
A primeira surpresa neste curta-metragem diz respeito ao cuidadoso trabalho de direção de fotografia. Apesar de uma ambientação de aparente descontrole (o trânsito do Rio de Janeiro, o transporte ilegal das lotações), nota-se o esmero de Jorge Bernardo na composição dos planos e na iluminação noturna. Mesmo quando o veículo enfim estaciona em alguma ruela vazia e escura, o olhar do espectador ainda é direcionado para os trechos da imagem que interessam à direção.
No centro destas belas imagens está Jorge (Roney Villela), conversando com os passageiros enquanto relembra da amada Tetê (Viní Ventania), que o rejeitou. Villela tem se tornado um dos atores mais interessantes do cinema atual brasileiro, seja protagonizando longas-metragens (A Morte Habita à Noite), seja roubando a cena em grandes elencos coletivos (O Agente Secreto). Aqui, ele e outros personagens são calibrados para um teor de malandragem um grau acima do naturalismo. Aproximam-se assim de exemplos de caso (o homem hétero ressentido, a mulher trans de temperamento forte, a colega de trabalho que encoraja o herói a viver seu amor).
Deste modo, percebe-se que o diretor Igor Barradas gosta de trabalhar com tipos sociais, contanto que possa subvertê-los dentro da ótica habitual de virtude masculina. Nesta narrativa, os homens são fracos, tristes, solitários, enquanto as figuras femininas se impõem sem dificuldade. O projeto se filia às leituras ultra contemporâneas da hétero-masculinidade frágil, decadente, num mundo que não a comporta mais – junto de Grão, Oeste Outra Vez e Obeso Mórbido, por exemplo.
É uma pena que alguns elementos diminuam a potência do filme. A colega de kombi (interpretada por Polly Milaje) é pouco desenvolvida, dependendo dos estímulos do protagonista masculino para existir em cena. Na hora em que se introduz uma criança negra na trama (quando a trama desvia o foco para Tetê), a luz (tão preciosista até este momento) oculta por completo o rosto do menino nas sombras. A iluminação de corpos e rostos negros continua sendo uma questão ética fundamental no cinema brasileiro atual. Além disso, alguns cortes são estranhamente abruptos, como se interrompessem o meio de uma frase.
Mesmo assim, resta o forte trabalho de ambientação. A montagem de André Sampaio estende as cenas por tempo suficiente para ainda imprimirem bom ritmo, mas sugerirem certo desencantamento. Nem otimista, nem particularmente pessimista, o olhar da direção aparenta constatar a derrocada da figura tradicional do macho como um movimento inevitável, e necessário para que mulheres como Tetê possam tomar as rédeas de sua vida (e da trama) para seguir em frente.




