Irmã (2026)

A bela violência

título original (ano)
Irmã (2026)
país
Brasil
gênero
Drama
duração
25 minutos
direção
Anderson Bardot
elenco
Marcos Santos, Kaiow Carvalho, Diô Batista, Arthur Leão, Maria Alice Gonçalves, Gomes Jorge Guilherme, Queiroz Maria Eliza, Serqueira Duda
visto em
33º Festival de Vitória (2026)

“Irmã”, neste longa-metragem, se refere a duas acepções distintas: tanto de ordem imediata, relativa aos laços familiares, quanto aquela em conexão com as religiões neopentecostais, para as quais um irmão significa o membro da mesma congregação. Família e religião são indissociáveis nesta trajetória de uma jovem que escapa a um lar abusivo e, anos depois, envia uma carta de encorajamento à irmã menor. O pressuposto da carta narrada em off atravessa a integralidade da narrativa, como forma de se dirigir ao público em paralelo à comunicação íntima entre as protagonistas.

Logo, o aspecto confessional se mistura com um teor mais etéreo, como se a autora desta correspondência se dirigisse também a si própria, numa ruminação pessoal. “A mãe teve duas filhas, você e eu”, abre o texto, com uma informação que a remetente obviamente já conhece. Aos poucos, o texto se torna mais poético e filosófico, refletindo acerca de questões de autonomia e identidade, de amor familiar e necessidade de romper com laços abusivos. Felizmente, o conteúdo sonoro nunca repete aquilo que vemos em imagens, completando-as de maneira livre.

O diretor Anderson Bardot sempre gostou de um cinema altamente estilizado, passando pelos tons dourados de Inabitáveis (2020) e pelo preto e branco bastante contrastado de Procuro Teu Auxílio para Enterrar um Homem (2023). Agora, atinge o paroxismo desta abordagem performática, de máximo controle e ingerência no meio. O principal recurso da vez consiste na câmera lenta, que ocupa mais da metade das imagens de Irmã. Na alegria e na tristeza, na intimidade e na humilhação durante uma festa, os personagens posam, em sua versão mais bela, às necessidades da câmera.

Logo, mesmo a violência se faz sedutora e atraente. Um pai tenta afogar a filha pequena na cachoeira onde se batizou religiosamente — momento em que o dispositivo se deleita com cenas subaquáticas e referências ao útero materno. O tapa na cara ocorre em câmera lenta, assim como a fuga de casa. A adesão à abordagem do cineasta por parte do público depende sobretudo da capacidade de mergulhar numa estética que sobrepõe a liberdade experimental às cores fortes e composições típicas do videoclipe pop. Para o bem ou para o mal, uma agressão transfóbica e um trauma de infância nunca foram tão plasticamente elegantes.

Diretor de posicionamentos políticos fortes e impressionante criatividade, Bardot aparenta testar, em poucos anos, os limites desta investida posada, entre o fashion e o kitsch (linguagens que condizem, sem dúvida, com a estética neopentecostal). As imagens e sons chamam tanta atenção para si próprios — para a astúcia tanto do cineasta quanto da direção de fotografia e arte — que corre o risco de deixar em segundo plano as atuações, o aspecto humano, psicológico e intimista de uma jornada de superação. Cabe aos autores, a partir das próximas obras, pensarem no melhor equilíbrio entre forma e conteúdo, ou entre os prazeres da representação e a a subjetividade do objeto representado.

Irmã (2026)
6
Nota 6/10

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