
Existem dois aspectos muito diferentes ao considerar este projeto. Por um lado, há o esforço da direção, da fotografia e dos atores. O cineasta Jean-François Richet sempre se mostrou bastante confortável com os códigos da ação, e comprova sua competência ao dispor de um orçamento considerável (US$ 40 milhões). Por isso, abre a jornada com um acidente de carro impressionante; abraça as captações via drone (mesmo no interior de uma mansão) e atinge algumas estripulias notáveis junto ao diretor de fotografia Brendan Galvin — caso da luta de vários homens na estreita escada do navio.
Os atores principais também demonstram um comprometimento funcional a este tipo de narrativas. Ao encarnar um ex-policial transformado em segurança privado, Jason Statham tenta, aqui e acolá, sugerir alguma fragilidade ou complexidade emocional para o herói (quando se lembra da morte do pai, por exemplo). No papel da capitã de bom coração, confrontada a uma gangue especializada em tráfico humano, Annabelle Wallis também se dedica nas expressões, no trabalho de corpo, no ritmo das falas. Assim, pode-se falar em um esforço notável da equipe para fazer este projeto funcionar — inclusive na edição de David e Joe Rosenbloom, que imprimem belo ritmo sem acelerar demasiadamente os conflitos.
Ora, por outro lado, existe o roteiro. Código: Vingança se mostra tão genérico quanto seu título nacional. Seria difícil apontar uma única ideia original, ousada ou incomum na narrativa que se contenta em seguir à risca uma fórmula básica. Aqui, o herói virtuoso é acusado de um crime que não cometeu, por isso, expõe-se ao risco de morte para retaliar contra os verdadeiros assassinos de seu patrão. No caminho, salva criancinhas indefesas de algum país não-especificado, enquanto ajuda a moça pouco experiente a sobreviver face às ameaças. Cada capanga armado e anônimo serve apenas a levar socos e tiros do protagonista, cujo conflito central, no clímax, consistirá em enfrentar o chefão do esquema criminoso. Adivinha quem vence?
Um filme B, de competência imagética considerável, porém optando, conscientemente, por oferecer mais do mesmo.
Ao mesmo tempo, os roteiristas Lindsay Michel e J.P. Davis apostam em conveniências e improbabilidades para fazer a história avançar. Por acaso, um homem morto por Cole Reed (Jason Statham) se parece bastante com ele, o que lhe permite roubar a identidade da vítima. Por acaso, há equipamentos médicos dignos de uma cirurgia em meio à sala de motores do navio. Na televisão, avisa-se que o segurança é considerado o principal suspeito da morte do bilionário Tibu (Ramon Tikaram), embora nunca se saiba como a mídia chegou imediatamente a esta conclusão. Um gângster extremamente perigoso (Roland Møller) oferece, via rádio chamada, uma explicação ingênua aos crimes ocorrendo no barco, na tentativa de despistas seus malfeitos. E assim por diante.
Ao menos, os criadores evitam os piores clichês do cinema de ação de três décadas atrás. Não, Cole e Angie (Annabelle Wallis) nunca se apaixonam. Felizmente, a criancinha doente não morre para despertar empatia. Mesmo que o herói ajude a colega, ela ainda consegue se virar sozinha, em termos de estratégia e luta, nas horas centrais — ou seja, deixa de constituir mera “fragilidade feminina” a ser resgatada pelo homem protetor. Certo, isso seria o mínimo para equilibrar um discurso que ainda limita pessoas de língua não-inglesa a vilões ou vítimas, dotados de mínima construção psicológica. É claro que tantos atores de ascendência indiana, singapuriana e tailandesa visam sobretudo aumentar o apelo da obra junto ao público asiático.


Mesmo assim, os acontecimentos se apresentam exatamente como previsto, na hora que qualquer manual de roteiro clássico sugeriria. Resta saber se, para este tipo de filme de ação industrial, o prazer da previsibilidade substitui o prazer da ousadia. Já faz algum tempo que a linha Duro de Matar não encabeça mais as bilheterias norte-americanas, encontrando seu novo habitat nos serviços de streaming. Ironicamente, as grandes imagens de paisagens digitais e embarcações, previstas para “encher os olhos”, são contempladas em telas cada vez menores, e qualidade decrescente de exibição e som. Código: Vingança e tantas iniciativas semelhantes constituem aquilo que, algumas décadas atrás, seria lançado direto nas videolocadoras. Um filme B, de competência imagética considerável, porém optando, conscientemente, por oferecer mais do mesmo — apenas um produto atualizado para os gigantes do streaming despertarem a falsa impressão de novidade, justificando assim o custo da assinatura ao cliente.
A Jason Statham, cabe um enésimo papel de vilão destemido, musculoso, generoso, irredutível. Todos os personagens encarnados pelo britânico se misturam na cabeça, formando uma única figura de masculinidade. Enquanto os novos ídolos da ação preferem caminhos autoparódicos, Statham (que também produz este novo longa-metragem) ainda leva a sério a idealização do macho, que o cinema contemporâneo se esforça em desconstruir. Este seria, por definição, um movimento reacionário, de resistência da virilidade e da liderança masculinas, num mundo de heróis em crise. A produção britânica-norte-americana representa, por fim, a vontade de retornar ao sonho de justiça com as próprias mãos, de coragem individual, de combate ao crime na base de valentia e músculos. Enfim, uma aposta neste mundo que, fora da ficção industrial, nunca realmente existiu.




