No 33º Festival de Cinema de Vitória, uma das seções mais aguardadas, a Mostra Corsário, comportou todo o leque daquilo que se convencionou chamar de cinema experimental. Atualmente, qualquer história não-narrativa, incapaz de se inserir em outras categorias canônicas (ficção, documentário, animação), é guardada nesta gaveta de nenhum dos anteriores, enquanto algo diferente, estranho, difícil de descrever. Segundo a acepção popular, o experimental se definiria por exclusão. Mas, afinal, o que uma obra precisaria conter para representar de fato a experimentação sugerida pelo nome?
Em geral, estas obras são associadas às pesquisas com texturas de imagem, fragmentação, repetição, sobreposição, justaposição. É comum incorporar as falhas, excessos, ruídos, glitches. Com frequência, as telas se dividem, as cores se alteram, as vozes se dissociam de seu referencial e se associam a estímulos distintos. A artificialidade e o artifício chamam atenção a si próprios. Estas iniciativas provocam o espectador, ao invés de reconfortá-lo ou entretê-lo no sentido clássico do termo. Solicitam nossa atenção, não exatamente para decifrar o que se passa (às vezes, não há nada a decifrar), mas para nos deleitar com configurações inesperadas de som e imagem, em vias assumidamente abertas de interpretação. Em muitos casos, esta seria uma sensação semelhante àquela de nos deparar com um quadro abstrato ou minimalista nas paredes do museu de arte contemporânea.
Tamanha liberdade de agenciamento também pode conduzir a uma tentadora onipotência. Ora, se o filme experimental não precisa desenvolver uma história, nem apresentar personagens, nem seguir regras clássicas de gosto, tom ou objetivo, então ele pode tudo, o que, para tantos artistas, equivale à sugestão de que qualquer coisa vale. Não são raros os projetos experimentais cuja montagem, ou exploração de materiais, soa atrelada ao acaso. Estão ausentes o conceito estético, a coesão de linguagem, a pesquisa plástica. Faz o que tu queres, pois é tudo da lei! Não, o filme não é confuso, pobre, mal estruturado, ele é apenas experimental. Era essa a intenção. O “gênero” se converte em padrão de qualidade – ou carta-branca para qualquer padrão de qualidade.

Ora, alguns projetos da Mostra Corsária nos lembram da coerência que esta forma de cinema pode oferecer. Vim e Irei como uma Profecia, de Fábio Rogério, concentra-se nas conversas online entre o pesquisador do audiovisual Jean-Claude Bernardet e o crítico de cinema Wesley Pereira de Castro. O primeiro, já idoso, está praticamente cego, e apenas imagina o rosto e o corpo do rapaz que deseja. O segundo o provoca, vaidoso devido à atenção recebida. Enquanto conversam, a tela se divide em seis quadrados, cujas cores mudam de acordo com a intensidade das falas. Ora o som direto provém de uma dupla de telas, ora, das duplas seguintes.
Rogério tinge a melancolia deste ato de sedução (um homem desejante que não enxerga seu objeto de desejo; um profissional de baixa renda, relatando seus traumas relacionados à violência sexual) de modo a romper com expectativas de tom. De fato, o projeto surpreende pelo humor. Nunca experimenta por experimentar, nem soterra o conteúdo humano com os procedimentos de linguagem. Insiste em utilizar tais ferramentas de modo a valorizar as trocas entre os personagens — jamais o contrário. Pode-se falar numa abordagem madura e humanista, como de costume nos trabalhos do prolífico cineasta.

