Darcy Fagundes: Meu Famoso Pai Desconhecido (2026)

Cinema como trégua

título original (ano)
Darcy Fagundes: Meu Famoso Pai Desconhecido (2026)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
77 minutos
direção
Luciane Fagundes
visto em
54º Festival de Gramado (2026)

Enquanto personagem do próprio filme, a diretora Luciane Fagundes confessa que teve uma relação turbulenta com o pai. Explica ter deixado a casa da família aos 15 anos, em desacordo com os ideais tradicionalistas de Darcy Fagundes. Além disso, rebelava-se contra o alcoolismo do radialista, que comprometeu o relacionamento entre eles. No entanto, ao final da sessão, ela própria declara: “Hoje eu me reconheço como filha de Darcy Fagundes”. Afinal, ela desenvolve um longa-metragem inteiro em homenagem a esta figura patriarcal contra quem guardava tanto ressentimento. O projeto soa, em primeiro lugar, enquanto esforço simbólico de reconciliação com o falecido pai.

Inicialmente, a narrativa investe na tradicional colagem de elogios. Muitos documentários hagiográficos procuram capturar a atenção do espectador logo nos primeiros instantes, sublinhando a leitura positivíssima que esperam instigar a respeito do personagem. Neste caso, entendemos que o comunicador gaúcho foi um “artista nato”, “muito simpático”, “pioneiro”, de “talento imensurável, tão completo”, “grande artista, grande intérprete”. Adiante, o enaltecimento persiste: Darcy “tinha uma sensibilidade muito grande”, era “o grande romântico”, “encantador por sua força”, “autêntico de verdade”, dotado de um “vocabulário próprio, porque ninguém declamava como ele”. Ajudou vários amigos, valorizou o trabalho das mulheres, recebeu elogios de Grande Otelo.

O filme se justifica pela admiração conquistada às duras penas em relação ao sujeito ausente, mas também por uma parcela nada negligenciável de culpa e de remorso.

Neste contexto, as eventuais falas a respeito de suas negligências paternas despertam um irônico alívio ao espectador. Isso porque constituem uma pequena exceção para aquilo que se aproximava, até então, da biografia de um santo. Felizmente, enxerga-se uma figura um pouco mais realista, apesar do saldo ser obviamente lisonjeiro. Os testemunhos concentrados em membros da família e especialistas na cultura gaúcha insistem, em uníssono, no profundo valor do protagonista. Desta forma, a filha oferece um presente ao pai, quase um pedido de desculpas. Existe um evidente caráter terapêutico nesta empreitada — sendo, pelo menos, reconhecido pela autora, que assume a escolha de se posicionar enquanto personagem central da obra.

Tal decisão motiva algumas escolhas curiosas de mise en scène. A principal delas consiste na estranhíssima ferramenta da autoentrevista. Luciane concede entrevista a si própria, no filme que ela dirige, respondendo às perguntas formuladas por si mesma. Poucas obras investem em um recurso de tamanha artificialidade, até porque a direção (sobretudo em um documentário pessoal e familiar) já constitui um epicentro de imenso controle do discurso. Desta maneira, a diretora poderia transmitir qualquer ponto de vista que preferisse a respeito deste pai, a partir das imagens, sons e perspectivas que estimasse apropriados. Ela vai além, acrescentando a própria fala, na entrevista mais longa do filme, garantindo que este não seja apenas o filme dela, mas também sobre ela, do ponto de vista dela. Tamanha ingerência transmite, por si só, uma necessidade de afirmação face ao pai famoso e imponente.

Em acréscimo às autoentrevistas, outra escolha inesperada diz respeito às cenas posadas e encenadas, envolvendo a própria diretora. Há cinco ou seis sequências protagonizadas por Luciane Fagundes, caminhando por locais fundamentais da história do pai, em silêncio. Ela admira as paredes e corredores, antes de se apoiar em algum guarda-corpo e admirar o horizonte. Estas singelas ficções se provam bastante convenientes, rígidas, como se a filha desejasse ocupar, física e figurativamente, o local dominado por Darcy (o espaço de sua vivência, da atuação e da performance). Agora, ela cria sua oportunidade para brilhar, tomando os holofotes e estrelando fragmentos solitários, em espaços vazios, reservados a ela. (Psicanalistas devem se deliciar com esta conversa individual, ou ainda, este braço de ferro de uma pessoa só).

Exceto pelos procedimentos anódinos, os demais se revelam convencionais, e um tando desgastados. Abraça-se a configuração das cabeças falantes (talking heads), com as pessoas sentadas, num mesmo ângulo, e devidamente identificadas na tela. Neste caso, o desenho de som resulta desigual em termos de captação e montagem; enquanto a iluminação das entrevistas varia bastante — vide o homem iluminado com uma fonte direta sobre o corpo, que lhe projeta uma forte sombra, e deixa o fio da lapela visível na camisa aberta. A própria fala da diretora desperta estranhamento pelos tons amarelados, pouco contrastados, em sinal de uma atípica escolha de correção de cor. 

Quanto à utilização de material de arquivo, opta-se pelo show and tell, ou seja, revelar exatamente aquilo que as imagens descrevem. Menciona-se um pássaro e seu ovo, então observamos a ave e o ovo em questão. Fala-se da importância do pai na rádio, o que motiva uma dezena de inserções bastante genéricas de rádios antigos. Menciona-se a cultura gaúcha tradicional, associada pela montagem às estepes, aos cavalos, às bombachas. Em nenhuma circunstância a montagem de Rogério Brasil Ferrari permite qualquer atrito entre som e imagem, ou entre os distintos depoimentos. Nunca se buscam metáforas, representações simbólicas ou poéticas da admiração temerária (e, agora, reconciliada) com o comunicador. Os criadores se atêm a uma indicialidade acadêmica: menciona-se uma passagem da vida do homem, e dá-lhe a notícia correspondente num recorte de jornal.

“Talvez eu esteja querendo, nesse momento, pagar alguma coisa ao meu pai”, reconhece a cineasta, que adiante se diz arrependida de um insulto bastante singelo contra o radialista durante a infância. Logo, Darcy Fagundes: Meu Famoso Pai Desconhecido se justifica pela admiração conquistada às duras penas em relação ao sujeito ausente, mas também por uma parcela nada negligenciável de culpa e de remorso. (Tais conclusões se fazem possíveis unicamente pela insistência da própria direção no enfoque psicanalítico, e nesta necessidade simbólica de matar o pai). O cinema se faz exercício terapêutico, mas também estratégia de compensação a um vazio pessoal. Todo filme transmite, por definição, algo a respeito da psique e da ideologia de seus criadores, porém, este certamente o faz em nível mais explícito, por vontade da própria criadora. Ao espectador, resta nos posicionar entre uma manifestação de empatia por tal gesto de humildade, ou o desconforto de nos intrometer, forçosamente, na terapia familiar alheia. 

Darcy Fagundes: Meu Famoso Pai Desconhecido (2026)
3
Nota 3/10

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