
Hélder (Admiro Laura Munguambe) é um pastor obcecado com a ideia de expandir o seu rebanho. Sonha em atrair incontáveis fiéis para suas pregações, e ajudar o máximo de pessoas possível, em nome de Deus. Afinal, esta seria a sua vocação. Mas como salvar almas que não desejam ser salvas? O que fazer diante das plateias quase vazias, repletas de senhoras sonolentas, ou olhando para a tela do celular? Talvez pudesse melhorar o seu sermão monótono e gaguejante, mas… esta opção não lhe vem à mente. O homem obstinado prefere recorrer a uma mulher maligna, espécie de feiticeira capaz de lhe oferecer o sucesso desejado, mediante alguns sacrifícios.
Nasce assim um novo Fausto. Ele não exatamente vende a alma ao Diabo, mas entrega sua fé à ânsia de fama e reconhecimento. Em consequência, trai as palavras divinas em nome de Deus. Devido às contradições evidentes do protagonista, e ao pacto com forças obscuras, O Profeta poderia resultar num suspense perturbador, repleto de tensão e iconografias de horror. A religião (e a subversão da mesma) sempre ofereceu farto material ao cinema de gênero, em especial na figura de padres libidinosos, pecadores, corruptos, confrontados ao mal. O diretor estreante Ique Langa parte da instigante figura deste homem cuja danação reside na realização de seus sonhos. A partir do feitiço, ele se satisfaz e se perde na mesma medida.
O Profeta poderia resultar num suspense perturbador. Mas a principal surpresa reside no estilo lânguido e estetizante proposto pelo autor.
Ora, a principal surpresa diante desta premissa reside no estilo lânguido e estetizante proposto pelo autor. O moçambicano aposta em interações ínfimas, de pouquíssimos diálogos (sempre sussurrados e monossilábicos), trocados entre os escassos personagens em cena. Levamos algum tempo até a confirmação de que a mulher grávida ao lado do herói constitui sua esposa, tamanha a frieza entre ambos. Em seguida, as figuras em cena se deslocam len-ta-men-te, enquanto a câmera se delicia em contemplar a movimentação dos corpos no espaço. Embora a segunda metade esteja repleta de elipses, a primeira parte ignora saltos temporais. Por isso, a imagem admira Hélder se levantando da cama sem a menor pressa, e então observando algum ponto distante, vestindo as calças, os sapatos, a camisa, botão por botão. Os planos-sequência esticam uma duração processual — a direção estaria sugerindo, nestes gestos cotidianos, uma prática ritualística?
Em segundo lugar, nota-se o prazer da direção de fotografia e do cineasta na composição de planos fixos, sobretudo, deixando os rostos no terço inferior da imagem, ou bastante espremido nos cantos do enquadramento. O elegante preto e branco acentua o caráter fabular, por não corresponder à natureza tal qual a enxergamos, enquanto a proporção da imagem opta por três janelas distintas: 1,33:1 no início, diante do pastor em crise; 1:1, quando ele conquista o poder via entidades perversas, e 1,87:1, na proposta de redenção no desfecho. Os atores posam no local exato do enquadramento, enquanto o som brinca de sobrepor a fala de uma conversa à imagem referencial de outra interação. Cria-se, desta forma, uma aparência de sonho, ou ainda um pesadelo suspenso. Pressente-se que, a qualquer momento, o homem possa simplesmente despertar em sua cama, agoniado e coberto de suor.
Em contrapartida, tamanho deleite em criar imagens não se acompanha de interesse equivalente em criar ações. O Profeta demonstra uma curiosa gestão do tempo e dos ritmos. Inicialmente, deixa as perambulações de Hélder se arrastarem, sem finalidade precisa, contentando-se em testemunhar o sentimento de vazio do sujeito deprimido. Em chave oposta, uma vez realizado o pacto, o êxito do líder religioso chega de modo repentino. Na cena seguinte, há dezenas de pessoas na congregação, cantando, dançando, entoando a palavra bíblica. Um dos melhores instantes do longa-metragem decorre do festejo noturno, misto de transe e êxtase (já no formato quadrado da imagem), quando os corpos se agitam freneticamente diante do dispositivo fixo. Nesta hora, o plano-sequência soa muito mais justificado, enquanto fruição, do que nas caminhadas na avenida, para cá e para lá, da metade inicial.
Já os atores, inexperientes, reduzem a expressividade ao limite do maquínico. Chega a soar curioso que instantes de desespero (a ambição do pastor, a angústia de um homem cujo pai necessita de cuidados hospitalares) sejam transmitidos através de mínimas falas repetidas (ou fala nenhuma), enquanto os rostos e corpos dos atores permanecem imóveis, paralisados. Em outras palavras, o texto sugere uma catarse que o elenco não reproduz. De certa forma, isso condiz com a abordagem da obra em sua totalidade, equilibrando-se entre a vontade de sugerir furor, via narratividade, enquanto a estética adota a plasticidade elegante e posada de um ensaio fotográfico. Ao menos, o aspecto letárgico dos personagens corresponde à procura por um estranhamento geral — via discurso, roteiro e direção.
Rumo ao final, o filme moçambicano aponta para caminhos distintos, quase antagônicos. Por um lado, sugere a possibilidade de abraçar o discurso religioso de fato, quando Hélder se arrepende do pacto. Chora, pede perdão, insurge-se contra a obrigação de sacrificar novos animais para aplacar a fome da entidade maligna. A tentativa de suicídio combina a luz esbranquiçada da gramática religiosa com a trilha cristã e uma câmera lenta que nos mergulham, estranhamente, numa trajetória de redenção do homem pecador. Afinal, quanto maior a queda, maior a ascensão, correto? Nada melhor do que um líder religioso que já testemunhou a baixeza do ser humano — e conseguiu vencê-la. Se ele pode, quem não poderia?


Por outro lado, ameaça enveredar pelo terror, gênero com o qual flertava diversas vezes no segmento inicial, sem se sujar de fato. As pústulas no rosto do senhor doente, as vísceras de animais mortos (e o barulho asqueroso das mesmas), as imagens quase abstratas durante a noite sugerem que Langa abraçará o aspecto grotesco e físico desta aliança entre bem e mal. Ora, ironicamente, o ímpeto do bom gosto ainda preserva o longa-metragem de ferramentas destinadas a provocar repulsa ou incômodo. Salva-se o dia, salva-se a alma, e salva-se o filme de um percurso demasiado profano. A obra escapa tanto à pureza religiosa quanto à vilania infernal, acreditando numa tentativa de paz entre as partes, via confissão e esforço comunitário.
Assim, o resultado impressiona pela vontade de realizar um cinema “profissional”, admirável, digno dos grandes eventos internacionais — não por acaso, foi realizado via incentivo do Festival de Veneza. O diretor, de fato, possui um olhar potente para a natureza. Entretanto, falta a verve necessária para adentrar a psique de figuras contraditórias, e os aspectos sociopolíticos do abuso de poder por parte de homens que se estimam representantes de Deus. O discurso guia-se unicamente guiada pela moral. Faz-se o bem ou faz-se o mal, cede-se à tentação ou preserva-se a virtude. Tudo depende, em última instância, do caráter do sujeito arrependido — ou seja, de um esforço individual. Neste sentido, o desfecho se mostra redutor, até moralista, pelo fato de isolar o indivíduo da sociedade. Mesmo assim, a experiência desperta a impressão de que o autor pode retornar com trabalhos ainda mais marcantes em suas próximas iniciativas.




