
Em algum momento no futuro, as fazendas brasileiras terão assistentes-robôs, responsáveis por acessar bancos de dados e auxiliar os proprietários no cuidado das terras. Em paralelo, implantes subcutâneos acionarão hormônios no corpo humano, e uma troca de testículos poderá resolver problemas de infertilidade. A fantasia concebida pela diretora Louise Savignon se ampara principalmente na tecnologia para estabelecer um distanciamento em relação ao real.
Para isso, recorre ao imaginário clássico do tema: pequenas esferas grudadas às têmporas dos personagens, vozes e gestos mecanizados para os ajudantes-robôs, flashes e glitches em pós-produção, indicando uma intervenção no real. De resto, provavelmente devido a restrições orçamentárias, as principais inovações são sugeridas via diálogo, porém, não concretizadas em imagens. Mesmo assim, parte-se de uma ousada proposta de universo paralelo.
No entanto, a principal radicalidade reside na dupla comparação entre relacionamentos amorosos: por um lado, um casal lésbico feliz e saudável, entre duas mulheres pensando se terão filhos, e por outro, um casal heterossexual, patriarcal, em profunda crise devido à infertilidade dele. Neste último caso, o sexo é filmado de maneira desconfortável, com certa incompatibilidade entre os corpos, ao passo que a intimidade entre as mulheres transborda de carinho. Neste aspecto, a iniciativa já demonstra um posicionamento político bastante firme.
Em contrapartida, a narrativa se enfraquece devido à multiplicação de personagens, focos e interesses. O projeto não soa propriamente adaptado às potencialidades do curta-metragem, aproximando-se de um mini longa — uma amostra do que poderia ser a ficção científica, caso desenvolvida em formato estendido. Assim, elementos potentes têm seu papel diminuído devido à forma abrupta como surgem e são descartados a seguir — vide o olho sangrento, a festa apresentada mediante mera articulação de close-ups, o trabalho sexual, o implante na mão. Os elementos perdem sua força em meio à pressa de seguir adiante.
Assim, Tornar-se Ciborgue no Interior (título sedutor por si próprio) articula-se entre o prazer de presenciar grandes atores em papéis que raramente desempanham (caso de Edilson Silva e Noá Bonoba), e os perigos de acelerar processos e contextualizações. Tanto a frase repetida pelo olho assustador quanto a canção final careceriam de maior cuidado em sua inserção via montagem. “Homem é bom / Homem faz bem / Tem sempre um homem procurando alguém” pode carregar inúmeros significados, mais ou menos producentes ao discurso progressista pretendido pela obra.
O principal reflexo desta indefinição conceitual reside no término abrupto da trama — um traço comum aos curtas-metragens apresentados na mesma sessão do Olhar de Cinema. Uma vez introduzidas tantas figuras, gadgets e conflitos, a narrativa simplesmente se interrompe, dispensando uma conclusão propriamente dita. Ali, na hora de amarrar tantos pontos de vista, a criação precisaria esclarecer seu discurso. O filme transparece maior prazer em criar personagens e dilemas do que em desenvolvê-los.






