
Segundo um provérbio, “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança” — e também pra erguer uma casa, de acordo com este filme. Empeleitada acompanha, do início ao final, a construção de uma casa de taipa por parte dos moradores de uma comunidade Xucuru, no agreste pernambucano. Os homens cortam a madeira e erguem a estrutura; as mulheres cozinham para todos, e as crianças pisam o barro que servirá para finalizar as paredes. Diariamente, escolhem-se o local, as dimensões, a posição das janelas, o cronograma da obra. Cantam juntos para incentivar o esforço braçal, e também para se recordarem do propósito desta ação.
Afinal, este gesto equivale a um símbolo da retomada territorial. A delimitação da terra, e a elaboração de uma residência a partir do empenho coletivo significa um marco zero de ocupação do espaço que sempre lhes pertenceu, apesar da ameaça constante proveniente de fazendeiros e seus capangas. O documentário dirigido por Micaele Xucuru, Chico Ludermir e Sérgio Borges relembra diversas lideranças indígenas assassinadas por sua luta, com ênfase em Xikão, morto por posseiros em 1998, depois de ocupar a região da Pedra d’Água. Mesmo assim, em oposição a simplesmente recordar os fatos jornalísticos, os autores pensam numa maneira de evocar o seu legado — presente sobretudo através da força e união deste povo, firme na intenção de prosseguir com as ideias do líder.
Elege-se um elemento (a casa) capaz de representar o direito à terra, o valor atribuído ao trabalho, os costumes particulares, os esforços distribuídos e o protagonismo coletivo.
De certa forma, o documentário foge à estética padrão da maioria de obras indígenas presentes em festivais brasileiros. De costume, estes projetos têm se focado em práticas ritualísticas e especificidades de cada grupo, apresentando-as ao espectador branco, a quem se solicita entendimento, compaixão e solidariedade. É comum encontrar um tom de denúncia combinado ao realismo social de viés etnográfico. Ora, o longa-metragem pernambucano adota um ponto de vista distinto. Em primeiro lugar, não há falas diretamente à câmera (exceto por intervenções de Xikão em material de arquivo). Nas captações contemporâneas, ninguém se dirige ao espectador, informando-o ou provocando-o de nenhuma forma.
Em segundo lugar, jamais se recorre a uma demonstração de costumes visando o esclarecimento de um interlocutor presumido inculto. Os personagens deste filme agem apesar de nós, espectadores, ao invés de para nós. Edificam a casa em questão diante de uma câmera cúmplice, muito próxima dos corpos e dos procedimentos. Mesmo assim, jamais aparentam agir de alguma forma específica para as câmeras, por saberem que são filmados. Os diretores — dentre os quais se insere uma mulher Xucuru — estabelecem tal intimidade com os personagens que jamais aparentam alterar o cotidiano da comunidade em função da presença de uma equipe audiovisual. Assim, eles conversam, carregam madeira e alinham suas vigas como se nem houvesse dispositivo presente para registrar o momento. As ações acontecem apesar do filme.
Em iniciativas do gênero, percebe-se habitualmente uma estética da urgência, acomodando-se como se pode às atitudes espontâneas e não-condicionadas dos protagonistas. Afinal, eles não cumprem com ordens dos autores para se movimentarem de um jeito específico, nem repetirem processos para as necessidades da câmera — estamos longe do olhar do outro nos moldes de Nanook, o Esquimó. Em contrapartida, surpreende bastante a riqueza estética alcançada pelos diretores de fotografia Ernesto de Carvalho, Breno César e Diego Xucuru. O trio alcança um olhar típico de cronista, atento a detalhes e pequenezas. Juntos, enxergam a beleza dos gestos mais simples, enquadrados com a atenção e o rigor estético típicos das ficções de profundo controle por parte dos criadores.
Logo, enquanto os homens martelam as madeiras do teto, alguns pregos sobre o chão saltam com o impacto das batidas. Conforme um rapaz alisa as paredes, um feixe de luz atravessa a única parte ainda exposta do texto, desenhando uma listra sobre o muro. Quando todos dançam em comemoração, a imagem se volta aos pés de uma criança, calçando chinelos, e aprendendo a reproduzir a coreografia dos adultos. A câmera se encontra dentro da casa quando os moradores atiram, da parte de fora, o último barro que concluirá a construção. Em detrimento de um típico olhar distanciado, pensando a luta indígena somente pelo escopo macroestrutural, os cineastas se encantam com os processos cotidianos, simples, dotados de humor e leveza. Os cantos, as provocações, as conversas banais durante um almoço tornam aquela realidade tão palpável quanto carinhosa.
Em consequência, a política se torna menos didática. Compreendemos precisamente a luta do povo Xucuru nem necessitar das imagens mais aguardadas, e um tanto previsíveis, das ocupações do Congresso, ou dos habitantes chorando a morte de seus líderes. Elabora-se a tão falada política dos afetos, dispensando romantizações e a glamourização da vida alheia. Em chave metonímica, elege-se um elemento (a casa) capaz de representar, por si próprio, o direito à terra, o valor atribuído ao trabalho, os costumes particulares, os esforços distribuídos, e o protagonismo coletivo (dos Xucuru e do próprio filme). As discussões a respeito de conflitos, assassinatos e demarcações de terra decorrem naturalmente da escolha de um tema central capaz de despertá-las, dispensando uma menção externa artificial por parte de roteiro e montagem.


Por fim, o belo Empeleitada soa animador enquanto proposta de uma diversificação da estética indígena. Esta produção, ainda relativamente recente (sobretudo, efetuada por indígenas), tem se concentrado numa linguagem documental bastante direta, e austera em sua relação com o real. Aos poucos, encontram-se as primeiras liberdades poéticas, tão necessárias ao desenvolvimento de narrativas próprias. Talvez o próximo passo se encontre em uma fundamental montagem indígena. Os esforços têm se concentrado, sobretudo, na viabilização de filmagens por parte dos membros destas comunidades, possibilitando o acesso à câmera e os conhecimentos precisos para tal.
Entretanto, uma vez produzidas as imagens, elas sempre são orquestradas por montadores brancos — que, na ampla maioria dos casos, efetuam belíssimos trabalhos, diga-se de passagem. No entanto, talvez se possa pensar numa autonomia estética e produtiva destes povos a partir do momento em que controlarem igualmente o ritmo, a duração, os atritos entre os registros. Como se trata de percepções distintas de tempo, seria fundamental que isso se traduzisse num ponto de vista semelhante por parte da montagem. Mas este passo chegará, espera-se. Projetos como Empeleitada (e Floresta do Fim do Mundo, A Mulher Sem Chão, A Transformação de Canuto) comprovam que a cinematografia indígena se multiplica e amadurece numa velocidade animadora.



