Passado Futuro Contínuo (2025)

A distância da imagem

título original (ano)
Past Future Continuous (2025)
país
Irã, Noruega, Itália
linguagem
Documentário
duração
76 minutos
direção
Firouzeh Khosrovani, Morteza Ahmadvand
visto em
15º Olhar de Cinema (2026)

Maryam observa seu Irã natal à distância. A jovem exilada nos Estados Unidos se conecta com seu país através da língua, que utiliza para narrar o filme; por meio de poemas, declamados em sobreposição às paisagens de Teerã; e sobretudo, via câmeras de segurança. Isso porque a mulher se preocupa com os pais idosos, vivendo sozinhos. Quem vai ajudá-los caso caiam na rua? Se passarem mal? O que poderia fazer por eles, estando do outro lado do mundo? A solução reside na observação constante do espaço doméstico. A protagonista instala uma dezena de câmeras, inclusive nos quartos, em ângulos diferentes. Assim, pode vê-los comer, ler, dormir.

O filme parte, portanto, de uma investigação do cinema enquanto apreensão e controle da realidade. Ainda que fisicamente separada dos pais, a protagonista acredita cuidar deles por meio de mensagens constantes, além de reprimendas pelo celular: Por que vocês não estão em casa? O pai precisa de um colchão mais alto, ele está com dificuldade de levantar da cama! Desde quando a mãe troca lâmpadas? Quando os percebe silenciosos demais, compra um papagaio, entregue diretamente ao casal idoso. Assim, terão com quem conversar. A atenção obsessiva às telas divididas implica numa vontade de ingerência sobre o real. A câmera não busca representar a natureza, mas domá-la para si, aprisioná-la em âmbar — em outras palavras, impedir a inevitável passagem do tempo.

A obra aborda a violência do exílio, privilegiando o Irã visto de fora, repleto de idealizações e memórias afetivas.

Mas Maryam vai além. “Eu os mantenho vivos com meu olhar”, ela afirma. Adiante, conclui que a dança dos pais, na sala de casa, teria sido encenada para agradá-la. O aspecto mais bonito, e também pesaroso de Passado Futuro Contínuo, reside neste esforço ilusório do cinema enquanto domesticação do real. A personagem logo percebe que não consegue controlá-los por completo, é claro. Eles não dormem juntos, embora a filha gostaria que o fizessem. Não respondem às mensagens assim que as recebem. Dormem no sofá, mesmo que ela implore para voltarem ao quarto. O mundo existe apesar do cinema, apesar do nosso olhar. Mesmo as câmeras possuem ângulos mortos, que escondem os ocupantes no espaço domiciliar. Então, o que fazer diante da constatação dos cômodos vazios? O ímpeto de substituir a liberdade pela (impressão de) segurança atinge o ápice na constatação de que a protagonista não efetua tais gestos pelos pais, mas para si mesma.

Apenas depois de um mergulho tão íntimo e doloroso na vida familiar, o documentário explica de onde surgem estas inseguranças. Retorna alguns anos para recordar a fuga de Maryam do país, escondida sob uma pele de animal. Menciona a vida nos Estados Unidos, e sublinha a obrigação de abdicar da nacionalidade iraniana, além dos juramentos para defender somente a bandeira norte-americana. O que isso diz de sua identidade, sobretudo no momento em que Trump bombardeia o país por motivos fúteis e ambíguos? Ela deveria torcer pela aniquilação dos seus? Como retornar simbolicamente ao lar, já que a idade dos pais não lhes permite se juntarem a ela em solo estrangeiro? A solução reside nas imagens.

Os diretores Firouzeh Khosrovani e Morteza Ahmadvand desenvolvem uma série de dispositivos capazes de refletir a clausura e a visão segmentada das câmeras de segurança. Escolhem desde aqueles mais óbvios (a batente de uma janela quebrada) até as construções próximas da instalação artística (o aquário de peixes espremidos, morrendo), culminando na poesia violenta de um pássaro preso a uma estrutura transparente, batendo-se contra as paredes, na tentativa de fugir. Talvez não se trate da iconografia mais original, porém, ela se mostra funcional e sensível. Afinal, este é um filme sobre bombas, separações e agressões institucionais, representadas pelas frestas — a alegria de ver os pais em casa, ou, em chave inversa, o desespero de testemunhar o homem idoso cochilando por tempo excessivo, e cogitar sua morte.

Ao final, a obra aborda a violência do exílio. Poderia apostar na rotina estadunidense de Maryam, em seu não-pertencimento na terra estrangeira, porém, privilegia o Irã visto de fora, repleto de idealizações e memórias afetivas. O esvaziamento da casa, prestes a ser demolida devido a um projeto de rodovia, representa a solidão tanto dos pais, quanto da própria protagonista, incapaz de ajudá-los. Através destas imagens, chamadas telefônicas e encomendas, a jovem busca lhes dar um abraço. Ela o faz por meios neuróticos, compulsivos, talvez pouco saudáveis emocionalmente — mas quem poderia julgar o sentimento de culpa de uma pessoa que abandonou sua nação, se afastou da família, para tentar se proteger? Como ela poderia se sentir completa, se não pertence aos Estados Unidos, e nem ao Irã?

Ora, a mulher sem rosto define-se pela condição de “presente-ausente”. Embaralha geografias e temporalidades, ao estimar que “o passado, um futuro contínuo, é o destino para os países do Oriente Médio” — numa conexão inesperada com o nosso “O Brasil tem um enorme passado pela frente”, de Millôr Fernandes. Aqui, as ações se combinam, repetem, reconfiguram: a chuva cai de baixo para cima; os pombos deixam borrões luminosos em seus voos limitados; a barulho de bombas interrompe a rotina pacífica dos idosos; e as luzes das festas, em meio à decoração da sala, apenas revelam um senhor com seu andador, silencioso e deprimido. As imagens não transmitem o real, apenas uma representação dele — além de uma projeção do espectador. Onde Maryam enxerga a solidão dos pais, talvez esteja falando de sua própria solidão.

Além disso, Passado Futuro Contínuo rompe com a estrutura clássica do documentário biográfico confessional. Desta vez, embora fale em primeira pessoa, a protagonista não é a diretora do filme, mas uma personagem a quem se permite “dirigir” os pais à distância, em sua ficção especulativa via câmeras de segurança. Khosrovani e Ahmadvand observam uma mulher que observa outras pessoas, ou seja, permeiam seu olhar pelo filtro da perspectiva alheia. Abrem-se a um teor tão íntimo quanto distanciado, posto que intervêm unicamente via montagem. Este regime de co-autoria, e o tom carinhoso de um querido diário alheio, complexificam as fronteiras borradas entre a ficção e o documentário, entre a construção e a apreensão, entre a poesia e o domínio do ambiente. 

Passado Futuro Contínuo (2025)
8
Nota 8/10

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