Foto: Rogério Resende / Divulgação (Cine Ceará)

Do Outro Lado do Pavilhão | “O Brasil tem a terceira população carcerária do mundo, e isso é uma vergonha”

Érica e Núbia se conheceram dentro da prisão. Estas duas mulheres, que passaram a se chamar de mãe e filha, somam algumas passagens pelo cárcere feminino. Elas sentem que, sempre que saem, encontram ainda menos oportunidades para reconstruírem suas vidas longe do crime. Este percurso é retratado no belo documentário Do Outro Lado do Pavilhão, de Emília Silveira.

A cineasta de Setenta e Galeria F apresentou seu novo trabalho no 35º Cine Ceará — Festival Ibero-Americano de Cinema, onde explicou que a motivação veio de sua história pessoal — afinal, a própria diretora foi presa durante a ditadura militar. Assim, ela busca compreender a vivência de duas mulheres em outro contexto de privação de liberdade. Silveira conversou com o Meio Amargo a respeito do documentário:

(Em destaque, acima, foto de Rogério Resende / Divulgação)

Você faz questão de associar a história dessas mulheres à sua própria experiência na prisão. Por que quis se colocar em cena?

Emília Silveira: Eu não queria me colocar. Lutei durante anos para não me colocar. Foi uma pressão principalmente da minha sócia e produtora, a Rosane Hatab, além das pessoas em volta, como nossa colaboradora, Natasha Neri. A Natasha considerava um absurdo eu não me colocar ali. Para ela, ficava uma coisa aleatória fazer um filme sobre mulheres presas sem ter uma razão especial para isso. Então todo mundo ficou me pressionando.
Lembro de Setenta (2013). Eu não me coloquei neste filme, e consegui aqueles depoimentos porque a gente tinha um vínculo muito próximo, afinal, eu tinha vivido a mesma coisa que eles. Em uma cena, o Marcão me conta as torturas que sofreu e diz: “A minha tortura foi bárbara. Você viu. Você estava lá, você viu”. Então eu digo para ele: “Pula essa parte”. Foi o único instante em que eu quase me permiti aparecer. No Setenta, tinha uma cena incrível do Guarani, marido da Doro. Neste momento, eu me colocava, mas intuitivamente tirei na montagem. Então, foi difícil, agora, me colocar.
Além disso, eu tinha vários textos para entrar no filme. Mas fui tirando um por um, e deixei só aquele primeiro. Porque as protagonistas são elas, não sou eu. Eu só queria fazer uma relação, explicar como porta de entrada o meu motivo de estar ali.

Eu não queria me colocar [neste filme]. Lutei durante anos para não me colocar.

Neste filme, me parece que o que fica de fora de quadro é mais importante do que aquilo que está no quadro. A gente não vê o interior da prisão, nem muito da vivência das personagens.

Emília Silveira: Eu acredito muito nisso. O Godard dizia que, no plano, importa tanto o que está em quadro quanto o que está fora de quadro. Eu acho uma lição fantástica. No debate aqui do Cine Ceará, eu não contei uma história específica, porque ela me faz chorar. É a história do Jean-Claude Carrière, no livro A Linguagem Secreta do Cinema. Ele conta que foi à África apresentar um filme e os anfitriões tinham medo que as imagens sobre as tribos pudessem ofender a cultura local. Então venderam os olhos das pessoas no cinema, que só ouviram o som. O Carrière diz: “O meu filme ficou muito melhor, porque passou a figurar na cabeça do espectador”. Então eu acredito de verdade que o que está fora de quadro tem tanta importância no filme quanto aquilo que está em quadro.

Gosto que Do Outro Lado do Pavilhão exponha de maneira clara os crimes cometidos pelas duas mulheres, mas sem julgamento moral.

Emília Silveira: Exato. Eu adoro quando ela diz que virou gerente do morro, e cresceu no tráfico. Acredito que o Estado deve muito mais a essas pessoas do que elas ao Estado. Não tenho uma formação judaica-cristã, então, nada de culpa. Por que moralizar e vitimizar pessoas que são consequências desta estrutura? Não existem 77% de mulheres negras nas prisões da França ou da Itália, por exemplo. O Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo, e isso é uma vergonha. Então eu realmente não julgo, sabe o porquê? Porque não tem saída.
O nome desse filme seria Sem Saída, inclusive. A vida dessas pessoas é sem saída. A menina que trabalha na minha casa perdeu o filho, assassinado pelo tráfico, dois meses atrás. Isso veio da denúncia vazia de uma mulher mentirosa. O menino tomou tanta porrada que morreu três dias depois, no hospital. Era o único filho dela, uma mulher trabalhadora, inteligente, que podia ser uma engenheira, uma médica.

Eu não vejo nenhuma hierarquia por ser diretora — eu só tenho privilégios. Só por isso eu sou uma pessoa diferente delas: porque nasci em outro lugar.

