A Fabulosa Máquina do Tempo é “um convite a olhar para a infância com curiosidade e respeito”, afirma Eliza Capai

Depois de uma impressionante trajetória em festivais de cinema, A Fabulosa Máquina do Tempo chega aos cinemas brasileiros, dia 30 de julho de 2026. No filme, a diretora Eliza Capai viaja ao Piauí, e filma um grupo de garotas brincando de interpretar as suas mães. Ao contrário da geração adulta, presa ao machismo e às poucas chances de ascensão social, essas meninas têm sonhos, e não se imaginam casadas. Afinal, o que mudou na sociedade em 20 anos?

O documentário parte das brincadeiras e simulações para entender o poder das imagens, e analisar este Brasil enxergado pelos jovens. O projeto estreou no Festival de Berlim, e depois venceu o CinePE e foi premiado na Mostra Ecofalante e no Festival de Vitória.

A cineasta conversou com o Meio Amargo sobre este projeto tão singular:

Por que decidiu filmar especificamente em Guaribas (PI)?
Eliza Capai: Eu fui para Guaribas pela primeira vez em 2013. Venho do jornalismo, e naquela época, ainda não tinha lançado o meu primeiro filme. Li um livro chamadoVozes do Bolsa Família, que falava sobre como o fato de esse programa privilegiar a entrega do dinheiro para as mulheres acabava questionando os lugares de gênero. Assim, as mulheres eram a única pessoa dentro da família que recebia algum dinheiro todos os meses. Fiquei muito encantada com a possibilidade de entender e investigar isso.
Tive dúvidas sobre onde ir, e pensei em várias cidades. Acabei decidindo por Guaribas porque era a cidade-piloto do Fome Zero, e depois se tornou fundamental para o Bolsa Família. O Piauí era um dos estados que mais recebia o benefício. Claro que não pode se falar em causa e consequência, mas eu entendi aquilo como tendo alguma ligação. E eu fui para Guaribas fazer essa investigação, graças a uma microbolsa da Agência Pública de Jornalismo Investigativo.
A princípio, eu deveria fazer texto e foto, mas a Natália Viana, que era editora, me convenceu a fazer texto, foto e vídeo. Ainda bem que ela que me perturbou! Fiquei com sentimentos muito complexos ao escutar as mulheres na humildade, dizendo que viveram a escravidão. Sem comida, sem roupa. Comecei a conversar com as mulheres, e todas me diziam que o sonho de criança era pegar um bom marido, que lhes desse valor. Ou seja, o valor da mulher era definido pela presença masculina.
Então eu decidi conversar com as meninas, filhas dessas mulheres. Elas estavam na escola, bem alimentadas, e todas falavam que não queriam casar, nem ter filho. Então pensei: já há uma mudança da possibilidade de subjetividade, com o sucesso pensado a partir da própria autonomia. Percebi que aquele era o início de um processo histórico, e saí de lá sabendo que voltaria. Treze anos depois, aqui estamos.

Como chegou nestas famílias, e nestas meninas específicas? Todas toparam de imediato participar do filme?
Eliza Capai: Depois de 2013, eu voltei em 2021, e me juntei com a Mariana Genescá, da Mana Cine, que é a minha parceirona. A gente conseguiu um fundo, e assim voltei em 2021 para localizar essas famílias que eu tinha gravado em 2013. Assim eu conheci essas novas crianças — a primeira geração que nasceu com direito de estudar, e com possibilidade de sonhar. Algumas eram TikTokers. Fiquei apaixonada, e me senti numa máquina do tempo. Conseguimos então a produção da Mana Cine, com a Globo Filmes e Globo News.
Entendi que a melhor forma de chegar naquele espaço, enquanto contrapartida social, seria dando uma oficina. Então, selecionamos 15 meninas de 7 a 12 anos e demos uma oficina de vídeo dentro do SESC local. Surgiu uma relação muito carinhosa com elas, ensinando como fazer cinema e entendendo de que forma viam esse processo de saída da escravidão por um lado, e de questionamento do machismo histórico, por outro. Sendo meio que a professora, eu já conhecia essas mães, até porque é uma cidade muito pequena. No caso da Manu, por exemplo, eu a conheci quando ela tinha um mês de idade, então já conhecia a mãe dela.
Então já tinha alguma confiança em mim pela cidade, e elas tinham assistido a um curta anterior meu. Nós éramos as educadoras, por causa das oficinas, e quando as crianças nos aceitam, a comunidade também aceita. E as mães tiveram uma enorme confiança na gente.
Mas eu não cheguei com o formato pronto, explicando como o filme seria. Eu cheguei para entender com as crianças como o filme deveria ser. Eu sabia as perguntas do filme, mas não tinha ideia das respostas, nem tinha estabelecido este formato. Tudo isso surgiu no processo.

