
O casal formado por Angela (Olivia Wilde) e Joe (Seth Rogen) conversa constantemente a respeito dos vizinhos do andar de cima. Queixam-se dos gemidos de prazer durante a madrugada, que atrapalham o sono e se traduzem numa afronta à própria falta de sexo dos dois. A espanhola Pina (Penélope Cruz) possui uma aparência misteriosa, livre, sedutora, enquanto Hawk (Edward Norton) surpreende desde o próprio nome. Enquanto os protagonistas reclamam da rotina — a dor nas costas, a dificuldade de escolher a tinta para pintar a parede, os gastos nos ingredientes para o jantar —, os recém-chegados demonstram prazer em testemunhar o caos alheio.
O Convite explora esta dinâmica de contrastes. A partir de quatro figuras radicalmente diferentes, brinca com as possíveis combinações e alternâncias de poder. Logo, as mulheres se unem em determinado momento contra os homens; e os casais se posicionam em oposição ao outro. Às vezes, Joe ameaça estragar a falsa cordialidade com reclamações dos orgasmos barulhentos; adiante, Angela sofre com o princípio de uma crise de ansiedade. Depois, Hawk chama a atenção devido à paixão por tapetes, e Pina, pela experiência como psicoterapeuta. A estrutura passa da gritaria ao humor físico; do melodrama ao conflito singelo e intimista. Há espaço para tanto para o erotismo quanto para a ridicularização do mesmo.
O roteiro escrito por Will McCormack e Rashida Jones explora variações de sentimentos, tons e interações através dos distintos cômodos da casa. Explora a sensação de ver e ser visto, de infringir as regras e se adequar às mesmas. Em certa medida, a narrativa opõe o típico casal norte-americano puritano e “perfeito” (embora desgastado, incompatível com a contemporaneidade) à figura dos namorados recentes, formados pela estrangeira e pelo sujeito que mudou de nome e reinventou uma identidade para si. Entram em choque a tradição e a modernidade, o modelo patriarcal e o relacionamento comandado pelas vontades da mulher. Ironicamente, a dupla na faixa dos 50 anos se mostra muito mais libertária e libertina do que seus equivalentes, dez anos mais jovens.
O Convite se sobressai por enxergar, por trás da aparência insólita da tensão erótica, dilemas humanos de fácil identificação por parte de qualquer casal.
Para os atores, o dispositivo se converte num verdadeiro banquete. Há inúmeras transformações emocionais em pouco tempo, a partir de um texto que alterna sarcasmo, raiva e ternura genuínas. Talvez fosse fácil representar os vizinhos fãs de orgias como uma dupla histriônica e “exótica”. Entretanto, uma das belezas da iniciativa consiste em fazer o contrário, enxergando comedimento e racionalidade na dupla que promove festas sexuais em sua casa, e reservando a histeria àqueles que “seguem as regras”. Por isso, o tom das trocas entre Joe e Angela se encontra alguns graus acima, inclusive na atuação de Wilde e Rogan. Eles precisam ilustrar falência do modelo conservador, justamente na noite em que a relação será testada em definitivo — depois daquilo, ou reatam, ou se separam de vez. O caráter despretensioso de uma noite de vinho e aperitivos logo assume um aspecto bastante consequente.
Obras do tipo oferecem ao público adulto a rara oportunidade de se deleitar unicamente com o jogo cênico. Nada de amplos movimentos de câmera, cenários chamativos, efeitos visuais, outras correrias, perseguições ou “distrações” estéticas vaidosas. O conflito depende da clausura, da vontade de expulsar e fazer sexo com os vizinhos ao mesmo tempo — em outras palavras, desta mistura de admiração, desejo e repulsa que Pina e Hawk produzem. Premissas similares a Quem Tem Medo de Virginia Woolf? e Deus da Carnificina sempre levantam questionamentos lógicos evidentes: por que as pessoas ofendidas simplesmente não vão embora? Por que permanecem? Ora, O Convite justifica bem este enfrentamento, posto que, desta vez, os recém-chegados estão muito mais confortáveis do que os anfitriões. Joe e Angela, por sua vez, não teriam para onde fugir.
