Rosemead (2025)

Mater dolorosa

título original (ano)
Rosemead (2025)
país
EUA
gênero
Drama
duração
97 minutos
direção
Eric Lin
elenco
Lucy Liu, Lawrence Shou, Orion Lee, Madison Hu, James Chen, Jennifer Lim, Eleven Lee, Susan Pourfar, Jason Tottenham
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

Irene (Lucy Liu) tem uma crise de tosse, logo, descobre possuir um câncer em fase terminal. Seu filho Joe (Lawrence Shou) é tímido e sofre bullying na escola, e prontamente recebe o diagnóstico de esquizofrenia. Ambos atravessam o luto pelo pai/marido falecido recentemente. Além disso, a mãe chinesa começa a suspeitar que seu filho se tornará um assassino nas escolas locais, posto que o garoto pesquisa, com frequência, notícias a respeito de tiroteios em massa. Por isso, antes de morrer (ela tem poucos meses de vida, é claro), precisa garantir que o menino não ferirá ninguém.

Como se percebe, Rosemead não é nada sutil na maneira de apresentar seus personagens, ou introduzir os temas centrais desta discussão. O diretor Eric Lin, que assina o roteiro junto de Marilyn Fu, acredita no drama enquanto somatória de sofrimentos — de preferência, doenças, síndromes e tragédias. Quanto mais más notícias e martírios puder embutir na jornada de dois personagens, melhor. O autor realmente acredita honrar a maternidade, assim como a trajetória das imigrantes nos Estados Unidos, ao conceber esta versão pudica e determinada da mãe-coragem detetive, lutando contra o câncer e pesquisando a compra de armas ao mesmo tempo. Muitos filmes estimam, de fato, que o melhor destino para seus personagens se encontraria na redenção — portanto, quanto mais frágeis e diminuídos se encontrarem, maior a margem para sua ascensão.

O longa-metragem aborda problemas sociais e políticos gravíssimos enquanto dilemas pessoais, centrados na virtude e na força de vontade.

Por isso, faz questão de construir quadros explícitos de doenças. A mãe é caracterizada pelas perguntas clássicas à médica (“Quanto tempo eu tenho de vida?”), além de lencinhos com sangue jogados na lixeira, e do desejo de abrir uma poupança para a faculdade do menino. (Seu altruísmo faz dela uma heroína exemplar, pelo olhar hagiográfico do cineasta). O estudante, por sua vez, descrito única e exclusivamente enquanto esquizofrênico, escuta vozes, balança a cabeça, sustenta um olhar perdido no horizonte. Ele foge abruptamente dos encontros com amigos, faz desenhos assustadores e coleciona armas no sótão de casa. Pense em qualquer estereótipo associado a crianças perigosas — ele certamente se encontra nesta ilustração extravagante da psicopatia.

Lucy Liu, em sua caracterização de uma mulher chinesa, adota outros traços consagrados do olhar estrangeiro: as mãos seguradas castamente ao peito, o olhar baixo, os passos curtos. Ela porta um vestido florido, e ostenta uma mistura de recato e lentidão que se associaria às avós asiáticas. Os criadores têm pressa em fazer a trama avançar, razão pela qual as informações são oferecidas de maneira conveniente e artificial: o garoto mexe no lixo, sem motivo aparente, para encontrar tanto o lenço ensanguentado quanto o folheto da venda da loja, sem falar no frasco de medicamentos da mãe. Em paralelo, esta encontra os desenhos sombrios e as pesquisas do menino num simples olhar (computadores e dispositivos eletrônicos permanecem acessíveis, sem senha). Ao ligarem a televisão e o rádio, ambos escutam, de imediato, notícias a respeito de tiroteios em escolas norte-americanas.

Ora, a tendência a resumir personagens às suas dores provoca diversos problemas na experiência de Rosemead. Em primeiro lugar, o apelo à piedade. Lin jamais observa estes personagens de igual para igual. Num ponto de vista religioso (a narrativa é inteiramente permeada pela estética cristã), estima que precisamos ter dó da mãe que se sacrifica em nome do futuro do garoto, mesmo sem ter tempo para cuidar do próprio corpo, ou de efetuar o luto pelo marido. Além disso, devemos sentir pena do estudante, vítima de sua condição metal, e lamentar, de modo geral, que tais situações aconteçam. O diretor estima que o caso — tornado bastante grave no terço final — não seria responsabilidade de ninguém. Mera culpa da fatalidade, à la Bovary.

Logo, em segundo lugar, o longa-metragem aborda problemas sociais e políticos gravíssimos enquanto dilemas pessoais, centrados na virtude e na força de vontade. Diante de mais de 90 minutos concentrados na formação de um possível assassino em série, o drama estima que caberia apenas ao esforço da mãe conter os impulsos do menino. Nada é dito a respeito do papel da escola, das lojas vendendo armas, do governo, das instituições públicas de saúde. Filhos matadores são coisas que acontecem, simples assim. Há certo fatalismo, e também condescendência, impedindo a direção de enxergar a violência juvenil (sobretudo masculina) enquanto fenômeno central a uma cultura específica. O roteiro prefere acreditar em algumas maçãs podres, conforme diria o ditado em inglês. 

Em terceiro lugar, nota-se um aspecto estranhamente perverso na promessa reiterada ao espectador, cena após cena, de que o menino matará alguém. O texto acumula indícios de uma psicopatia caricatural, prometendo certa empolgação através da pergunta: ele vai mesmo matar alguém? Quando? De que forma? A condição de saúde de Joe se torna veículo para uma “eletrizante corrida contra o relógio”, ao invés de um drama humanista capaz de considerar a sua dor. De mesmo modo, a penúria da mulher, sofrendo com a própria morte iminente, somada à morte do marido, e às prováveis mortes causadas pelo filho, deveriam fazer dela uma figura ainda mais virtuosa (novamente, julgando pela perspectiva cristã da penitência).

Rosemead desenvolve este espetáculo da miséria com todos os tiques de um filme indie voltado à projeção no Festival de Sundance: os close-ups excessivos nos atores, as cores pastéis e doces, a trilha acolhedora, a profundidade de campo limitada. É preciso que os personagens sejam perturbadíssimos, embora o espectador jamais fique perturbado com este testemunho. Lembremos: a dor deles constitui nosso entretenimento. Logo, nem a evolução dos personagens soa plausível (a mãe passando da negação à função-detetive em segundos; o garoto alternando da melancolia à coleção de armas em poucas cenas); nem a condução estética agrada aos sentidos (vide a insistência num plano desajeitado com o drone, trepidando até chegar à janela). Este projeto fornece um belo exemplo de como não abordar doenças ou problemas de saúde mental, e como não representar uma história real nos cinemas.

Rosemead (2025)
2
Nota 2/10

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