
O mercado do título possui uma atmosfera de arena. Qualquer um está livre para adentrar aquele espaço, sobretudo, no intuito de acertar contas com seus desafetos e se insinuar para seu objeto de desejo. Os ratos invadem o chão; os bêbados caminham pelos corredores; os sacos de lixo passam na mão dos funcionários. Entre os pedaços de carne pingando sobre as mesas, algumas pessoas começam a desaparecer. Ninguém suspeita da origem destes crimes. Mas, ali, carne é carne, e tudo que se destrói, também se consome — seja pelos abutres, seja por humanos zumbificados ao lado do lixão.
A diretora Tássia Dhur demonstra um vigor impressionante neste projeto. Abraça com igual intensidade o sexo e a morte, ou ainda, a vida e sua finitude. Mulheres dão à luz sobre a mesa do açougue; e sujeitos asquerosos atacam as moças pelos cantos. No comércio vazio, a funcionária corta os pêlos pubianos à vista de qualquer passante. O roteiro se delicia com certa ideia de sujeira, tanto moral quanto física. Para representar sujeitos amorais, assassinos e abusadores, impera a estética da imundície.
Mesmo assim, a cineasta nunca condena estes personagens, pelo contrário. Demonstra fascinação pela capacidade do grupo em concretizar seus impulsos sem nenhuma perseguição, nem condenação. Por mais insalubre que seja o local, ele constitui o palco onde todos os desejos são permitidos, algo que soa irresistível aos seus participantes. Por este motivo, a bela direção de fotografia circunda os personagens, buscando os corpos, a pele, as cores fortes. Deseja penetrar o espaço com a mesma violência que os trabalhadores e clientes atacam-se uns aos outros.
Por mais insalubre que seja o local, ele constitui o palco onde todos os desejos são permitidos.
Dhur oferece a si própria o papel central, que desempenha com impressionante desenvoltura. Ela está confortável nesta composição meio naturalista, meio excessiva. Enquanto alguns teóricos do cinema pesquisam as fronteiras entre o real e o fantástico, outros estudam o dito hiperrealismo, no qual as ferramentas do realismo social se fazem ainda mais intensas, ao limite do grotesco (ao invés do lúdico). Este seria o registro pelo qual navega a autora maranhense — mesmo que as criaturas animalescas do lixão estejam mais próximas do cenário de distopia e ficção científica.
Mercado Central possui algumas asperezas. Há personagens em excesso, que a direção nem sempre controla a contento. Alguns coadjuvantes tropeçam nas falas, algo abraçado pela montagem. Entretanto, a hesitação de uma conversa natural possui teor bastante diferente de um ator engasgando no diálogos. Rumo ao final, figuras secundárias (o namorado que abandonou a esposa) ganham mais atenção do que aqueles apresentados, até então, como essenciais (a amiga da protagonista, vivida por Quimera). A própria denominação de uma serial killer soa forçada diante dos poucos casos retratados na narrativa. Os conflitos quase se atropelam na curta duração.
Entretanto, em meio a um festival com 80 curtas-metragens exibidos, o projeto maranhense se sobressai, e permanece na memória. Distingue-se de tantos filmes esforçados em agradar, ou acomodados a certa modéstia da produção de baixo orçamento. Ora, a autora transparece ousadia e pulso firme, além do gosto louvável pela potência social e estética do cinema de gênero. Por isso, desperta forte interesse quanto aos seus próximos passos como atriz e cineasta.