O apartamento se converte num personagem à parte. Elegante, belo, mas também frio e impessoal, este espaço espelha a dinâmica dos protagonistas. Não por acaso, o marido e a esposa angustiados vestem a mesma cor cinza-azulada das paredes e da decoração. Fundem-se ao ambiente tais quais peças de mobiliário. Explicam a decisão de uma recente “reforma sem mudança”, nas palavras dela — ou seja, modernizaram a aparência ao introduzirem novas versões das peças de antigamente. A recusa em sair desta configuração infeliz se espelha neste e em outros símbolos óbvios, porém, eficazes. Assim, o apartamento de Joe e Angela é descrito como frio demais. “Não há calor aqui”, ela se queixa, ao que Hawk, insinuando a proposta sexual, corrige: “Nunca se sabe”.
Na direção, Wilde se mostra hábil na exploração geográfica dos cômodos e corredores. Bons diretores conseguem segmentar o enquadramento de espaços internos através de batentes de portas e janelas, de modo a separar os personagens no interior de uma única imagem (algo que Woody Allen fazia com maestria, 40 anos atrás). A direção de fotografia de Adam Newport-Berra brinca discretamente com as diferentes profundidades de campo, para distanciar marido e a esposa através de desfoques, ou lançar atenção a detalhes nos cenários. Na hora de sua explosão emocional, Joe se encontra imediatamente acima de uma lâmpada que lhe projeta uma luz assustadora, de baixo para cima, ao limite da paródia. O fato que os vizinhos tenham comparecido ao jantar, mas deixado a luz acesa no cômodo que permite a visão dos anfitriões, desperta a ideia de que há vida pulsando ali. Conta-se parte dos sentimentos através da luz, que preserva uma rara textura de película.


Por fim, os convidados servem como terapeutas involuntários — catalisadoras para que a dupla central finalmente encare os problemas que vinha evitando. Por trás da promessa farsesca de sexo intenso, a comédia dramática visa chegar aos traumas, dores e angústias de cada membro daquele espaço. O longa-metragem nunca foge do sexo (que domina as conversas e os pensamentos), mas o compreende enquanto concretização de uma intimidade, ou sintoma de um estado emocional. Fala-se em sexo anal masculino, suruba e orgasmos barulhentos no intuito de escancarar o fato de que uma dupla ali nem mesmo se olha nos olhos. Parte-se da euforia à depressão, e então, à doce melancolia de uma conclusão belíssima, em aberto, transmitindo tanto a dor quanto a ternura remanescente nestas figuras. (É simbólico que um casal simplesmente desapareça, como se tivesse sido imaginado — em outras palavras, um sonho, ou um projeção erótica dos outros dois).
Para Wilde, esta iniciativa constitui uma bela oportunidade de testar sua habilidade como diretora de atores, mas também manejar um conteúdo obviamente teatral, adaptado, por sua vez, no filme espanhol Sentimental (2020), de Cesc Gay. Por isso, a direção de arte, a fotografia e a montagem jamais roubam o protagonismo dos quatro excelentes intérpretes, se digladiando neste ringue de aparente normalidade. (O incômodo, afinal, reside na tentativa de manter a cordialidade em contexto de profunda raiva e desejo). Já para o espectador, o prazer decorre do absoluto controle de Penélope Cruz na sedução, ou nas provocações calculadíssimas de Edward Norton. A cineasta nunca ridiculariza o sexo, nem ri das dores dos quatro. Ela nos convida a compreender o ponto de cada um, embarcando em seus ressentimentos. Parte-se de uma empatia fundamental, que impede a conversão destas figuras em caricaturas de um teatro vaudeville. O Convite se sobressai por enxergar, por trás da aparência insólita da tensão erótica, dilemas humanos de fácil identificação por parte de qualquer casal.