Justamente, em que medida aquelas interações eram roteirizadas?
Eliza Capai: Eu vi muitos filmes protagonizados por adolescentes, e muitos filmes passados no sertão, desde Deus e o Diabo na Terra do Sol a Bacurau. Fui me preenchendo desses filmes, entendendo o que fazia sentido, o que não fazia, e pensando no papel da religiosidade, dos corpos no sertão, da subjetividade infantil.
Então, com a Carol Quintanilha na fotografia, decidimos que o filme todo seria em 50 mm, abertura 1.2. Era uma câmera muito próxima, de foco preciso. Começamos a pensar nesses dispositivos antes, e fomos à 25 de Março para comprar objetos e fantasias. Assim, surgiu a ideia da máquina do tempo enquanto brincadeira, um ponto de partida para investigar o passado e as possibilidades de futuro — e, assim, entender o presente delas.
A gente tinha muita curiosidade de entender como elas fariam. Pensei em filmar as entrevistas com elas nesse fundo neutro do quadro verde, dentro da sala de aula da nossa oficina. Não sabia se aquilo ia ser parte da pesquisa, ou se seria incorporado no filme. A entrevista com as mães foi um dos exercícios da oficina, e a partir dessas conversas, observamos que elas aprenderam coisas, e brincaram sobre estes relatos. A Manu descobriu que a mãe dela era frustrada por ter tido filhos cedo, em consequência, ela brincou de ser uma mãe frustrada. A Sofia descobriu que criança também morre, e brincou de ser zumbi. Então entendemos algo, que a gente já intuía, a respeito do poder da brincadeira na compreensão do mundo. De alguma forma, nossa observação sobre a vida delas determinou como o filme precisava ser.
Assim começam a vir as cenas. Eu mostrava esse material de arquivo de 2013 e perguntava o que elas achavam, muitas vezes para iniciar o papo. Eu dava algumas ideias de cena, mas elas sempre detestavam minha proposta inicial! Então elas imaginavam outras ideias, até a gente chegar naquele formato. No final, eram grandes brincadeiras, né? Por isso, algumas pessoas chamam o filme de híbrido, mas para mim, é um filme de brincadeira, e a brincadeira não diferencia o real do profissional. Para a criança, se ela está brincando de zumbi, ela é um zumbi mesmo. Na edição, o Daniel Grinspum e eu testamos essa estrutura tradicional de documentário, com arco das protagonistas, mas ficou horrível. O filme parecia nos dizer: “Cara, brinca comigo. Esquece as regras que você aprendeu, e vamos brincar juntos”.

Por trás da aparência despojada, você discute temas seríssimos do alcoolismo, da sexualidade, da religião. Como lidou com questões de intimidade e privacidade?
Eliza Capai: Era preciso ter muito bom senso na hora da edição. São crianças, né? Muitas respostas que me davam, eu não tinha como utilizar. Tivemos grande preocupação em protegê-las, entendendo que é um documentário sobre meninas. Sempre tenho bastante cuidando quanto faço documentários. Fico lembrando constantemente que aquela é uma pessoa, e que o filme vai interferir na vida dela. Fiz isso desde a série da Elize Matsunaga, que pode ser uma criminosa, mas é um ser humano ali.
No mundo das crianças, essa preocupação cresce exponencialmente. Uma das cenas mais complexas do filme ocorre quando a Sofia começa a sofrer bullying porque o pai bebe. Este é um tema transversal na nossa sociedade. Muitos de nós somos Sofias, vivendo a questão do alcoolismo em casa. Era importante debater essa questão com as crianças, para tirar do lugar de tabu, e pensar em como nos curamos emocionalmente. Eu não teria colocado essa cena no filme, se a própria mãe da Sofia não tivesse trazido o tema para a entrevista. Para ela, era importante.
Eu entendo que, nessa história, muitas famílias encontram um final feliz através da Igreja Evangélica. Isso dá um nó na cabeça das pessoas mais cinéfilas que, em geral, são progressistas, de esquerda, com uma visão crítica da presença das das igrejas pentecostais no Brasil, até por entenderem a relação com o poder político. Achei essa complexidade interessante. A gente trabalhou este tema com muito cuidado na edição, e só entrou porque a adulta responsável pela Sofia validou, e sentiu a necessidade de falar.
A igreja foi o tema que eu tive mais cuidado de tratar. Porque eu, como ser político, observando a maneira como as igrejas pentecostais têm agido com a União, com a extrema-direita no Brasil, tenho muitas críticas no macro. Mas no micro, eu consigo entender a importância para essas famílias de ter um lugar de comunhão, um lugar de cuidado, onde as mulheres podem ir arrumadas, cantarem e serem respeitadas por isso. Ainda é um local onde as crianças são cuidadas nos finais de semana — tipo um espaço de educação. Posso concordar ou não com essa educação, mas as crianças estão sendo cuidadas. Então, eu achei interessante quando as crianças fizeram aquela cena polêmica, que partiu de uma ideia delas. Desta maneira, conseguiram trazer algo que ainda não tinham elaborado verbalmente. Através das brincadeiras, entenderam esse sistema com maior profundidade.

