
Para uma temática violenta, uma estética violenta. Para uma história de abusos, gritos e dores, uma linguagem do choque, buscando estar à altura de tamanha catarse. Desta maneira, a diretora Pepa Lubojacki parte para contar a própria história familiar, com foco no irmão mais velho. David Lubojacki desenvolveu o vício profundo por álcool, a ponto de perder o emprego, a casa, e viver pelas ruas geladas de Praga, enfrentando diversos problemas de saúde. O pai dele já havia morrido em decorrência do álcool, assim como o pai da diretora. Mesmo a mãe de ambos lutou contra o problema. Ao longo de sete anos, o projeto registra as crises e períodos de relativa estabilidade, entre lares temporários, pequenos empregos e internações hospitalares.
No entanto, a obra tcheca-eslovaca se afasta dos códigos do realismo social. Ao invés do pressuposto de observar a vida como ela é, prefere intervir o máximo possível nos materiais caseiros, realizados com uma câmera de celular, nas mãos da cineasta. Logo, ela modifica fotos da infância com a ajuda de Inteligência Artificial; introduz o personagem de um pombo com olhos e boca humanos, comentando os acontecimentos; projeta letreiros sobre os cenários, e efetua inúmeros comentários a respeito de si própria, ao som de hip hop. Novos comentários surgem ao lado da tela, e acima dela. Se Pombos Virassem Ouro é um projeto inteiramente ornado, saturado, tal qual um muro repleto de grafites e pichações.
Em sua abordagem extrema, pop, colorida e frenética, Lubojacki ajuda a pensar os rumos estéticos da produção documental.
A questão do IA salta aos olhos, até por ocupar a integralidade da narrativa. A ferramenta ainda desperta enormes reticências no meio cultural e artístico, devido ao uso indiscriminado e acrítico de tantos produtores, que enxergam uma oportunidade de reduzir contratações e diminuir custos de realização. (Em outras palavras, a substituição de trabalhadores). Entretanto, a autora emprega este recurso tal qual um filtro das redes sociais, de modo assumidamente cômico e artificial. No caso, recupera fotos de si mesma e do irmão, quando crianças, modificando as bocas para que os pequenos teçam comentários a respeito da dependência, das consequências do álcool no cérebro, da dopamina e de outros processos relacionados à compulsão. A exemplo do pombo-comentarista, as crianças servem a oferecer explicações fatuais com inesperada leveza.
A linguagem do filme acompanha um estilo semelhante em sua totalidade. Os planos são curtíssimos, rapidamente intercalados com flashes do irmão em casebres, ou no hospital. O presente se funde ao passado (as fotos quando adolescente, andando de skate pela cidade); a vida dele se intercala com aquela dos amigos próximos e de Pepa, e as captações in loco se alternam com performances da autora. A este propósito, ela decide mergulhar num lago gélido, vestindo casacos e gorros; posiciona-se sobre uma pilha de brinquedos e objetos; e raspa os cabelos para a câmera. Nota-se a vontade do choque, do incômodo, ou ao menos, de um efeito de desconforto transmitido ao espectador. Para o bem ou para o mal, Pepa faz da família a matéria-prima para sua street art.
Ao menos, adota precauções éticas fundamentais. Jamais revela o rosto da mãe, riscando-o em fotos, e preferindo gravações sonoras em off. Sobre o pai, que abandonou o irmão na infância, utiliza apenas fotografias antigas, modificadas digitalmente. David é filmado em certo grau de embriaguez, porém, nunca em crises agudas — os episódios de convulsão e os instantes de desespero, sugeridos em off, são eliminados pela montagem. A autora prefere expor a si mesma do que aos demais. Enquanto os protege consideravelmente no processo, também acaba por se converter no símbolo frontal de tanto sofrimento — o que culmina em suas tendências suicidas.
Se Pombos Virassem Ouro sustenta teses bastante fortes, relacionadas à adição. Sugere que não se trata apenas de força de vontade, posto que os efeitos da abstinência são mais fortes que o impulso de sobrevivência. Insiste que “os padrões se repetem”, ou seja, pais dependentes tendem a formar filhos dependentes ou, pelo menos, emocionalmente instáveis. Garante que não adianta tentar ajudar quem não deseja ser ajudado, embora seja inevitável o impulso ingênuo de implorar para que a pessoa querida pare de beber. Revela que os danos causados na vítima e nos indivíduos ao redor são crônicos. Em especial, insiste no ciclo de culpa, de raiva, de indignação. “Você já fez o luto por alguém que ainda não morreu?”, repetem os letreiros. “Você não tem medo de morrer?”, ela pergunta ao irmão. A resposta é negativa.
Devido a tamanha crueza, assim como à estética urbana, de colagens e performances, o resultado se assemelha a um videoclipe. Soa tão agradável quanto brutal, tão engraçado, em determinados momentos, quanto profundamente triste, nos demais. A fala de pombos com olhos arregalados provoca o humor do ridículo, ainda que as pústulas no corpo do rapaz retirado das ruas sejam assustadoras. A autora navega entre estes estímulos díspares e fortes: o escárnio, a repulsa, a indignação, o temor. Pretende capturar o espectador por meio das emoções mais epidérmicas, apenas para transmitir, por baixo da pilha de tiques e ornamentos, uma mensagem de compaixão para com pessoas em situação de vulnerabilidade.


Em paralelo, a obra abraça o imperativo do humor, do escárnio e da paródia enquanto únicas formas de comunicação funcionais no século XXI. Logo, para dialogar com a juventude, refletindo acerca de um tema de tamanha gravidade, precisa despertas sensações diametralmente opostas. Nada da solenidade como forma de respeito — agora, a legitimidade provém do lugar de fala (Lubojacki conta uma história que viveu, e conhece bem) e da autoexposição (ela pode mostrar o irmão em situação de fragilidade, contanto que revele suas cicatrizes de maneira ainda mais explícita). Em consequência, atualiza os pressupostos da pop art, para a qual o artista equivalia à obra, tornando-se a matéria-prima da própria criação. Andy Warhol gostaria de um filme como este?
De certo modo, ele aponta para tendências do documentário contemporâneo. Vencedor dos prêmios de melhor documentário, e do Caligari no Festival de Berlim, o projeto revela uma tendência a desconstruir a aura jornalística e informativa desta linguagem. Os novos diretores abraçam efusivamente a estética das redes sociais, do videoclipe, da cultura da selfie, do amadorismo assumido enquanto tal. É muito mais fácil se identificar com estas captações do reflexo do espelho, com as brincadeiras e cantorias em frente ao celular, do que seria uma explanação professoral a respeito dos riscos da dependência química. Em sua abordagem extrema, pop, colorida e frenética, Lubojacki ajuda a pensar os rumos estéticos da produção documental. A iniciativa vale tanto pela discussão narrativa quanto na condição de sintoma de uma época.