Em chave muito distinta, Trivakra, de Sofia Angst, aposta numa experimentação ostensiva, enquanto meio e finalidade da obra. Interferências eletrônicas multicoloridas agitam-se sobre a tela, conforme um sistema busca identificar padrões conhecidos ali dentro. Acredita encontrar um rosto, um vaso, uma garrafa, com tal porcentagem de certeza, numerada para o espectador. Este procedimento nos remete à frequente sensação diante das obras experimentais na totalidade, quando muitos espectadores tentam identificar elementos figurativos e concretos na jornada que se esforça em não construi-los. Seria algo como enxergar formas de animais nas nuvens.
A proposta é instigante e bem adequada ao formato do curta-metragem, explorando a contento o dispositivo da identificação digital. Entretanto, a sinopse sugere algo dificílimo de encontrar no filme em si. “As memórias de uma criança são atravessadas por biotecnologias que remodelam o seu corpo e a sua história. A seringa jorrante de um rito travesti de aplicação hormonal inaugura uma falha na matrix do gênero e do vídeo, onde ossos e peles são desmaterializados no ciberespaço”. Caso a criadora esperasse esta compreensão precisa do espectador, talvez não tenha obtido sucesso, afinal.

Filme-Copacabana, de Sofia Leão, oferece a trajetória mais acessível ao espectador, dentre os títulos da mostra. A cineasta efetua diversas captações do bairro carioca, com foco especial às excentricidades de vestimenta e comportamento. Assim, transparece o olhar atento ao diferente: os homens em situação de rua, dançando livremente, as madames com seus cachorros usando roupas, e assim por diante. Tanto o show da Madonna quanto a passeata conversadora pró-Bolsonaro nos lembram como o mesmo espaço pode ser apropriado por grupos sociais tão distintos.
Enquanto experimentação, prova-se simples. Nunca almeja mais do que este mosaico de uma diversidade entre extremos, certamente temperada pelo bom humor, fruto tanto dos personagens quanto da ironia da montagem. A ficção a respeito de uma jovem filmando tais cenas possui efeito modesto (qual efeito a autora procurava realmente alcançar?). Mesmo assim, não prejudica a obra, que escolhe um excelente momento para se encerrar, através de um ótima imagem de despedida para o espectador. (Algo que não soa como prioridade a muitos autores).

A situação se torna mais desafiadora diante de Diálogo Bulbul, dirigido coletivamente por Bruno Churuska, Gledson Augusto, Nicole Mendes, Yan Altino e Zimá Domingos. A ideia de uma conversa contemporânea com a obra do grande autor de Abolição e Alma no Olho é bastante válida, assim como a necessidade de romper com o ideal salvacionista ainda imputado à Princesa Isabel.
Entretanto, o emprego dos letreiros se faz cada vez mais hermético, assim como os segmentos escolhidos pelos autores. O curta-metragem se encerra em associações pouco frutíferas entre som e imagem, despertando a impressão de que a pesquisa de materiais poderia ser aprofundada — sobretudo devido ao delicado desafio que os criadores impõem a si próprios, ao evocarem o nome de Zózimo Bulbul no título, enquanto horizonte e ideal de luta negra.

Mas, sem dúvida, a obra mais fraca do conjunto é Depois Levanta Voo ou Abisma-se, de Marcus Neves, Aline Dias e o coletivo GEXS. Enquanto o coletivo cria música eletrônica, a autora elabora imagens para acompanhar os “sons rítmicos” e “pulsações visuais” mencionados pela legenda descritiva. Segue-se uma captação bastante aleatória, repetindo a imagem de um pássaro que se choca contra a janela, além de copas de árvores e ventanias comuns.
De modo geral, a pesquisa sonora nunca encontra uma imagem à altura, elaborada com semelhante esmero e pesquisa. O casamento entre ambos os registros resulta fortuito, cansativo, repetindo-se a esmo, pelo direito e prazer de fazê-lo. Este seria um cinema experimental, sem dúvida. No entanto, que experimentação audiovisual ele traria ao espectador?
Às vezes, alguns filmes deste universo fecham-se tanto sobre si mesmos, pensando pouco no diálogo com o público, que aparentam se legitimar pela satisfação dos próprios criadores no processo. O espectador, por mais esforçado ou disposto que seja, é colocado de fora de uma obra que se desenvolve apesar dele.
Assim, os cinco títulos ajudam a pensar a riqueza de uma forma de linguagem, tão bem quanto mal empregada, sob o mesmo guarda-chuva do temido e admirado cinema experimental.