Seja por causa das oficinas, ou por pertencerem a uma geração que cresceu com celulares, elas parecem muito acostumadas às imagens, e a ter um dispositivo na frente delas.
Eliza Capai: Olha, algumas pessoas ainda pensam que documentário é realidade, mas vamos combinar que não é, né? Sempre que existe uma câmera, ou um celular apontado para a minha cara, até meu tom de voz muda, mesmo que eu não queira. Quando estamos sendo observados, a gente performa de maneira diferente.
Estas crianças são TikTokers, então tinham alguma consciência. Mas eu achei muito interessante que naquela hora, por exemplo, em que ela diz que vai me ajudar com a câmera, ela não está falando como criança, mas como a mãe fictícia daquela família. Ela encarna a mãe de uma família com três filhas, enquanto conversa com a câmera. Aquilo vira realidade para ela. Elas tinham consciência do jogo e, ao mesmo tempo, essa era a fronteira da brincadeira. Achei muito bonito quando a Alice, a amiga adolescente que tinha parado de brincar com elas, ria de saudade quando via a equipe. Se a gente for pensar, o cinema é uma brincadeira de adulto, né? A gente brinca de criar fantasias, de imaginar. Quando a gente cresce e faz cinema, voltamos para esse lugar de poder inventar mundos. Então a Alice nos vê, enquanto adultos, inventando os mundos, e ela vem brincar com a gente da equipe. Ela pensa: “Se elas adultas podem brincar, eu também posso”. Nesse momento, a gente consegue promover um reencontro entre essas crianças que tinham saudades da amiga mais velha, e essa amiga mais velha, que se permite brincar só por ser uma brincadeira de adulto.
Para mim, ali se revela a magia do cinema. O filme se potencializa quando entra nesse lugar da brincadeira, porque muitos filmes tratam as crianças como objeto, como se dissessem: “Deixa eu te mostrar como as crianças são”. Mas neste caso, foi criado em conjunto, com elas. Ao invés de objetos, consegui ver as meninas como sujeitos de ação, como agentes. Tinha realmente uma horizontalidade, e essa é uma das coisas mais bonitas do filme, na minha opinião. Elas eram tratadas de igual para igual.

Quando elas perceberam que aquilo se tornaria um filme, que seria visto pelo mundo inteiro?
Eliza Capai: Olha, algumas pessoas veem o filme e nos falam: “Nossa, essas meninas são incríveis, né?”. Sim, as crianças em geral são incríveis, só que a gente se coloca num lugar de doutriná-las. Geralmente, a comunicação é vertical, estabelecendo regras para elas seguirem, para não serem selvagens. Quando a gente se coloca num lugar da horizontalidade com elas, ensinamos, mas também aprendemos com elas. A gente teve essa curiosidade autêntica de aprender com elas. O meu sonho era ver através dos olhos delas essa saída da miséria e o questionamento do machismo estrutural. Então, elas tinham realmente muitas coisas para me ensinar.
A nossa pequena equipe inteira entrou nesse mood de horizontalidade com elas, e isso gerou uma confiança preciosa. A gente se tornou confidente delas. Éramos as adultas com que elas podiam conversar sobre temas que, em geral, tinham vergonha de conversar com adultos. De alguma forma, o filme é um convite a olhar para a infância com curiosidade e respeito. A gente só tem a ganhar, inclusive para pensar em futuros melhores. A gente está fracassando do ponto de vista geopolítico. Então, vamos dar uma atenção ali, para encontrarmos outras saídas. A saída do sonho delas, da imaginação, me alimentou muito, por perceber que algumas delas não vão repetir os passados das mães.
Então é óbvio que eu tive todo o cuidado do mundo em relação ao processo, porque sei como é se ver retratado na tela. No meu último filme, Incompatível com a Vida, eu me retratava, e fiquei absolutamente em pânico na estreia do filme. Pensei: “Eu estou eternizando uma imagem minha e ao mesmo tempo, aquilo foi de tanta cura para mim”. Eu sinto que, depois do Incompatível, eu vou radicalizar cada vez mais no cinema, porque entendi isso em primeira pessoa. Mas eu tinha uma preocupação muito grande de como seria a experiência aelas se vendo. Se elas iam se amar assim como eu amo vê-las, sabe?
Então eu fui buscá-las para ir para Berlim. A gente assistiu com as meninas e a mãe no quarto de hotel, e elas gargalharam o filme inteiro. Fiquei aliviada! A primeira vez que elas entraram no cinema foi na Casa de Cultura, com mais de mil pessoas para assistirem a elas naquela tela gigante. E elas gargalharam o filme inteiro. Fiquei feliz com esse poder de elas se verem de fora, e entenderem a potência da vida delas. A Rafa fez um comentário: “Nossa, elas são tão felizes no filme!”. E perguntamos: “Mas você não acha que elas são sempre assim?” Ela parou, e pensou: “É, elas são assim mesmo, né?”. Então existe esse poder do afastamento. O cinema permite ver o próprio real com mais generosidade, e talvez com mais carinho em relação ao que está acontecendo.