As mulheres estão visivelmente confortáveis para conversar, sem tabu nem pose. Esse me parece um dos grandes méritos do documentário.

Emília Silveira: Eu queria um vínculo. Na minha cabeça, acho que eu sou uma delas, entendeu? Não pela questão do crime, mas somos iguais. Eu não vejo nenhuma hierarquia por ser diretora — eu só tenho privilégios. Só por isso eu sou uma pessoa diferente delas: porque nasci em outro lugar. Eu dei sorte de nascer em outro contexto. Além disso, eu gosto de gente, eu gosto delas, então eu vou com calma, eu faço brincadeira. Em todos os meus filmes, é um pouco assim. Às vezes a gente tem este poder da direção em relação a quem está sendo filmado, mas você vai atenuando, horizontalizando o processo.
Eu lembro do Claude Lanzmann, que sempre acreditava na necessidade de fazer perguntas específicas, concretas. Em Shoah, ele perguntava: “Quantos sapatos tinha uma montanha de sapatos? Quantos passos você tinha que dar até chegar no forno?”. Ele levava para o concreto, para o imagético mesmo. Mas eu sou muito intuitiva, eu não tenho perguntas escritas. Em um momento deste filme, eu consegui lembrar do Lanzmann e eu perguntei para ela: “Mas qual é a altura da cela? Mas de que tamanho era aquele objeto?”. Então ela indica, mostra, aponta.

O projeto parece muito aberto ao acaso. Em que medida você sabia onde este processo iria, e quando queria encerrar estas histórias?

Emília Silveira: Essa era a minha briga com a produção. Porque eu fico insistindo que não terminou, e a Rosane diz que já acabou. Não que ela não seja sensível, porque a Rô é jornalista e roteirista, mas ela fica preocupada na produção. E documentário não é jornalismo. Documentário é arte, é cinema. Então, eu ficciono o tempo todo. É uma mentira dizer que o documentário equivale à verdade, entendeu? É sempre um ponto de vista.
Isso aconteceu comigo no Galeria F (2016). Os nossos produtores falaram: “Se o cara matou alguém, a família da vítima precisa ser ouvida”. Ora, eu passei vinte anos no jornalismo, e mais quase vinte anos como diretora de musicais e televisão. Agora, faço um trabalho autoral. Larguei isso tudo para não ganhar mais dinheiro e fazer uma coisa autoral. Então não, não vai ter a família do cara que morreu. Se a família do cara que morreu quiser falar sobre ele, faça seu filme. Eu não vou falar do cara que morreu no meu filme, não vou perder esse tempo, entendeu? Mas é difícil, porque as pessoas veem o filme como uma realidade.
Ao mesmo tempo, quanto mais eu tocar o coração das pessoas, melhor. Não adianta essa frescura de estética, ela existe e eu me preocupo muito em ter boas câmeras, me preocupo muito com a parte técnica, porque eu tive uma formação stalinista com relação a essa história técnica. Afinal, é ruim você entregar para o público um filme relaxado. Não pode entregar qualquer coisa.

Percebi que este é o quarto filme de prisão que estou fazendo. Mas, enfim, documentário é tempo. Eu sou uma profissional velha, sou sênior, já vivi muito.

Quais conexões você enxerga entre Do Outro Lado do Pavilhão e seus filmes anteriores?

Emília Silveira: Só hoje que eu posso responder isso, depois que eu percebi que este é o quarto filme de prisão que estou fazendo. Neste caso, é uma ideia original da Paula Zanettini, foi ela que me trouxe a essa temática. Mas, enfim, documentário é tempo. Eu sou uma profissional velha, sou sênior, já vivi muito, e trabalho há milhões de anos. Então eu tenho uma técnica, e em cima desta técnica, eu faço uma coisa rápida, fácil. Começo a montar o filme a partir dos conflitos, mas então chegam as dúvidas: aí tem um filme? Mas o que eu quero com esse filme? A primeira montagem é quase um bom dia que você dá, para viver um dia inteiro e chegar no dia seguinte. A gente sempre escuta dos diretores: “Passei não sei quanto tempo montando, passei anos montando”. É porque o tempo é nosso maior aliado.
Eu aprendi isso, porque no início eu não sabia nada de cinema, né? Fazia televisão. Eu era uma bárbara, fazendo televisão, a invasão dos bárbaros. Embarquei no cinema junto com um ex-namorado que é diretor de cinema, e ele me orientou. A gente pegou uma grande editora de cinema, a Joana Collier, da escola do Escorel. Por exemplo, eu amava uma sequência do Galeria F num corredor, porque ela estava muito bem fotografada. Mas toda vez que batia a sequência, me dava uma sensação estranha. Não combinava. Então, entendemos que precisava tirar. O documentário é muito mais flexível nesse sentido — é também uma das suas belezas.

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