a verdadeira criatividade do autor, expandido os sentidos ao invés de se posicionar humildemente abaixo da nobreza do seu tema. André é tão criador quanto Ignacio, por isso, dispensa a tradicional modéstia de se diminuir, preferindo desenvolver um projeto autônomo e autoral.

A montagem consiste no grande trunfo desta iniciativa. É difícil pensar em qualquer documentário brasileiro recente com tamanha inventividade, ousadia e fluidez no agenciamento de sons e imagens, nas sugestões e nos ritmos. Mari Moraga e Ricardo Carioba efetuam um trabalho brilhante, evitando qualquer impressão de déjà vu. Mesmo durante a apresentação inicial do escritor, recorre-se a uma colagem alternada de reportagens introduzindo a vida e obra de Ignacio de Loyola Brandão, o que insinua, em si, a importância e amplitude de matérias a respeito dele. Articula, sem senso de prioridade, os stills em preto e branco, as falas descompromissadas com o filho, as brincadeiras via chamada de vídeo. Presente e passado se alternam sem a necessidade de capítulos, letreiros, nem organização em blocos temáticos.

Em determinadas passagens, Não Sei Viver sem Palavras se aproxima da abstração, utilizando as melhores ferramentas do cinema experimental. Recorre a paisagens borradas, a fragmentos do cinema silencioso, a captações assumidamente amadoras dentro de casa. (Aliás, as imagens caseiras displicentes, tremendo até demais a partir de um celular na mão, poderiam ser apontadas como único revés de um filme tão belo). O espectador é surpreendido do início ao final, sem saber ao certo como a jornada se conduzirá, e para qual destino. Esta sensação de surpresa ou, pelo menos, de provocação aos sentidos, equivale a um mérito considerável diante do tão desgastado gênero do documentário biográfico. 

“Você vai perceber um dia que a fantasia vai te ajudar a suportar a vida”. Falas preciosas desta natureza são proferidas com nulo senso de autoimportância. Outra agradável descoberta do documentário encontra-se na capacidade de Ignacio de Loyola Brandão em articular pensamentos complexos com a simplicidade dos contos e crônicas mais acessíveis. A óbvia intimidade com o filho-cineasta também lhe permite se comunicar de maneira franca, descompromissada. Ninguém aparenta modificar sua postura ou raciocínio no intuito de impressionar (com exceção do ator-narrador, talvez). O filme constitui meio, ao invés de finalidade — no caso, um diálogo artístico entre filho com o pai; uma forma de alcançá-lo no registro onde o patriarca se expressa. Imagens para expressar palavras; sons para dialogar com a escrita. A fricção de linguagens constitui um espetáculo em si própria.

Por fim, o documentário representa uma poderosa surpresa no circuito comercial. Chegou às salas de cinema discretamente, a exemplo de tantas obras importantes, dotadas de poucos recursos para divulgação. Parte do encantamento decorre precisamente da oposição entre uma embalagem que pode soar convencional à primeira vista, e a revelação de um documentário que escapa com tanta maestria às convenções. André Brandão respeita a inteligência do espectador, por isso, não o trata como aluno, nem ouvinte inculto. Ele respeita a imagem do pai, por isso, não precisa defendê-lo como se estivesse sendo atacado ou difamado por alguém. Estabelece o talento do pai enquanto ponto de partida, e sua carreira artística, enquanto ponto pacífico. Dado este consenso, imagina com ele, junto dele, a partir dele. Ao invés de um presente do cineasta ao escritor, o filme se torna um dueto, um exercício de olhar e ser olhado, de escrever sobre e escrever com. Um convite à criação enquanto gesto de empatia. 

Não Sei Viver sem Palavras (2025)
9
Nota 9/10

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