Esteticamente, muitos filmes sobre a infância são bem abertos à espontaneidade, com uma luz estourada ou câmera tremida, por compreender que as crianças são imprevisíveis. Mas o seu filme tem um rigor de composição, de luz e de som impressionantes.
Eliza Capai: A Carol foi muito mais do que uma fotógrafa, a gente formava uma dupla criativa. Antes do filme, a gente conversou bastante, trocamos muitas referências. Chegamos no moodboard bem preciso, eu quando olhei pra ele de novo, depois do filme, percebi que estava tudo lá. Acabamos chegando neste conceito claro. Quando ela propôs a lente fixa, eu achei completamente sem noção. Como a gente poderia fazer, numa situação sem controle? Ela nem tinha assistente! Mas a Carol respondeu: “Eu dou conta”. Então eu topei.
Assim, a câmera chega perto, sempre na altura das crianças. Existia uma horizontalidade com as crianças, e por isso a Carol tinha a câmera na cintura dela. A gente conversou sobre todos esses aspectos técnicos e estéticos antes, por isso, na hora, não precisamos conversar. Eu não fiquei olhando, e nem tinha monitor. Ficava um pouco ansiosa, mas havia confiança para saber que as duas estavam conectadas. Assim, ficou muito bonito. Enquanto as crianças brincavam, elas costumavam repetir: por exemplo, a zumbi morreu e ressuscitou várias vezes. Com isso, a câmera cada vez podia se posicionar em outro lugar, e a gente editava plano e contraplano a partir da brincadeira. A Carol brincou com elas através da fotografia. A Carol é uma poeta das imagens, muito generosa, até na decupagem.

Por fim, foi muito interessante levar ao Festival de Berlim uma realidade brasileira que muitos brasileiros nem mesmo conhecem. Como foi a experiência?
Eliza Capai: Eu fiquei muito feliz, por dois motivos. Primeiro, por ter a chance de ver os outros filmes brasileiros. Foi uma emoção imensa encontrar tantos Brasis ali. A presença cearense foi uma coisa fantástica: 20% dos filmes brasileiros em Berlim eram do Ceará. Isso fala muito sobre a descentralização necessária do cinema no Brasil.
E tinha a presença brasileira especificamente na Mostra Geração. De toda a mostra, 25% dos filmes eram brasileiros, e acho que quase metade dos filmes brasileiros estava lá, falando sobre infância e adolescência. Isso corresponde a um desejo do Brasil em falar sobre utopia, sobre outros futuros, onde as nossas crianças queiram viver.
Em segundo lugar, fiquei em êxtase porque a gente conseguiu levar três das meninas. A Manuzinha falou que entrar no avião era como entrar na máquina do tempo. Foi incrível poder propiciar isso para essas crianças, ainda tão jovens. Duas delas estavam sem a mãe na Europa. Elas ficaram alegres, numa fome linda de conhecer os lugares. E a reação do público tem sido marcada por tantas risadas! Depois de um Incompatível com a Vida, quando as pessoas terminavam chorando nas cadeiras, poder ver essa alegria me enche o coração. Na estreia em Berlim, teve até aplauso no meio do filme, quando a Manu falou que preferia ter um cachorrinho do que um marido, porque marido é chato. A plateia começou a aplaudir!
Muita gente me disse que se conectou com a própria criança interior, lembrando quem foram e quem sonhavam em ser. Elas se enxergaram neste presente, que é o futuro da nossa infância. Então, tem sido uma uma recepção muito carinhosa. Estou muito, muito feliz. Acho que as pessoas vão se enxergar bastante nessa nessa máquina do tempo em que o Brasil entrou. Ainda temos muitas questões a trabalhar, mas 20 anos atrás, o país ainda estava no mapa da fome da ONU. Conseguimos um presente melhor do que eu poderia ter imaginado, quando criança.

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