
O jovem protagonista deste filme trabalha num porto, durante a madrugada. Ele escuta, sem parar, funks proibidões, pontuados por piroca na buceta e descrições semelhantes. Sente-se confiante, poderoso, a ponto de deixar mensagens de voz a uma pretendente, consentindo com um encontro. Sem meias palavras, descreve cada posição sexual do menu previsto para a noite. No final, ainda chama a mulher de “vadia”, com um sorriso nos lábios. Saboreia a construção de sua própria virilidade, reescutando diversas vezes a mensagem que acaba de enviar. O homem se delicia, sobretudo, com uma ideia do sexo.
Isso porque, na verdade, Leandro (Leandro Gomes) não interage com praticamente ninguém nesta curta-metragem. Vende sua mercadoria (grãos de soja caídos dos caminhões) a um único cliente. De resto, jamais encontra a garota a quem prometia uma transa selvagem. Na casa noturna, repleta de pessoas, descobre-se sozinho, calado, incômodo, até terminar a festa com uma masturbação escondida pelos cantos. Pelo celular, anuncia a venda de um carro extremamente potente, que tampouco vemos. Ninguém aparece para comprá-lo. Nem mesmo no porto ele cruza com colegas, patrões ou passantes. O homem-potência se reduz a um fantasma.
O que resta do malandro popular e musculoso, quando não há ninguém para contemplar seus músculos, seu carro, suas nudes prometidas pelo celular?
Há um desnível flagrante entre a masculinidade sonhada pelo personagem, e aquela experimentada na realidade. Do mesmo modo, um abismo separa os grãos jogados ao chão das pepitas de ouro que a direção de fotografia nos sugere. O excelente filme de Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa se constrói nesta diferença entre aparência e essência; entre a perspectiva de um evento empolgante (encontros amorosos, festas, tráfico de mercadoria) e a solidão que de fato se impõe a este indivíduo. O que resta do malandro popular e musculoso, quando não há ninguém para contemplar seus músculos, seu carro, suas nudes prometidas pelo celular?
Os autores sabem muito bem desenvolver os seus signos. Os grãos catados ao chão depois serão encontrados sobre as potentes caixas de som do carro, pulando devido à vibração da música. Adiante, a areia da praia será o novo grão, sobre o carro atolado. Este é um belo e irônico símbolo de liberdade e aprisionamento, adequado ao caso de Leandro. As letras do funk insistem no desempenho erótico enquanto única maneira de existir socialmente, ainda que o teor varie da celebração ao ato menos eufórico. As mensagens de voz atravessam toda a narrativa, potencializando o desespero silencioso de um vendedor que não encontra compradores a nenhum de seus produtos — a soja, o carro, o corpo.
Apesar das grandes qualidades da obra, talvez Grão incomode apenas por ser excessivamente escuro, mesmo em cenas onde algumas fontes de luz suplementares poderiam valorizar o trabalho do ator em cena. Entretanto, trata-se de um detalhe face à complexa obra sobre uma masculinidade em conflito, acompanhada precisamente pela crise política e econômica. Quem diria que o Brasil pudesse ser tão bem representado por um único personagem, o macho ressentido, que se estima merecedor de dinheiro e mulheres, embora nunca os encontre? Logo o sujeito que acorda sozinho, derrotado, dormindo com a cara enfiada na areia? Esta figura nos diz bastante a respeito das transformações sociais da contemporaneidade.




