Gonzaguinha, da Maior Liberdade (2026)

Ícone misterioso

título original (ano)
Gonzaguinha, da Maior Liberdade (2026)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
77 minutos
direção
Susanna Lira
visto em
54º Festival de Gramado (2026)

Ao final de Gonzaguinha, da Maior Liberdade, é possível que o espectador tenha aprendido poucos fatos a respeito do artista — no sentido de maiores sucesso, principais álbuns, inspirações de outros cantores, ou elogios mencionados por terceiros. E isso é ótimo: um artista radical como este dispensaria um filme-Wikipédia, tentando explicá-lo, ou resumi-lo às passagens mais marcantes de sua carreira. A diretora Susanna Lira deixa ao jornalismo que efetue o trabalho jornalístico, preferindo investigar a imagem do artista, construída por si mesmo, e pela mídia dos anos 1970 e 1980. Afinal, quem era este homem de expressão cabisbaixa, aparência introvertida, e letras tão criativas? 

O documentário analisa, portanto, uma persona pública, fugindo da armadilha de elucidá-la. Nunca se encontrará uma verdade nos bastidores, ou uma revelação pontual para que o espectador pense: então este é o Gonzaguinha de fato. Às vezes o artista nos soa acessível, mas depois, encara o dispositivo numa postura de afronta. Em alguns momentos, observa o pai no palco com um misto de pudor e apreensão, e adiante, revela-se debochado quando o provocam quanto à sua “personalidade difícil”. Ele descreve a censura às suas músicas com uma indignação parcial, combinada a certo desapego, de quem não se importaria tanto com a circulação destas obras ou não. Diversas contradições se preservam neste retrato multifacetado.

Lira se permite criar a partir de Gonzaguinha, formando uma parceria póstuma. Faz do autor um meio, ao invés de mera finalidade.

Para a nossa felicidade — e também dos criadores, sem dúvida —, havia materiais de arquivo preciosíssimos à disposição. Nenhum letreiro, nem especialista em música brasileira, precisa apresentar o homem e suas relações familiares, posto que o próprio Gonzaguinha “entrevista”, informalmente, sua mãe durante uma gravação. Adiante, ele destrincha o relacionamento meio distante com o pai, as diferenças musicais, e o sentimento de, enfim, compartilhar o palco com ele pela primeira vez. Os olhares direto à câmera, e as respostas para insinuações espinhosas da imprensa já estavam gravadas e preservadas (em excelente qualidade de som e imagem, diga-se de passagem). Por isso, o artista fala por si próprio. De certo modo, ele ainda controla a interpretação que se possam ter dele, numa articulação interessante entre os desejos da montagem de Ítalo Rocha e a persona forjada pelo protagonista.

Diante deste mergulho íntimo, as exterioridades mais evidentes se fazem dispensáveis. Isso significa que vemos poucos shows, nenhuma gravação em estúdio, e nulo contato com fãs. Entenderemos pouco sobre a composição de letras tão delicadas. Gonzaguinha discorre sobre si próprio num futuro — já consagrado, censurado, e acostumado às comparações com a fama do pai. O longa-metragem não se preocupa tanto em captar o artista ao vivo, mas em refletir acerca dele a posteriori, junto da voz do próprio cantor pensando a si mesmo. Desta forma, estão ausentes o senso de urgência e o encantamento juvenil. Muito pelo contrário, a obra na totalidade sugere um teor crepuscular, melancólico. Um fim de festa, em prenúncio à morte precoce devido a um acidente de carro.

Para além do material de arquivo, Lira recorre a uma modesta encenação de Gonzaguinha, numa mesa de bar, conversando informalmente com entrevistadores fictícios. Apoiando-se em registros reais, o artista (interpretado por André Dale) desenvolve sua relação com o processo de criação e com os censores. Para a nossa surpresa, o ator oferece uma leitura bastante agressiva das falas, de tom incisivo, brusco, pouco pausado. Ostenta uma certeza ausente nos registros de arquivo, marcados por pausas extensas e olhares perdidos. Demonstra, assim, a possibilidade de enxergar aqueles posicionamentos de maneiras mais ou menos assertivas, mais ou menos provocadoras. Há muitos Gonzaguinhas num só.

Curiosamente, um aspecto que normalmente passaria despercebido se torna essencial neste caso: o pensamento gráfico. O longa-metragem se apoia bastante no uso de letras, fontes, cores e no design de palavras, datas, poemas. Lira e sua equipe fazem um uso bastante criativo de fotografias “listradas”; relatórios da ditadura translúcidos, sobrepostos ao rosto do cantor; além de incontáveis intervenções de desenho. Os criadores parecem, de fato, rabiscar diretamente no enquadramento, criando um álbum visual, no qual os nomes e datas das músicas também fazem as vezes de intertítulos para esta narrativa pessoal. Em paralelo, as canções banham as falas do protagonista, em versões quase integrais, embora jamais se dissociadas de seu compositor. Nunca somos convidados a ouvir cada canção na condição de fãs — elas estão sempre intrinsecamente amarradas às imagens e ao contexto político de uma época.

Ao final, a cineasta se esforça em conectar o posicionamento ideológico de seu personagem ao Rio de Janeiro contemporâneo. Utiliza a voz doce do cantor como lamento e denúncia às chacinas na cidade, e ao pensamento punitivista contra moradores de comunidades. De certo modo, este segmento reforça a atualidade das letras, trazendo Gonzaguinha a uma geração que talvez ainda não o conheça bem. Permite que o artista reverbere para além de sua época, enquanto expande o significado de seu trabalho. É fundamental, num documentário biográfico, que a mise en scène não se sinta diminuída em relação à nobreza do tema, evitando a habitual postura servil e humilde. Lira se permite criar a partir de Gonzaguinha, formando uma parceria póstuma. Faz do autor um meio, ao invés de mera finalidade.

Por fim, tem sido gratificante acompanhar o crescimento certeiro de Susanna Lira como cineasta. Sempre desenvolveu um belo trabalho no audiovisual, porém encontrou, logo no registro tão desgastado e formulaico das biografias documentais, um terreno fértil de experimentação estética. A autora dispensa por completo os talking heads, os letreiros explicativos, a necessidade de contemplar fãs ou resumir seu personagem central, introduzindo-o a um público presumido ignorante. Ela vai além, deixando que os artistas falem por si próprios, e que preservem suas incongruências fundamentais — como se percebeu no magnífico Fernanda Young: Foge-me ao Controle. Em especial, ela enxerga nestas ocasiões a possibilidade de criação, de invenção, a partir dos estímulos fornecidos por cada personagem. Não permanece refém daquilo que tenham a oferecer, ou dos materiais disponíveis, preferindo criar os seus próprios. Os documentários biográficos, em geral, têm representado um segmento pouco animador na produção brasileira recente — exceto por aqueles feitos por Susanna Lira.

Gonzaguinha, da Maior Liberdade (2026)
9
Nota 9/10

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