
Há muitas maneiras de analisar uma obra tão particular quanto Irritante Prodígio. A primeira delas seria pelo viés da autoexposição. Os anos 2000 viram o boom de um cinema selfie, no qual os cineastas falavam sobretudo de si próprios. Em particular, expunham seus aspectos menos elogiosos — os defeitos, os traumas, as crises, as disforias —, o que foi interpretado enquanto sinceridade, humildade e inegável sinal de coragem. Quando o conceito do lugar de fala nos impulsiona a abordar sobretudo aquilo que conhecemos bem, sob pena de cometermos uma irresponsabilidade moral no retrato alheio, uma bela alternativa reside no filme sobre mim mesmo. Nenhum tema possuiria maior legitimidade do que a nossa própria jornada.
Além disso, as autobiografias documentais costumam demandar um orçamento reduzido por lidarem com a autoimagem, a captação caseira e os vídeos amadores da infância. Esta configuração, inclusive, permite à diretora Luiza Lindner materializar seu longa-metragem de estreia totalmente sozinha, conforme os letreiros orgulhosamente apresentam. Por isso, observando pelo prisma da sinceridade de se exibir, o projeto seria claramente bem-sucedido. Se chegasse aos cinemas vinte anos antes, talvez despertasse uma atenção ainda maior. Entretanto, nesses tempos em que todos se filmam com seus celulares, e exibem os corpos ou dores na Internet diariamente, qual impacto ainda teria a viagem pelos confins do ego? Qual o valor de uma linguagem saturada pelas mídias digitais?
O principal problema diante de Irritante Prodígio decorre da posição reservada ao espectador. Não nos resta nada a fazer em termos de reflexão, porque todas metáforas nos vêm mastigadas e pesadamente conotadas.
Em segundo lugar, pode-se avaliar a iniciativa por sua função terapêutica. Nesta jornada, a autora exibe todo o seu sofrimento físico e psíquico desde a infância. Confessa crises de ansiedade, síndrome de pânico, depressão, anorexia, bulimia e múltiplas tentativas de suicídio. Recorda o diagnóstico de diferentes terapeutas e psiquiatras, enquanto pontua a atitude da mãe e do pai diante de cada momento de dificuldade. Critica, em particular, a quantidade de remédios prescritos à jovem, algo que, em sua leitura, serviu para entorpecê-la, agravando seu quadro clínico. Enquanto os sintomas desfilam na tela, na forma de legendas gigantescas, a narração ininterrupta, em teor confessional, sublinha a gravidade destes sentimentos.
Lindner estima que o filme foi possível graças ao incentivo de um professor de cinema, assim como das melhores amigas, que enxergaram sua capacidade quando a maior parte da turma preferia sua expulsão da faculdade. Enquanto narradora em off, avalia que “esse filme existe porque eu sinto a necessidade que ele exista”, e imagina que o projeto “pode fazer diferença para alguém”. Assim, admite que a iniciativa serviu sobretudo a si própria, na forma de um objetivo capaz de mantê-la viva. Filmou porque precisava, porque queria, porque considerou que isso lhe faria bem. O espectador entra neste curioso jogo na função de voyeur da dor alheia, ou testemunha de uma narrativa pessoal, a partir de um único e exclusivo ponto de vista — o da cineasta sobre si mesma.
Logo, o principal problema diante de Irritante Prodígio decorre da posição reservada ao espectador. A autora fala, mostra, explica. Apresenta o fato e sua interpretação; a hipótese e sua conclusão. Ela dirige, roteiriza, escreve, monta, estrela. Constitui a autora e a obra, a criadora e a criatura. Por isso, elabora uma proposta que se inicia e se encerra em si mesma. Não há uma única imagem que não contenha Lindner, ou não aborde seu corpo e seus pensamentos. Cada imagem é significada por ela, num gesto profundamente controlador. Lindner nos indica o que pensar, e como ler cada gesto destes personagens ausentes nas imagens. Declara que a atitude do pai seria detestável, que a conduta do terapeuta justificaria a prisão dele, e que o professor teria sido um dos únicos realmente gentis. Transmite-nos o certo e errado, de maneira prescritiva.
Ao espectador, não resta nada a fazer em termos de reflexão, posto que refletem por nós. “Calar uma criança não curá-la, é fazê-la cair”, “O único doente perdoável é o prodígio”, ensinam os letreiros. Não temos o trabalho, nem mesmo a possibilidade, de conjecturar, imaginar, debater ou interpretar metáforas, que nos vem mastigadas e pesadamente conotadas. Nunca podemos nos projetar nas contemplações (inexistentes), nem nos espaços em branco deixados (impensáveis aqui). Limitamo-nos a constatar o fluxo de pensamento alheio — ou refluxo, visto o peso da comida, da perda de peso, de tudo que precisa sair dela. O filme consiste neste gesto de botar pra fora, de tirar do peito, de regurgitar todo o mal que lhe fizeram. Assemelha-se ao vômito no sentido de expelir sem medida, sem controle, despejando tudo o que houver a expulsar de si.


Ora, o questionamento diante deste cinema-desabafo reside no fato que, quando alguém se alivia desesperadamente de todas as suas angústias, pouco importa o que o interlocutor pense a respeito do flagelo compartilhado. Na condição de amiga em necessidade de um ouvinte, Lindner fala sem respirar, despeja imagens e atira estímulos, sem o menor espaço para contemplação, respiro ou distanciamento em relação a tópicos tão pessoais. Cabe ao espectador simplesmente ouvir calado, presente e passivo. Nunca somos convidados a participar da discussão, porque o filme não é feito para nós, mas apesar de nós — a autora dirige os esforços a si própria, afinal. Terminado o expurgo, fazemos aquilo que faz qualquer amigo, testemunho da crise alheia — lamentamos, nos compadecemos, e nos despedimos.
Irritante Prodígio ainda traz escolhas questionáveis de direção e montagem. A extensa conclusão, acrescentando a apresentação deste filme por Lindner a plateias anteriores, resulta vaidosa e dispensável — assim como a fala descontextualizada à TV FAAP. A sucessão de elogios à própria cineasta, por parte de colegas, reforça a aparência de que o ego fragilizado da primeira parte conclui-se num ego muito mais sólido ao final. Entretanto, para o público, a experiência do longa-metragem se assemelha a ler furtivamente o diário íntimo alheio, ou assistir à “lição de casa” encomendada pelo terapeuta da protagonista. Lindner aborda obsessivamente a sua intimidade, porém, jamais se preocupa com a nossa, nem com aquela de qualquer outra pessoa em circunstâncias semelhantes. Oferece, desta maneira, um filme transparente no sentido da autoexposição, mas opaco enquanto forma de comunicação. Aposta no eu como princípio, meio e finalidade. Fecha-se sobre si mesmo, a ponto de nos expulsar da relação de espectatorialidade.




